As cidades são criações do gênio humano e constituem ecossistemas artificiais. Segundo Odum, “uma cidade, especialmente uma cidade industrializada, é um ecossistema incompleto ou heterotrófico (que se alimenta de outros) dependente de grandes áreas externas a ele para a obtenção de energia, alimentos, fibras, água e outros materiais”[1]. Sem este ambiente externo, do qual a cidade se alimenta, ela não poderia sobreviver. A busca pela sustentabilidade intenta transformar essa relação das cidades com o ambiente externo, o território em que se inserem, de forma a que deixem de pesar tanto sobre o mesmo. A partir da evolução histórica de cada cidade, deveria ser buscada uma dinâmica de ocupação e crescimento que considerasse a natureza original do território, a necessidade de preservação dos seus elementos mais importantes, e as possibilidades de coexistência dos espaços construídos com essa natureza envolvente.

Além dessa relação respeitosa com a natureza envolvente, é importante também estar atento à natureza existente no interior da cidade. O urbanismo que considere a sustentabilidade deverá preocupar-se com a manutenção de espaços naturais no exterior, assim como no interior da cidade. Ele deverá criar condições para a hospedagem da fauna silvestre, inclusive nas áreas urbanas, e a integração entre espaços naturais e espaços humanizados. Parques, praças, áreas naturais, e demais espaços verdes devem, além da função de lazer, ter a função de manter a vida nas cidades.

A experiência parisiense, durante o período 2001-2007, em que os partidos socialista e verde dividiram o poder, é interessante de se analisar. Lá, o órgão responsável pelos espaços verdes e o meio ambiente (DEVE), aplicando instrumentos de autorregulação, abandonou a forma tradicional com que tratava esses espaços, baseada nos aspectos estéticos dos mesmos, adotando uma visão ambiental. No período citado, programou-se a criação de 30ha. de novos jardins e o acréscimo de mais 100.000 árvores urbanas, aumentando a sua diversidade. Foram utilizadas diversas possibilidades para a criação desses espaços, como parques de vizinhança, alguns com hortas comunitárias, parques lineares sobre o viaduto desativado de Daumesnil, e muros e tetos verdes. Juntamente com a manutenção de franjas de vegetação selvagem em linhas de trem desativadas, eles contribuíram para estabelecer corredores ecológicos dentro da cidade. Estes elementos tiveram também a função de conexão entre as diversas áreas verdes urbanas e as áreas livres na periferia, os corredores ecológicos.

Além da criação de novos espaços, houve também a busca por maior eficiência na gestão, inclusive com o recurso à certificação. O parque Bois de Boulogne e todas as ações fitossanitárias da instituição passaram pela certificação ISO 9.000 e 14.000. Buscou-se o consumo mínimo de energia, com menos aguagem e menos poda, e a criação de espaços mais ecológicos, com a presença de água em pequenos pântanos e áreas de baixo cuidado paisagístico.

Um bom exemplo de parque criado com esta nova orientação é o Jardins d’Eole. Lá não se usa adubo ou pesticidas e as folhas caídas são deixadas no terreno. Há áreas de maior cuidado, por terem uso mais intenso e áreas deixadas para desenvolvimento livre, sem constante poda. Outro exemplo interessante é o Jardins Abbé-Pierre – Grands Moulins, criado em 2009, onde áreas de forração nativa são também deixadas para livre desenvolvimento. Tais exemplos de parques necessitam uma preparação do público através de projetos de educação ambiental, para que o ecológico não seja visto como desleixo.

Agora, que no Rio de janeiro há uma gestão verde dos parques e jardins da cidade, tais experiências valem a pena ser revisitadas. Os parques históricos já têm suas dinâmicas estabelecidas. Mas está posto o desafio de se pensar novos parques que venham a prestar relevantes serviços ambientais, utilizando-se como técnica as soluções baseadas na natureza.

[1] ODUM, E.P. Ecologia. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1988, p. 45

Roberto Anderson
Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

4 COMENTÁRIOS

  1. Excelente artigo, Roberto.
    Aqui no Cosme Velho, bairro que eu escolhi para morar há mais de 30 anos entre outras coisas pela deslumbrante presencia de árvores, é constante a derrubada e notória a falta de cuidado.
    Tomara que você consiga mudar essa dinámica que aparentemente tem prevalecido no Rio como um todo.
    Sorte nessa empreitada!

  2. ÁREAS VERDES BEM CUIDADAS PELO MUNDO.

    Sugiro que nossos administradores de nossa cidade deem uma olhada no belíssimo jardim que foi construído ao longo do Rio Cheonggyecheon, que cobre todo o centro de Seul, na Coreia do Sul, nos majestosos parques de Moscou (o Izmaelovo, o BDHX, o Cokolniki, o Górki, o Muzeon, o Octankino, o Zariade, o Kuskovo, o Kolomenskoe, o Tssarítssino – só para citar alguns…), os de São Petersburgo (os do Palácio Peterhof e de tantos outros…),

    Visitem também os parques das cidades russas em geral, os parques franceses, ingleses, alemães (a Ilha de Mainau, no Lago de Constança), japoneses, chineses, tailandeses, norte-americanos, canadenses, argentinos, colombianos, os de Dubai, ou mesmo o magnífico Corredor Cultural Chapultepec na cidade do México, e também os novos jardins verticais VERDMX desta bem cuidada cidade.

    Sugiro inclusive se conhecer, também na cidade do México, o projeto ambicioso e polêmico, que já é tido como o maior do mundo em naturação urbana: o Via Verde. Estão sendo instalados mais de 60 mil m2 de jardins verticais nas 1.038 colunas do Elevado Periférico, ao longo de 27 km de vias.

    E ainda visitar o Bosque de Chapultepec, a maior área verde urbana da América Latina.

  3. VIA VERDE – CIDADE DO MÉXICO.

    CONHEÇA O VIA VERDE, MAIOR PROJETO DE NATURAÇÃO DO MUNDO.

    Cada vez mais, as grandes cidades investem em meios sustentáveis para ajudar a aliviar as ilhas de calor que afetam os centros urbanos e, assim, melhorar a qualidade do ar e reduzir o número de pessoas com doenças respiratórias.

    Um desses meios é a naturação, que cria biótipos, como jardins verticais, ao longo de corredores urbanos. Com isso, espera-se a diminuição da temperatura média da região naturada, uma vez que a medida auxilia na absorção do calor, na armazenagem de água pluvial e na redução da poluição, já que as plantas filtram o ar.

    Na capital do México, foi inaugurada recentemente a primeira fase de um projeto ambicioso e polêmico, que já é tido como o maior do mundo em naturação urbana: o Via Verde. Serão instalados mais de 60 mil m2 de jardins verticais nas 1.038 colunas do elevado Periférico, ao longo de 27 km de vias.

    MUITO MAIS DO QUE UM JARDIM VERTICAL.

    O Via Verde é um projeto da empresa mexicana Verde Vertical e foi apoiado por meio de uma petição on-line que coletou mais de 84 mil assinaturas. O projeto original prevê a instalação de um sistema para captar, filtrar e armazenar 32 milhões de metros cúbicos de água da chuva por ano.

    Para isso, serão criados 20 centros para estocar o elemento, com áreas de tratamento e sistema de rega automático, com sensores de temperatura e umidade. Além disso, o jardim vertical irá filtrar mais de 27 mil toneladas de gases poluentes e captar 10 toneladas de metais pesados.

    O orçamento total do Via Verde é de 300 milhões de pesos mexicanos (equivalente a R$ 52 milhões), com manutenção mensal de 23 milhões de pesos (R$ 400 mil).

    MAIS POLÊMICAS

    Embora os benefícios do Via Verde sejam indiscutíveis, o projeto tem recebido muitas críticas, especialmente por causa do alto custo e da exploração publicitária: a Verde Vertical conseguiu licença do poder público para usar 10% do espaço para anúncios. Ou seja, a cada 350 metros do trajeto, uma propaganda será inserida.

    Por outro lado, a medida, que irá financiar e viabilizar a iniciativa, foi escolhida por meio de um questionário respondido por 2.400 pessoas: 47% delas optaram que o Via Verde fosse pago pela iniciativa privada, que em troca poderá fazer publicidade em 10% dos pilares do elevado Periférico.

    Outros pontos que geraram polêmica são a acusação de que o projeto seria um modo de maquiar a despreocupação do governo com as causas ambientais e a sua falta de visão urbanística, já que a cidade tem recorde de árvores derrubadas e privilegia o uso de automóveis.

    Os críticos do Via Verde argumentam também que o mesmo valor investido nos jardins verticais poderia ser aplicado no plantio de milhares de árvores em áreas degradadas, tendo benefícios muito maiores. Mas ainda que a discussão esteja em andamento, o projeto já teve início e dificilmente será paralisado.

  4. ÁREAS VERDES ABANDONADAS PELA CIDADE DO RIO DE JANEIRO.

    Há diversas áreas verdes abandonadas pela cidade, e cito como exemplo a praça que fica atrás da Maison de France (não sei o nome desta praça), onde só há mendigos e moradores de rua em um espaço tão grande quanto aquele – que poderia ser revitalizado, com mobiliário urbano e iluminação de primeira linha, para se tornar um refúgio para o cidadão que paga impostos nessa cidade

    Há também muitas áreas abandonadas pela cidade, como a área do antigo estacionamento que ficava na Av. Presidente Antônio Carlos em frente à Ladeira da Misericórdia. Este local deveria ser devidamente ajardinado, com mobiliário urbano de qualidade, com iluminação de primeira linha (incluindo tudo o que faz parte deste patrimônio histórico – inclusive o Museu Histórico Nacional), e esta nova área verde deveria ser anexada à esta ladeira histórica – constituindo-se assim num grande patrimônio histórico devidamente restaurado de nossa cidade.

    Em primeiríssimo lugar, a prefeitura do Rio de Janeiro deveria mandar construir uma passarela bem em frente ao Museu Histórico Nacional, pois o local ficou muito isolado (e deserto) do restante da Orla Conde. Pode ser uma passarela como a que chega ao Aeroporto Santos Dumont, ou uma daquelas do tipo do Aterro do Flamengo (em frente ao MAM).

    Com relação ao abandono da Praça XV…

    O Chafariz Colonial da Praça XV, que é uma das mais belas obras de arquitetura do período colonial, construída durante o mandato do Vice-Rei D. Luiz de Vasconcelos e Souza (o Marquês do Lavradio), já foi um dos ícones históricos de nossa cidade. Hoje, ao invés de água e ajardinamento em seu entorno, há mais de sete moradores de rua vivendo ali. Choque de ordem e restauração total para ontem neste local super histórico !!!

    A Praça XV precisa ser “refeita” dentro do possível, pois a sua reforma não ficou nada boa. O mobiliário é muito bonito, mas o local é super tórrido e queima os miolos de quem passa por ali. Foram plantadas pouquíssimas árvores na Praça XV (e, por favor, esqueçam as palmeiras… palmeira não dá sombra alguma).

    A Praça XV está super quente…. Da lateral esquerda do Paço Imperial até a entrada da estação das barcas há um enorme espaço sem uma árvore sequer. Atravessar aquele extenso e belo caminho só de pedras no verão para pegar as barcas está sendo um suplício. Por que não fizeram uma alameda com luminárias e árvores ou mesmo um bom e velho caramanchão – como os da Casa de Rui Barbosa em Botafogo, ou o belo caramanchão da lateral do Museu Histórico Nacional, ou o caramanchão da Praça Mohammed Ali em frente ao AcquaRio ?

    Ficou muito bonito o trabalho dos mosaicos com as pedras neste caminho da Praça XV: o chão está realmente lindo mas, para variar, Parques e Jardins esqueceu de contemplar o espaço para o plantio das árvores naquele desenho. Naquele trecho, da Rua Primeiro de Março até à Estação das Barcas cabe, no mínimo, umas cinquenta árvores – estou tomando como base as belíssimas áreas verdes de Moscou, onde jamais se economiza no plantio e na quantidade de belas árvores pelos espaços públicos.

    Em frente ao Albamar, naqueles bancos que dão para a Baía de Guanabara, não há uma árvore sequer. Não dá para ficar sentado ali sem uma sombra sequer. Estive lá recentemente e mesmo sem sol, pela proximidade da baía, os bancos ficam muito quentes. É preciso plantar um flamboyant entre um banco e outro, ou uma amendoeira, ou qualquer outra árvore que tenha uma bela copa e que dê uma boa sombra a quem quiser sentar nestes bancos e curtir o local. Ou talvez um jambeiro, que eu não conheço bem, mas que dá flores belíssimas. Bancos e árvores têm que estar juntos sempre, se não os bancos não têm serventia alguma numa cidade tórrida como o Rio de Janeiro.

    Os bancos que ficam numa pracinha em frente ao Albamar (pelo lado de dentro da Praça XV) também precisam ter árvores em sua proximidade, pois aquele local também ficou muito quente.

    A Praça XV ficou uma praça de concreto, ao invés de gramado e de boa arborização. E infelizmente cometeram este mesmo erro com a reforma da Praça Mauá – uma medonha praça de granito, com aquelas árvores mixuruquérimas e paupérrimas.

    Nos nossos quatro quilômetros de Orla Conde aqui no Rio de Janeiro nenhum de nossos eficazes administradores pensou sequer na possibilidade de se plantar alguma árvore florífera por este enorme caminho.

    Onde cabem mais de mil árvores, não plantaram nem duzentas, e se esqueceram dos ipês, dos jacarandás, das acácias, dos jambeiros, das buganvílias, dos flamboyants, das magnólias, das espatodéias, dos abricós de macaco – árvores que têm belíssimas copas e que efetivamente dão ótima sombra.

    Poderiam ter plantado inclusive um jardim só de árvores frutíferas, com algumas espécies brasileiras e estrangeiras como o cajueiro, a pitangueira, a pereira, a videira, a jabuticabeira, a jaqueira, a mangueira, a macieira, a goiabeira, o limoeiro, o pessegueiro, como também pés de kiwi, de lichia, de acerola, de frutas-de-conde, etc…

    Falta vontade política para se cuidar melhor de nossa cidade e de nosso estado. Nossos administradores, por mais que viagem, não aprendem com o que veem, não conseguem implementar aqui o que viram no exterior em termos de jardins, praças e demais espaços muito bem cuidados.

    E aí estes políticos cariocas ladrões, embusteiros e safados vão dizer que não há verba para a devida e necessária arborização do Rio de Janeiro – o que é uma grande mentira, pois plantar árvores floríferas não custa tanto assim.

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