A COP 26 Glagow 2021 está prestes a começar e o mundo, ou pelo menos as pessoas bem-intencionadas, se pergunta se os dirigentes dos países estarão à altura dos desafios do momento. Se eles serão capazes de adotar medidas eficazes frente à gravidade da crise climática já em curso. Dos atuais dirigentes brasileiros esperamos pouco. Que, pelo menos, não contribuam para um isolamento ainda maior do país, que já foi um ator importante nas negociações ambientais em fóruns mundiais. Que não aumentem a nossa vergonha, já imensa. E que compreendam que mentir sobre o avassalador desmatamento que ocorre no Brasil, testemunhado por todos os satélites, é inútil.

Os problemas ambientais são gigantescos, com acúmulo de ações equivocadas, para dizer o mínimo. E agora a crise climática bate às nossas portas, provocando no Brasil o desaparecimento da água que cobria imensas áreas, tanto do Pantanal, como em outras regiões, a ocorrência de secas prolongadas, e de enchentes. As tempestades de areia que vêm se abatendo sobre algumas cidades brasileiras, em geral cercadas por extensas áreas do agronegócio, e com grande desmatamento, são o alerta de que o futuro poderá ser como um filme-catástrofe.

Abordagens ambientais nos projetos de intervenções urbanas podem contribuir na busca por soluções que mitiguem os danos já existentes. E ajudam na adaptação das cidades às exigências desses novos tempos. Um marco importante nesse sentido se deu com o livro O Jardim de Granito, de 1984, da autora Anne Spirn, que reuniu experiências que já vinham sendo tentadas em diversos lugares. Ela afirma:

Para o olhar desatento, as árvores e parques são os únicos remanescentes da natureza na cidade. Mas a natureza na cidade é muito mais do que árvores e jardins, e ervas nas frestas das calçadas e nos terrenos baldios. É o ar que respiramos, o solo que pisamos, a água que bebemos e expelimos e os organismos com os quais dividimos nosso habitat[1].

Entre as experiências que a autora analisa, está o projeto para Woodlands, no Texas, que ganhou o Prêmio Especial do Urban Land Institute. Segundo a autora, o projeto para a cidade trata a drenagem de águas pluviais com um sistema natural, composto por áreas de absorção das águas pluviais pelo solo, várzeas arborizadas e os vales de cursos d’água para escoar aguaceiros. As várzeas arborizadas que recebem as águas pluviais são também locais para parques e trilhas através da cidade.

É o que hoje chamamos de cidade-esponja, aquela que, através de uma série de recursos técnicos, é capaz de absorver as águas da chuva no seu próprio solo. Tal cidade tem uma drenagem das águas pluviais que não contribui para mais enchentes. Drenagem sustentável e a necessidade do aumento de áreas verdes nas cidades são duas questões, dentre muitas, para as quais se tem buscado novos formatos. São as chamadas soluções baseadas na natureza (SBN).

Dentre elas, os jardins de chuva despontam como uma ideia engenhosa, que busca captar as águas das chuvas em calçadas e ruas, permitindo que as mesmas se infiltrem no solo. Isso exige o cuidado de que os poluentes do asfalto não contaminem os lençóis freáticos. São então previstas camadas de brita e tecidos filtrantes que retenham tais poluentes. É importante que as plantas escolhidas para esses jardins sejam capazes de resistir a momentos de inundação do seu solo.

No Rio de Janeiro, o arquiteto Pierre-André Martin e a paisagista Cecília Herzog, incansável divulgadora das SBN, foram pioneiros na introdução desse conceito. Em 2019, eles conduziram uma oficina para a construção de um jardim de chuva na Fundição Progresso. Em seguida, a arquiteta Claudia Grangeiro coordenou a criação pela Prefeitura do jardim de chuva da Rua Almirante Gonçalves, em Copacabana, que contou com a adesão dos moradores. E a Fundação Parques e Jardins vem incluindo esse dispositivo nos seus projetos para áreas públicas da cidade.

Medida importante no combate ao aquecimento global é a ampliação das áreas arborizadas das cidades. As árvores capturam o carbono da atmosfera, que na forma de CO² é um dos gases responsáveis pelo efeito estufa, que provoca o aquecimento. Uma ideia interessante, que vem sendo realizada em mutirões em São Paulo, é a chamada floresta de bolso, desenvolvida pelo botânico Ricardo Cardim. O nome lembra o conceito de pocket park, que se refere a parques de pequenas dimensões surgidos no meio da cidade de Nova Iorque. Mas a floresta de bolso pretende recriar o ambiente de diversidade arbórea e a proximidade entre as espécies, característica da Mata Atlântica. O Largo do Batata, no bairro de Pinheiros em São Paulo, é um exemplo dessa iniciativa.

Apesar de terem demorado um pouco, arquitetos e urbanistas estão cada vez mais sensíveis à necessidade de se trazer o ideal de sustentabilidade para seus projetos. O repertório de SBN cresce à medida que as pesquisas avançam e novas realizações demonstram o acerto dessa escolha. Como a maioria das cidades do mundo, o Rio de Janeiro se desenvolveu transformando espaços naturais, através do desmonte de morros, de aterros de lagoas, alagados e áreas litorâneas, do desmatamento, e da impermeabilização do solo. Se formos inteligentes, iniciaremos o longo processo de transição para uma cidade que conviva com a sua natureza, ao invés de agredi-la.       

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

2 COMENTÁRIOS

  1. Bom dia seria de muito bom se o novo shopping Jacarepaguá adotasse esses jardins ou algo parecido no estacionamento.
    Embora está sendo colocado bastante árvores e jardins esqueceram de devolver água para o solo nesta grande área

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