Me lembro da maresia que invadia as ruas de Copacabana. Ao atravessar o Túnel Novo já se percebia uma atmosfera espessa, uma névoa, e o cheiro de mar. A umidade que colava na calçada. Seria real ou ilusão de uma criança? Depois disso a praia foi aterrada e o mar empurrado para dezenas de metros adiante. Então é possível que antes esse fenômeno acontecesse mesmo.

Eu me lembro dos voos dos morcegos perto da árvore de sapoti. De sua entrada pelas janelas, e do medo que, em seu voo cego, batessem em mim.

Eu me lembro do saco surrado de bolinhas de gude. Não me lembro muito do jogo, nem se jogava bem. Mas, de alguma forma, eu acumulava bolinhas, minha riqueza. Eram muito para quem tinha tão pouco.

Eu me lembro das caminhadas solitárias pela borda do mar, mar calmo da Baía de Guanabara. De andar equilibrando na mureta ao longo desse mar, passando por amendoeiras, dono do meu tempo e do meu querer.

Me lembro das placas de piche na praia da Freguesia, na Ilha do Governador. Eram placas arredondadas, de tamanhos diversos, originadas da lavagem displicente e criminosa dos porões dos petroleiros na Baía de Guanabara.  Em certos dias, era difícil não pisar nelas, que grudavam na sola do pé. Na saída da praia, além de retirar a areia dos pés, era preciso passar um graveto para tirar a parte mais grossa das placas. Mas as manchas escuras na sola do pé só com o varsol, que já ficava na borda do tanque esperando o momento de ser útil.

Me lembro do bonde que subia para o Alto da Boa Vista. À medida em que subia, a temperatura ia baixando, e o verde das árvores dominando a paisagem. No ponto final o cobrador virava os encostos dos bancos e o que era atrás virava frente. Aí era só descer com o mesmo bonde. Passeio bom e barato para quem tinha pouco dinheiro.

Lembro também das borboletas no caminho do trem do Corcovado. Mais do que do Cristo ou da paisagem, me recordo da profusão de borboletas voando do lado de fora das janelas do trem.

Me lembro das horas de aulas matadas na Quinta da Boa Vista, da gravata ensebada do Pedro II, com o nó sempre pronto.

Me lembro da ida em bando à praia, sem camisa, descalço, só com o dinheiro da passagem no bolso da bermuda, para não ter a preocupação de deixar algo na areia enquanto passávamos horas dentro d’água.

Tenho a deliciosa lembrança de atravessar de pedalinho a Lagoa Rodrigo de Freitas à noite, por cortesia do amigo que lá trabalhava, para tomar sorvete em Ipanema nas noites de verão.

O Rio é a minha casa, está gravado na minha pele, nas minhas memórias, no que eu sou.

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

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