Foto: Roberto Anderson

Nosso primeiro parque público urbano foi o Passeio Público, terminado em 1783, no governo do Vice-Rei Luis de Vasconcelos, seu idealizador. Parques públicos vinham sendo criados em cidades da Europa, como o Jardin des Tuileries em Paris e o Passeio Público de Lisboa. Coube ao Mestre Valentim, artista que realizou diversas obras sacras na cidade, a realização do projeto do parque, que veio a ocupar o lugar da Lagoa do Boqueirão aterrada. O Mestre realizou um jardim formal, em estilo francês, em que árvores e arbustos seguem formações geométricas. Decorou-o com as pirâmides e a Fonte dos Jacarés, ou dos Amores, e criou um patamar elevado de onde se descortinava a paisagem marítima.

Tempos depois, já no Segundo Império, o paisagista francês Auguste Glaziou reformou o Passeio Público, adotando o modelo de jardim inglês, com caminhos sinuosos, lagos, pontes e acidentes naturais construídos. É essa a feição que perdura até hoje. Glaziou foi responsável também pelo paisagismo de dois outros parques não menos importantes da cidade: o Campo de Santana, depois Praça da República, e a Quinta da Boa Vista.

É interessante pensar como uma cidade com poucas áreas secas, propícias para edificação, deixou o Campo de Santana vazio. A ocupação urbana colonial pulou a área, indo constituir a Cidade Nova após os seus limites. Isto se deveu à sua função pública como área de exercícios militares, pastagem e acampamentos. O Campo de Santana permaneceu por muito tempo sem tratamento. Chegou a receber uma praça de touros, mas não era um jardim. Isso só foi ocorrer com a implantação do projeto de Glaziou, inaugurado por D. Pedro II em 1880. Ali, o paisagista ampliou o repertório usado no Passeio Público, incluindo monumentos em ferro fundido e a construção de grutas.

Em direção à Zona Norte, encontramos o terceiro parque projetado por Glaziou na Cidade do Rio de Janeiro, a Quinta da Boa Vista, que sedia o Palácio Imperial. O tratamento paisagístico dado ao parque inclui os caminhos sinuosos e grutas, mas também a alameda retilínea no eixo do palácio, ornada por sapucaias. Com esses três parques cessou a criação de parques urbanos na cidade no século XIX.

Já na segunda década do século XX, o urbanista francês Alfred Agache propôs um sistema de parques que, iniciando-se na Quinta da Boa Vista, avançaria em direção à Zona Norte até alcançar o Engenho de Dentro. Infelizmente, tal proposta não foi executada e não se viu mais nenhum parque de grande porte ser criado na Zona Norte até a construção do Parque Madureira em 2012, um parque linear e estreito, em área surgida com a redução da largura da linha de transmissão da Light.

Já na Zona Sul, na década de 1960, viu-se a criação do Parque do Flamengo, sobre área aterrada na praia, com projeto paisagístico de Burle Marx. Mais tarde a Zona Sul, que já contava com o Jardim Botânico, o Parque Lage e o Parque da Cidade, ganharia também parques no entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas e na encosta do Morro Dois Irmãos.  

Com a expansão da urbanização para a Baixada de Jacarepaguá, foram criados o Bosque da Barra e o Parque Chico Mendes, contemplando a Barra e o Recreio. No entanto, os bairros populares da Zona Oeste e os subúrbios da Zona Norte permaneceram desprovidos de grandes parques urbanos. Há praças e pequenos parques, como o Ary Barroso, ocupado por diversos equipamentos públicos que o desfiguraram. Mas parques generosos, densamente arborizados, não há. A Floresta do Camboatá, em Deodoro, poderia ser uma opção importante, caso o infame projeto de um autódromo sobre a floresta não venha a vingar.  



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Roberto Anderson
Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

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