Brasil e Cuba têm similaridades, sempre apontadas por brasileiros que visitam aquele país. Em se tratando de Havana e Rio de Janeiro, algumas semelhanças podem ser encontradas nos processos de evolução urbana das duas cidades, hoje tão diferenciadas em função de projetos políticos e econômicos dos países em que se encontram.

Depois de fundada em 1514 na costa sul de Cuba, Havana se deslocou em 1519 para a costa nordeste, junto ao Rio Almendares e, no mesmo ano, novamente, para junto da Baía de Havana. Também a vila portuguesa de São Sebastião do Rio de Janeiro, fundada em 1565 na entrada da atual Baía de Guanabara, se transladou dois anos depois para o Morro do Castelo. Logo em seguida, a cidade iniciou a conquista da área plana da Várzea de Nossa Senhora do Ó, estabelecendo uma malha em curva côncava, acompanhando a linha da costa. Em Havana, a malha ortogonal da cidade histórica apenas se reteve junto ao litoral, este de forma convexa.

Em Havana, entre os anos de 1663 e 1740, a necessidade de proteção levou à construção de uma muralha, derrubada a partir de 1863. Já no Rio de Janeiro, depois das invasões francesas de 1710 e 1711, foi planejada a construção de tal proteção que, no entanto, jamais foi concluída. Entre 1834 e 1838, o Governador cubano Miguel Tacón realizou uma série de melhorias urbanas, entre as quais a construção de ruas largas em Havana. Neste período, o Rio de Janeiro foi objeto de projetos do “urbanismo imperial” de Grandjean de Montigny, que propôs, por exemplo, grandes eixos ligando o Paço Imperial ao Paço de São Cristóvão.

No século XIX, após a ida de D. João VI para São Cristóvão, ocorreu a ocupação do centro do Rio por uma população mais pobre e por imigrantes, com a construção de cortiços e a transformação de vários casarões em casas de cômodos. Processo semelhante ocorreu no centro de Havana, com a localização ali de bordéis e fábricas de charutos. 

Entre 1898 e 1902, com Cuba sob o domínio americano, foi construído em Havana o Malecón, a sua orla marítima, e teve início a ocupação em direção ao Vedado. Já no Rio de Janeiro, a Reforma Passos, no início do século XX, criou a Avenida Beira-Mar, valorizando o acesso às áreas residenciais de Botafogo, Flamengo e demais bairros da Zona Sul.

No entanto, uma diferença fundamental existe entre o Rio e Havana: aqui ocorreu uma reconstrução constante sobre o mesmo sítio histórico. Já em Havana, segundo o professor Roberto Segre, não houve uma “superposição progressiva de funções dentro dos limites do mesmo âmbito espacial” já que, no século XIX, a burguesia crioula de Havana instalou-se na “zona extramuros e ocupou os terrenos livres criados pela demolição das muralhas”[1]. Naquela cidade, as residências de luxo se localizaram inicialmente na área do Cerro e, no início do século XIX, expandiram-se para a área do Vedado, Miramar e Country. Como entre tais áreas de expansão e a área central havia permanecido uma área livre de edificações, houve espaço para a futura expansão da cidade no século XX.

Já o Rio de Janeiro passou por processos traumáticos de demolições e reedificações no seu Centro, de forma a ali estabelecer a área de afirmação dos novos valores econômicos do novo século. A República, mesmo abandonando a Praça XV, área simbólica do Império, procurou, através das reformas do período Pereira Passos, recuperar o domínio da área central, demolindo cortiços, abrindo avenidas, alargando ruas e impondo normas de comportamento social na área central. Tal projeto levou à instalação ali de sedes bancárias, escritórios e dos principais estabelecimentos da nova sociedade capitalista brasileira. A demolição do Morro do Castelo, levando junto consigo o núcleo original da cidade, e a abertura da Avenida Presidente Vargas, representaram a expansão desse projeto.  

Em Havana, a ocupação da área livre adjacente ao Centro Histórico da cidade se concretizou com a implantação do plano de Forestier, em 1925. Tal intervenção se constituía de um plano urbanístico geral e de um plano de obras mais imediatas, com grandes eixos de perspectiva, anéis viários concêntricos e propostas de tratamento paisagístico para a área litorânea e as áreas livres no interior do tecido urbano.  As obras realizadas por uma equipe composta por arquitetos franceses e cubanos, sob a liderança de Forestier transformaram a imagem colonial da cidade, seguindo princípios beaux-arts, com influências das cidades-jardim, do higienismo e do funcionalismo.

Em 1911, Forestier, juntamente com outros urbanistas, havia fundado a Sociedade Francesa de Urbanistas (S.F.U.), baseada no racionalismo haussmanniano e nas teorias de Daniel Burnham e do City Beautiful Mouvement. Tais profissionais, até a Segunda Guerra Mundial, receberam propostas de trabalho em várias cidades da América Latina. Entre eles, se encontrava o urbanista Alfred Agache, convidado a trabalhar no Rio de Janeiro no fim da década de 1920, em função da existência de uma imensa área a ser urbanizada no Centro, resultante da demolição do Morro do Castelo.

O Plano Agache, a exemplo do plano de Forestier, também contou com um plano geral e um plano de obras e edificações, o qual era composto por praças monumentais marcadas por colunas e massas edificadas em largas avenidas. Se em Havana, Forestier propôs uma praça cívica na Loma de los Catalanes, no Rio de Janeiro Agache propôs os portais do Rio e do Brasil, e a Praça do Castelo. O Portal do Brasil seria construído na área aterrada da Glória, de onde partiriam duas avenidas de 64 metros.

Formalmente, há uma enorme semelhança entre a proposta de Forestier para a área de encontro da Avenida del Puerto com a Avenida del Palacio Presidencial em Havana, o “Embarcadero”, e o Portal do Brasil de Agache, ambos consistindo de uma larga avenida flanqueada por edificações monumentais em estilo Art-Decô e marcadas por um par de obeliscos. “O Rio de Janeiro oferecerá assim à admiração do viajante chegado por mar uma entrada monumental, correspondente à importância e aos destinos da capital. (…) É aí que desfilarão os soldados em dias de parada; é aí que as autoridades receberão as personalidades eminentes que chegarem por vapor ou por hidroavião, as quais poderão desembarcar por meio de lanchas diante da escada de honra emoldurada por duas grandiosas colunas rostrais.”[2] De forma similar ao sucedido em Havana, o Plano Agache para o Rio de Janeiro, também foi descartado após uma drástica mudança no poder central.

Depois desse momento, o Rio de Janeiro, e em especial o seu centro, passaram por mudanças profundas, com a demolição de boa parte dos sobrados remanescentes do século XIX e, mesmo, dos edifícios do início do século XX, para dar lugar a arranha-céus ao estilo americano. A cidade passou por um processo de forte intervenção na estrutura urbana, resultado da forma, muitas vezes agressiva, do capitalismo brasileiro. Também em Havana, as propostas de Le Corbusier influenciaram o plano de José Luiz Sert para aquela cidade, na década de 1950. Felizmente tal plano não foi executado, uma vez que teria sido ruinoso para o Centro Histórico de Havana, até então preservado pelos planos anteriores.

A Revolução Cubana terminou por promover um congelamento da feição urbanística de Havana, permitindo a manutenção de seu Centro Histórico, que lhe granjeou o atual status de Patrimônio Mundial da Unesco. Também outras áreas da cidade foram pouco afetadas, não tendo passado pela fúria demolidora do modernismo e da especulação imobiliária. Já o Rio de Janeiro, alcançou um certo equilíbrio entre reconstrução e preservação. Convive-se na cidade com uma sucessão de diversidades urbanísticas. A cidade descontínua, às vezes agressiva, outras evocativa do passado, se mostra caleidoscópica, multifacetada e incoerente, pois o Rio de Janeiro é a cidade resultante de processos históricos de um país periférico e americano, dentro do quadro de um capitalismo pouco controlado.


[1] Segre, Roberto, “El sistema monumental en la ciudad de la Habana: 1900/1930”, em Segre, Roberto, Lectura crítica del entorno cubano, Editorial Letras Cubanas, La Havbana, 1990, pp 91/113.

[2] Agache, Alfred. Cidade do Rio de Janeiro, Extensão – Remodelação – Embelezamento. Foyer Brézilien, Paris, 1930, p.161.

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

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