Nesta semana, uma grande confusão se formou com a poda radical executada pela Prefeitura nos arbustos da Praça Paris. Talvez não tenha havido suficiente informação prévia, que mostrasse a moradores e usuários que aquilo que parecia destruição, era na verdade uma poda. Ela buscava restaurar as formas originais dos arbustos ficus microcarpa. Sem esse cuidado, sim, eles se transformariam em árvores. Tal poda segue a arte da topiaria, que busca dar formas geométricas aos arbustos de praças e jardins. A Praça Paris é uma das poucas no Rio de Janeiro a dispor desse tipo de ajardinamento.

Consta que no passado, alguns dos seus arbustos recebiam formas de animais e havia jardineiros especializados em mantê-las. Com a realização das obras do metrô, a praça foi desfeita e só reinaugurada muitos anos depois. E esse foi um belo acontecimento na cidade. A atriz Bibi Ferreira, que então já interpretava Edith Piaf, foi convidada a cantar na festa de reinauguração, e a praça se encheu de pessoas maravilhadas com o chafariz de golfinhos, as esculturas e as flores. Sim, havia flores nos canteiros, o que atualmente é quase inexistente nas áreas públicas da cidade. Flores exigem cuidados e regas, mas nossas administrações não parecem dispostas a provê-los.

Os arbustos geometrizados da Praça Paris tinham formas arredondadas, quadradas, ou de quadrados encimados por semicírculos. Uma foto entre esses arbustos, com o chafariz e a paisagem dos edifícios do Centro ao fundo, era uma foto perfeita, e certeza de sucesso entre os amigos. Com o tempo, por falta de cuidados, as flores se foram. Alguns bustos de personalidades foram vandalizados ou simplesmente roubados. Inúmeras vezes a praça ficou no escuro, já que ora furtavam os fios, ora furtavam as próprias lâmpadas dos postes. E na última administração nem as podas nos arbustos foram feitas.

Sem podas, os arbustos foram crescendo, seus galhos perfurando os moldes da topiaria, tomando formas estranhas, como abacaxis, já que parte do arbusto continuava contida nos moldes em ferro. Tudo poderia continuar assim, crescendo sem cuidados. O problema é que a Praça Paris é tombada. Ela é única e, deixá-la sem cuidados vai contra esse tombamento, é ilegal.

A Praça Paris é fruto do período das reformas do Prefeito Pereira Passos, que criou a Avenida Beira Mar, conectando o Centro à Zona Sul pela orla. Era a direção privilegiada da cidade, que levaria à posterior ocupação de Copacabana, Ipanema e Leblon. Em 1926 essa orla ganhou a Praça Paris, projeto do urbanista francês Alfred Agache, seguindo a estética dos jardins franceses, de geometrização e controle da paisagem. Além da topiaria e das esculturas, foram plantadas amendoeiras, que sazonalmente amarelam suas folhas e, depois de as avermelharem, as perdem, fazendo parecer um ambiente parisiense.

Nesse momento, após a poda radical, a visão que se tem não é das melhores. Um olhar alarmista pode ver a morte dos arbustos ou o prenúncio do seu definhamento. Recorrendo à história do lugar, prefiro ter um olhar otimista, de que em breve a atual intervenção trará resultados, e teremos a Praça Paris novamente no seu esplendor. Se possível, com flores.

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

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