Foto: Roberto Anderson

O eixo Candelária – Cinelândia, ou seja, a atual avenida Rio Branco, foi aberto no início da República como Avenida Central. Sua criação produziu um rasgo traumático no tecido colonial da cidade, demolindo centenas de imóveis. Mas imediatamente, ele se tornou a espinha dorsal do Centro, onde se situavam as casas bancárias, as lojas e as sedes dos jornais. A Avenida Central já nasceu com a vocação de concentração de atividades, de negócios e de instituições culturais públicas. Lá as pessoas iam para passear e serem vistas.

Foi no obelisco da avenida Rio Branco que Getúlio e os revolucionários de 1930 amarraram seus cavalos, simbolizando sua chegada ao poder central. Décadas mais tarde, ela se tornou o palco para a reverberação de reivindicações da sociedade. Ali ocorreram as principais manifestações de 1968, as passeatas pela redemocratização e pela anistia, as passeatas pelos direitos das mulheres, e aquelas contra o aumento das passagens de ônibus, em 2013. Também em 2013, foi lá que o Papa Francisco desfilou no papamóvel abençoando a multidão. Passeatas percorriam a Rio Branco e terminavam na Cinelândia. E muitas manifestações apenas se concentravam em frente à Câmara de Vereadores, como nas mortes de Edson Luís e de Marielle.

Excepcionalmente, a avenida Presidente Vargas foi o eixo de eventos políticos. Assim foi no Comício da Central, que precedeu o golpe militar de 1964. E nos comícios das Diretas Já, na Candelária, espalhando-se pela avenida. A maior manifestação de 2013 no Rio, que resultou em violenta repressão da Polícia Militar, já foi na avenida Presidente Vargas, com os manifestantes caminhando em direção à Zona Norte, algo totalmente não usual.

Na última administração do Prefeito Eduardo Paes, a avenida Rio Branco teve um terço da sua largura ocupado pela linha do VLT, o qual poderia ter passado pela Rua 1º de Março, bem mais apropriada. E a parte inicial da avenida foi fechada ao tráfego de veículos, tornando-se área para pedestres. Tal intervenção talvez buscasse dialogar com novas diretrizes do urbanismo, que privilegiam os pedestres, as ciclovias e a animação do espaço público. Isso ocorreu, por exemplo, no fechamento da Broadway, em Times Square. Aquela área, que já era muitíssimo movimentada pela presença de teatros e lojas, tornou-se ainda mais movimentada, pelo renovado afluxo de turistas do mundo todo.

No entanto, o trecho da avenida Rio Branco fechado ao tráfego de veículos é composto pela Caixa Econômica, que mal abre portas para a avenida, e instituições públicas voltadas para o seu interior, como o Teatro Municipal, o Museu de Belas Artes e a Biblioteca Nacional. Afora o Amarelinho na Cinelândia e seus congêneres, não há nada que anime o espaço público naquele trecho da avenida. O resultado dessa intervenção é uma área com vários monumentos, mas com pouca vida.       

Tudo isso resultou numa certa inviabilização da avenida Rio Branco para sediar passeatas. Nas últimas que lá passaram, por falta de espaço, as pessoas caminharam por cima dos já maltratados canteiros da lateral da linha de VLT. O estreitamento da via gera, por consequência, o estreitamento das passeatas, roubando-lhes a sensação de potência.

Atualmente, parece haver uma busca por um novo espaço cívico na cidade. A direita bolsonarista se apropriou da orla de Copacabana. Mas manifestações na orla, ainda mais em fins de semana, não parecem apropriadas, além de não serem de fácil acesso para todos. A oposição, atualmente nas manifestações do #ForaBolsonaro, tem buscado a avenida Presidente Vargas, concentrando-se no monumento a Zumbi dos Palmares, uma bela simbologia. Mas aquela avenida é excessivamente larga, com os prédios se afastando das laterais, na altura da Central do Brasil e do Ministério da Guerra. Até o momento, tais manifestações somente lograram ocupar a metade da sua largura, o que não é pouco. A Presidente Vargas não tem se mostrado um bom cenário para manifestações.

Essa não é uma questão trivial. Cidades necessitam de espaços consolidados para o exercício da cidadania, das reivindicações dos seus cidadãos, das suas manifestações. A intervenção ocorrida na avenida Rio Branco, de certa forma, destruiu o espaço até então existente para tais atividades. Muitos se sentem órfãos daquele espaço. Somente o tempo dirá se outro local se consolidará como espaço cívico da cidade. Ou se a Avenida Rio Branco se manterá como palco de manifestações, mesmo que estas tenham que passar por cima de trilhos, canteiros e áreas tornadas de pedestres sem maiores cuidados.

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