Foto: Roberto Anderson

O Sítio Burle Marx foi reconhecido como o novo Patrimônio Cultural da Humanidade no Rio de Janeiro. A cidade já havia conquistado o reconhecimento da Unesco para a área que vai do Passeio Público a Copacabana, e inclui a Floresta da Tijuca e a entrada da Baía de Guanabara. Tudo isso é de se festejar muito, traz enormes responsabilidades na gestão desses bens, e coroa décadas de luta pela preservação do Patrimônio carioca. Uma luta que não foi fácil.

Antes que houvesse pessoas e organizações postulando pela preservação do nosso passado e da nossa riqueza cultural, fez-se necessária a constituição de uma consciência sobre a historicidade desse passado. No final do século XIX e início do XX, o Centro, por exemplo, era visto apenas como um conjunto de casas e sobrados velhos, habitados por uma população pobre, que ali se amontoava como podia. As famílias mais abastadas, há muito, haviam se retirado da região, indo na direção de São Cristóvão, onde D. João VI, e depois a família imperial, residia. Após São Cristóvão, a Zona Sul foi o novo local escolhido para a moradia de quem tinha mais posses.

Ocupado por trabalhadores e imigrantes, o Centro passou a ser relacionado às epidemias que periodicamente assolavam a cidade. Essa associação às doenças passou a justificar projetos de modernização, que vieram a ocorrer no início do século XX, com as reformas urbanas do período Passos. O alvo seguinte foi o Morro do Castelo, mais empobrecido ainda. Mas naquele momento já surgiu um debate sobre a conveniência de se arrasar o local de fundação da cidade. Foram impotentes as vozes contra a demolição do morro, como a de Lima Barreto, mas elas existiram.

Em seguida, tivemos o plano do urbanista francês Alfred Agache, propondo a remodelação completa do Centro. E, na década de 1940, a abertura da Avenida Presidente Vargas, que demoliu mais outras centenas de sobrados e igrejas importantes, como a de São Pedro dos Clérigos. Por aí se tem a noção de como nem mesmo igrejas eram poupadas quando localizadas no caminho do “progresso”. Nesse momento já havia surgido o atual IPHAN, que deu início ao processo de apontar aqueles bens, entre tantos outros, que mereciam ser preservados.

Os bens que o Iphan pontualmente preservou no Rio de Janeiro foram aqueles oriundos do período colonial e da arquitetura neoclássica do Império. Os imóveis de arquitetura eclética eram solenemente desprezados pelo Iphan de então, uma criação de arquitetos modernistas, como Lucio Costa. O problema é que os imóveis do Centro, que haviam se salvado da destruição até então em curso, eram, em grande parte, de arquitetura eclética. Assim, o rodoviarismo e os processos de reedificação continuaram a suprimir exemplares importantes desse conjunto.

A Lapa foi fortemente afetada por projetos de alargamento de vias ou de abertura de novas. O setor financeiro foi verticalizado, e nem a Avenida Rio Branco, tão orgulhosa de suas fachadas premiadas, escapou de ser reedificada. A demolição, na década de 1970, do Palácio Monroe e do edifício do Derby Club marcou a existência de uma reação mais forte da sociedade. Houve abaixo-assinados e o envolvimento do Instituto de Arquitetos do Brasil pela preservação desses bens. Já havia uma consciência preservacionista na sociedade!

No final dessa mesma década, o prefeito Israel Klabin tomou a decisão de dar curso a uma proposta de preservação de grandes conjuntos de arquitetura antiga remanescentes no centro do Rio de Janeiro, fruto de pesquisa do arquiteto Augusto Ivan de Freitas Pinheiro. Era o Corredor Cultural, uma inovação, já que não se buscava a preservação das qualidades individuais dos imóveis, mas a ambiência de todo um conjunto, onde havia edifícios simples e outros notáveis. O Corredor Cultural se transformou num dos projetos mais vitoriosos da cidade, passando mesmo a significar em outros municípios a proteção de áreas urbanas.    

A partir daí outros conjuntos foram preservados, através do criativo instrumento urbanístico das Áreas de Preservação do Ambiente Cultural, as APACs. Foram preservados conjuntos na Cruz Vermelha, na Área Portuária, nas adjacências da Rua Teófilo Otoni, e em diversos bairros da cidade, como Urca, Santa Teresa, São Cristóvão, Copacabana, Botafogo, Jardim Botânico e Leblon, entre outros.

Todas essas preservações valorizaram a paisagem cultural do Rio de Janeiro, reforçando a identidade dos bairros e gerando receitas para o turismo. Especialmente no Centro, elas contribuíram a para a manutenção de atividades econômicas singulares, como o pequeno armarinho, a chapelaria, a tabacaria e as lojas do comércio popular. Foram árduas conquistas, às vezes com o envolvimento físico, como no caso da Fundição Progresso, em que artistas do Circo Voador subiram na fachada para impedir a ação das picaretas. O desenvolvimento de uma mentalidade preservacionista e as ações de proteção ao Patrimônio prepararam o terreno para os atuais reconhecimentos da Unesco. Manter essas conquistas é agora tarefa das próximas gerações.

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

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