Foto: Palácio Campanema - Roberto Anderson

Em março de 2019, num jantar com lideranças conservadoras em Washington, Bolsonaro afirmou que não pretendia construir coisas para o povo, mas desconstruir, desfazer muita coisa. Promessa feita, promessa cumprida. Já no primeiro dia de seu governo, ele extinguiu o Ministério da Cultura. A Secretaria Especial da Cultura, o que sobrou do antigo ministério, esteve nas mãos de um imitador do ideólogo do nazismo, depois nas mãos de uma atriz ensandecida e agora nas mãos de um ator de quinta categoria, que se pretende um arauto dos valores cristãos e moralistas (e que se deixa fotografar armado). 

Também foram virados ao avesso o Ministério da Educação, o da saúde, o da justiça, o do meio ambiente, o das mulheres, a Funai, a Fundação Palmares, a Procuradoria Geral da República, e tantas outras instituições que passaram a fazer o contrário daquilo a que se destinavam. O mais recente ato desse processo destrutivo e, infelizmente, não o último, é a proposta de venda num feirão de imóveis do símbolo da cultura e da modernidade brasileira, o Palácio Gustavo Capanema. Para Paulo Guedes, o prédio é apenas um bem material que pode render alguns trocados. Para Bolsonaro, é mais uma cacetada na cultura e a oportunidade de financiar o seu programa eleitoreiro de bolsa, que substituiria o Bolsa Família.

É curioso pensar que em pleno Estado Novo, num ambiente repressivo, quando se construía como imagem do governo ditatorial edifícios de arquitetura pesada e fascista, como o do Ministério da Fazenda, tenha surgido um raio de luz, como o Capanema. O arquiteto que teve seu projeto preterido, depois de ter vencido o concurso, acusou de esquerdistas os autores do projeto do Capanema. Mas, imediatamente, o edifício se tornou um símbolo do país aberto para o futuro que se queria construir.

Ali estavam concretizadas as ideias propagadas por Le Corbusier: o edifício sobre pilotis, a planta livre, a fachada livre, janelas em fita e o terraço jardim. A equipe que o projetou era comandada por Lucio Costa, e contava com Carlos Leão, Oscar Niemeyer, Affonso Eduardo Reidy, Ernani Vasconcelos e Jorge Moreira. Complementam essa arquitetura inovadora os painéis de azulejos, os murais e as pinturas de Portinari, os jardins de Burle Marx, as pinturas de Guignard e Pancetti e as esculturas de Bruno Giorgi, Adriana Janacópulos, Jacques Lipchitz e Celso Antonio Silveira de Menezes. 

Esse grupo de artistas e arquitetos foi capaz de criar uma obra ímpar, que maravilhou a todos, foi fotografada e comentada nos principais jornais e revistas de vários países, sem falar naquelas publicações especializadas em arquitetura e nos livros sobre o tema. O Brasil surpreendia o mundo, o Brasil era moderno.

Mas nem só a arquitetura e os objetos artísticos fizeram a importância do Palácio Capanema. O edifício, até recentemente, abrigava, entre outros, a Fundação Biblioteca Nacional (FBN), a Fundação Nacional de Arte (FUNARTE), a Fundação Palmares, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Tais instituições, que davam vida ao Capanema, só deixaram o edifício para que ocorresse a sua necessária restauração. Entre as pessoas ilustres que lá trabalharam, não se pode deixar de mencionar Carlos Drumond de Andrade que, mesmo consagrado, não abandonou a função pública. Pode-se imaginar o poeta atravessando os pilotis e entrando no saguão do antigo MEC.

O Palácio Capanema tem uma presença marcante no espaço urbano do Centro. Construído onde um dia existiu o Morro do Castelo, o Capanema ocupa quase sozinho uma quadra inteira. A sua singularidade está em que um edifício assim, que entregou a maior parte do seu solo ao desfrute do público, erguendo-se sobre pilotis, não se repetiu na vizinhança. E nem no restante da cidade. Como resultado, o contraste com os edifícios circundantes, alinhados em suas divisas, e em grande parte austeros, é uma das coisas mais interessantes daquela região. O Capanema é a praça, é a rua, é a travessia livre, é a exposição de arte ao ar livre, sem deixar de ser o edifício, abrigo de tantas atividades importantes para nossa cultura.

Por fim, não devemos esquecer a apropriação do Capanema durante o carnaval. Nos últimos anos, com o retorno do bom carnaval de rua, e com o incontrolável surgimento de blocos e sub-blocos, alguns famosos, outros quase clandestinos, o pátio do Palácio Capanema se transformou em lugar de espraiamento desses blocos. Vindos do confinamento das ruas, eles adentram o Capanema e se espalham. É o momento das performances dos grupos de fantasias, da finalização da paquera, da pausa para a água, e do extravasamento da criatividade de cada folião, convidado a expressar toda a sua criatividade.

Guedes é ignorante de tudo isso. Pelo estado em que se encontra a vida dos brasileiros, não se sabe se domina sequer a matéria econômica. O Superintendente de Patrimônio da União também não sabe nada sobre a história do Capanema, mas insistiu que não via nada demais na sua venda. O Secretário Especial da Cultura que, ao chegar à Mostra Internacional de Arquitetura da Bienal de Veneza, ignorava quem havia sido Lina Bo Bardi, a homenageada do evento, por que saberia algo sobre um marco da arquitetura mundial? E Bolsonaro? Esse sabe o necessário: que é preciso destruir.

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

2 COMENTÁRIOS

  1. O senhor Roberto Anderson mostra que mesmo laureando-se doutor pode-se manter-se abilolado das ideias. O texto todo é apenas uma forma forçada de criticar o governo federal e a pessoa do presidente. Mas como não houve coragem de fazer uma crítica pura e direta, meteu o Palácio Capanema no meio.

    Responda-me, por favor, o que tem de incompatível a venda do prédio com a manutenção da cultura e da arquitetura? Uma vez vendido, passarão uma retroescavadeira no prédio? Exportarão ao exterior? Deixarão desmontado pedra-sobre-pedra? Meu Deus do Céu, que gente chata: o que este senhor escreve é apenas esperneio para manter um Estado cheio de imóveis dando custo pra sociedade!

    Vendido o prédio, alguém gerará renda com ele. O Estado do RJ hoje necessita de negócios, não de blablabla. Infelizmente, Blablabla é a única coisa que o referido professor pôde nos oferecer aqui hoje.

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