Foto: Roberto Anderson

Os dias que cercam o 7 de setembro são conhecidos como a Semana da Pátria. E nela, o Exército, mais que qualquer outra força armada, sempre dominou as comemorações. Nesse atual momento, grave, em que o presidente da República, eleito pelo voto popular, busca um atalho para uma nova ditadura, dando a entender que teria o apoio das Forças Armadas, é preciso olhar para elas e buscar entender se podem ser amadas.

Em minhas lembranças, de pronto me vem a do golpe militar em 1964. A TV transmitia imagens de tanques nas ruas do Rio de Janeiro e, crianças que éramos, sabíamos que algo grave ocorria. Ninguém devia sair naqueles momentos de incerteza. Soldados armados apareciam nas imagens da TV, e os adultos se mostravam preocupados com algo que mudava o país. Mas, segundo o que compreendíamos, somente os militares tinham algum papel a desempenhar naqueles eventos. Os demais pareciam apenas assistir. 

Estranhamente, aqueles eram os mesmos soldados que me encantavam, quando minha mãe me levava para vê-los desfilar na avenida Presidente Vargas. Havia os pracinhas, imensamente aguardados e aplaudidos, por sua bravura em guerras passadas. Havia os tanques, os cavalos e cavaleiros, as fileiras de soldados marchando iguaizinhos, divididos por batalhões e uniformes diferentes, e havia os acrobatas em pirâmides nas motocicletas. Ali aprendíamos que podíamos amar nosso Exército. 

Depois, esse mesmo Exército se meteu em ações criminosas de repressão aos que lutavam contra a ditadura. De repente, eu passava a torcer contra, e a favor de guerrilheiros que haviam sequestrado mais um embaixador. Quanta subversão e rebeldia havia no ato do adolescente que eu era, de recortar o manifesto dos guerrilheiros, publicado a contragosto nos jornais, como forma de obter a libertação do embaixador! Aquele Exército da minha infância era agora o que prendia e torturava opositores. E eu sabia de que lado devia estar.

Reconquistada a democracia, as Forças Armadas passaram a representar o poder de assegurar a integridade territorial do país, sem se envolver em política. Mas eis o Exército de novo nas ruas da cidade, a pretexto de garantir a segurança de eventos internacionais. Só que, agora, apontando seus canhões para as favelas. Parecendo ter gostado da função, depois o Exército se encarregou ele próprio da fictícia segurança da cidade, sob intervenção.

Maré, Vila Kennedy, Jacarezinho, Pavão-Pavãozinho, Cantagalo e tantas outras favelas foram ocupadas militarmente. Única presença do Estado nesses locais, o Exército entrou já com data de saída. Intervenção pontual, com perdas de vidas como efeitos colaterais de um exercício de guerra em solo nacional. Entre o menino que via o desfile na avenida e o menino morador de favela, que viu os tanques ali chegando, quanta distância, quanta simpatia indo por água abaixo!

O mundo mudou, a guerra fria acabou, o muro de Berlim caiu, mas não percebemos que no ensino militar as teorias que balizavam aquele mundo continuavam a ser passadas a oficiais e soldados. É um mundo à parte, em prontidão contra o comunismo, em luta por mais verbas para armamentos, na defesa de aposentadorias precoces e das eternas pensões para suas filhas. Incapaz de entender o risco que a miséria representa para o país, e a necessidade de se manter a Amazônia florestada.

Especialmente entre as classes economicamente mais favorecidas, década após década, ocorre a mesma recusa em cumprir o serviço militar, a mesma sensação de se tratar do sequestro de um ano da vida de um estudante. É preciso conversar sobre isso. Que benefícios pode trazer a um jovem a obrigação de parar seus estudos para obedecer a ordens desconexas e realizar tarefas deletérias, como pintar meios-fios ou servir de garçom ou motorista para um superior? Poderia ser diferente, mas o serviço militar continua a ser considerado um estorvo por boa parte dos jovens. Deveria ser uma escolha? A profissionalização das Forças Armadas seria um caminho?

Discutir as Forças Armadas, a sua função no país, e a formação de seus oficiais e soldados é urgente. Sem isso, corremos sempre o risco de vê-las se envolvendo na política, se acreditando tutoras do Estado Democrático e, pior, sendo disputadas por grupos golpistas. Se quisermos amar nossas Forças Armadas, como o menino que as via desfilar na avenida, precisamos forçar por mudanças. E elas, já vimos, não virão de dentro.

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

5 COMENTÁRIOS

  1. Nunca li tanta ASNEIRA!!!
    Vc definitivamente não tem a menor idéia do q foi o regime militar!!!Kkkkkkkkkk
    Ocupação de favela?????Kkkkkkk vai inventar coisa assim lá na casa do chapéu!!!Mesmo porque tooooodas essas favelas eram mínimas meu filho!!!

  2. Fica uma dica: na internet tem diversos depoimentos de viva voz, de personagens que diziam lutar contra o regime militar, onde confessam que de fato eles lutavam era para implantar uma ditadura deles. Se esse articulista fosse um pouco só curioso ou honesto, não escreveria tantas asneiras.

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