Foto: Roberto Anderson

Há um conjunto de reservatórios, construídos de 1850 a 1930 e tombados pelo Inepac, que contam a história da captação de água para o abastecimento do Rio de Janeiro e vizinhanças. Situados em platôs nas encostas ou em topos de morros, muitos são verdadeiros mirantes, de onde se descortinam vistas panorâmicas da cidade. Alguns foram originalmente alimentados por mananciais locais, o que os liga às matas que os circundam. Talvez o mais importante deles seja o conjunto Reservatório do Carioca e Caixa da Mãe D’Água, em Santa Teresa.

Projetos para aproveitamento das águas do Rio Carioca datam desde o século XVII, mas somente no século seguinte elas passaram a chegar ao Centro pelo sistema construído governo de Gomes Freire. Canaletas as conduziam pelo caminho que depois seria a rua principal de Santa Teresa até o Largo da Carioca, ultrapassando o vale entre o bairro e o Morro de Santo Antônio. O faziam através do Aqueduto da Carioca, atuais Arcos da Lapa. A Caixa da Mãe D’Água, localizada numa curva acentuada da Rua Almirante Alexandrino, com planta quadrangular e coberta por abóbada de arestas, funcionava como caixa de passagem daquele sistema.

Já na segunda metade do século XIX, quando teve início o efetivo serviço de distribuição de água no Rio de Janeiro, foi construído o Reservatório do Carioca, junto à Caixa da Mãe D’Água.  Executado em 1865, ele era o mais importante dos primeiros reservatórios daquele período. Compunha-se de jardim na parte frontal, três reservatórios a céu aberto denominados Caixas do Carioca, o tanque de decantação, e a barragem. As comportas eram acionadas por diversas engrenagens em ferro fundido.

A partir dos anos 1990, as águas do Rio Carioca deixaram de abastecer a área central da cidade, restando apenas captações marginais para o abastecimento da comunidade Guararapes, situada abaixo do reservatório. O rio voltou a correr por seu curso natural, passando pela favela, e em seguida, através do vale de Cosme Velho e Laranjeiras, ainda que quase inteiramente canalizado e subterrâneo ao longo desse curso.

Foto: Roberto Anderson

O reservatório entrou então num processo de degradação por abandono e vandalismo, com a quebra de peças em cantaria e o saque de grande parte dos gradis e elementos em ferro. Além disso, enchentes causaram estragos ao conjunto, com o desmoronamento de terra e pedras.

Algo precisava ser feito além do tombamento. Mas a dificuldade em conseguir os recursos necessários para o projeto e as obras impedia. Por fim, em 2016, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente conseguiu aprovar o uso de recursos do Fundo Estadual de Compensação Ambiental, já que o reservatório está situado no Parque Nacional da Tijuca.

O projeto de restauração foi elaborado pelo escritório FábricaArquitetura e o projeto de restauração do jardim histórico ficou a cargo da empresa Embyá Paisagismo. As obras, conduzidas pela empresa AQ Engenharia, foram acompanhadas pelo Inepac e pelo IPHAN. Como no futuro os reservatórios passarão a ser abastecidos com água tratada, aduzida do reservatório do França, eles receberam coberturas de vidro para proteção da água, que permitem a visualização do seu interior. Uma primorosa restauração foi executada, destacando-se a reconstituição volumétrica das perdas em elementos em cantaria. E também a recuperação do conjunto de guarda-corpos de ferro fundido, que se encontrava danificado por roubos e pela ação do tempo.

A restauração da Caixa Mãe D’Água retirou as camadas antigas de tinta e revestimentos inadequados. E recuperou, seguindo prospecções realizadas, uma coloração ocre para os cunhais e molduras. A limpeza da placa em pedra trouxe à luz os veios da mesma e deixou mais legível a inscrição que trata da construção da Caixa por Gomes Freire.

A restauração do jardim romântico, à frente do reservatório, exigiu um minucioso trabalho de pesquisa iconográfica, já que pouco restava do seu estado original. Fotos publicadas em jornais do princípio do século XX nortearam a sua recomposição com o retorno do chafariz e de plantas exóticas, a contrastar com a exuberância da floresta.

Foto: Roberto Anderson

A antiga casa do encarregado do reservatório, junto à rua, não pode ser restaurada por encontrar-se ocupada, à espera de um processo de retomada pela Cedae. Já a antiga casa do encarregado do cloro foi adaptada para receber uma recepção aos visitantes. Dali sai a trilha que leva até às Paineiras. Complementando a intervenção, foi implantada uma sinalização do sítio histórico e da trilha.

Tudo foi feito com o maior cuidado e encantamento, mas ainda não se alcançou o seu principal objetivo, que seria devolver aos cariocas essa maravilha do seu patrimônio cultural. A Cedae não se preparou para abrir o sítio à visitação, mantendo apenas vigias que ocupam o centro de visitantes. Sem maiores cuidados, o jardim vai perdendo a sua forma e o limo vai tomando conta das paredes. Nossas autoridades não se mostram à altura da nossa história.



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Roberto Anderson
Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

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