Foto: Roberto Anderson

Numa tarde cinzenta, fria, uma visita ao cemitério Père-Lachaise em Paris. Em suas alamedas, que reproduzem para os mortos o sistema de ruas e lotes da cidade, reina o silêncio. Nele estão enterradas personalidades, como Edith Piaf, Balzac, Chopin, Molière e Proust. Cada sepultura conta uma história diferente. São mausoléus de famílias, com seus nomes tão franceses, e esculturas que podem representar dramaticamente a forma como morreu seu ocupante, ou o que de melhor sabia fazer em vida.

Hábitos curiosos se desenvolveram no Père-Lachaise. Jovens parisienses costumam vir cantar e se drogar junto à sepultura de Jim Morrison, do The Doors, que nela veio parar depois de uma overdose. A do jornalista Victor Noir tem uma escultura dele deitado, com riqueza de detalhes de sua vestimenta. O paletó está aberto, o sapato tem um salto muito alto, e a cartola está caída ao lado do corpo. As pessoas costumam alisar sua genitália, um pouco evidente, deixando-a brilhante, sem a pátina que recobre o restante da escultura. A sepultura de Oscar Wilde é um bloco de pedra rosada, contendo uma figura alada. É comum que seja beijada, como atestam as inúmeras marcas de batom que a recobrem.

No centro do cemitério, fica o edifício do forno crematório, austero. Suas chaminés emitem um som fino, um silvo que corta o silêncio. Ao seu redor, e no subsolo, fica o ossuário. Formando um quadriculado branco e preto, cada pequena tampa de mármore traz o nome das cinzas inquilinas, e uma foto ou uma flor de plástico.     

Uma senhora de negro estaciona seu carro perto de uma sepultura e, munida de uma vassoura, realiza uma pequena limpeza. Depois, satisfeita, se posta diante da mesma, ainda coberta de flores e começa as suas orações. Parece confiante de que assim o morto, quem sabe um ente querido, estará contente.

Outra senhora em vermelho passa ao longe. Ela se move, sumindo e reaparecendo por entre os mausoléus mais altos, com suas colunas e frontões. Chegando mais perto é possível ver que está elegantemente vestida, e que seu chapéu vermelho combina com o conjunto de saia e blusa também vermelhos. Seus passos são curtos e rápidos, seu salto alto ressoa nas pedras do caminho. Ela muda de direção, hesita, muda de novo, e se vai. Não mais é possível vê-la.

Em uma das alamedas principais, uma mãe passeia empurrando o carrinho de bebê. Num banco, várias senhoras idosas fazem tricô, matando, pacientemente, as horas de suas vidas. Mais adiante, um grupo de africanos da limpeza pública aproveita um momento de folga para se reunir, falar em sua língua, e rir alegre e ruidosamente. Espalhados por todos os lados estão os gatos, protegidos por uma associação que se criou para preservá-los assim, livres e sem donos.  

Num canto do cemitério estão as sepulturas perpétuas, não mais tocadas, transformadas em ruínas. As raízes das árvores invadiram as covas, levantaram lápides e peças de mármore. A poluição e o tempo apagaram as inscrições, e os jazigos das famílias foram jogados uns contra os outros, suas terras misturadas.

Vindo a tarde, aumenta o frio, que faz lacrimejar. Involuntariamente, o passante se torna mais um que sinaliza ter sido tocado pela tristeza. Recebe o olhar compreensivo das outras pessoas com quem cruza pelo caminho. Folhas caem.   

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

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