Foto: Reprodução

O Campo de Santana é um dos mais belos e aprazíveis parques urbanos da cidade do Rio de Janeiro. Projetado em estilo de jardim inglês, com lagos, morrotes, grutas e figueiras gigantes, por Auguste Glaziou, o paisagista francês contratado Imperador D. Pedro II, é um oásis no burburinho do Centro do Rio. O simples fato de que o crescimento da cidade tenha pulado esse espaço, indo abrir novos arruamentos mais adiante, no que passou a ser conhecido como Cidade Nova, já foi uma benção.

Ali ocorreram eventos memoráveis, como batalhas de flores, feiras literárias, peças de teatro, bem mais interessantes do que os exercícios militares de antes de sua urbanização. No Campo de Santana, pavões, patos, cisnes e cotias convivem pacificamente há décadas. Habitantes mais recentes, os gatos ganharam espaço, reforçados por um apadrinhamento humano militante. E seus monumentos, muitos vindos da região do Val D’Osne na França, são de imensa beleza.

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Nesta véspera de novo ano, volto ao Campo de Santana não mais como simples usuário, mas como parte da equipe de Fabiano Carnevale, o novo presidente da Fundação Parques e Jardins. Com o apoio do novo secretário de Meio Ambiente, Eduardo Cavalieri, temos a ambição de recuperar o prestígio da Fundação, que mesmo maltratada por uma administração obtusa, ainda é vista com carinho pela população.

Preocupado com as responsabilidades vindouras, passeio pelo Campo de Santana observando o seu estado de conservação. E o que encontro não é nada animador. Já nos belos e imensos portões do parque é possível observar partes faltantes, como coroamentos e cartelas, em função de furtos e abalroamento de caminhões de limpeza. O gradil que o cerca se encontra com falhas em diversos pontos, remendadas com telas de arames. Percebe-se que ocorreu o demorado corte do metal para a realização do furto.

Internamente, um dos lagos se encontra vazio, em função de rachaduras e buracos no seu piso, por onde a água escoa para o subsolo. Nos lagos onde há água, a mesma não é renovada com a devida frequência, já que o parque perdeu dois de seus três pontos de abastecimento de água. Quase não há iluminação pública, já que metade do parque se encontra sem cabeamento subterrâneo de energia. Na metade onde há energia, nem sempre ela é compatível com as lâmpadas da Rio Luz. Os banheiros públicos não funcionam e um deles, para o qual existe um belo projeto de um café, foi transformado em abrigo para os gatos.

A gruta, com suas estalagmites e estalactites, também se encontra sem iluminação e interditada ao público, por não oferecer condições de segurança. E todo o parque foi fechado ao público desde o início da pandemia, impedindo o mesmo de usufruir de um excelente espaço de lazer e relaxamento das preocupações do momento. Quantos idosos solitários não se sentiriam melhor nesses tempos podendo interagir com os animais do Campo de Santana?

Essa situação do Campo de Santana, que se estende a muitos outros parques e praças da cidade, é o reflexo do descaso com a Fundação Parques e Jardins, impedida por maus administradores de exercer as suas funções. Há tempos não há concursos e a maioria absoluta dos jardineiros que ainda permanecem na ativa já não têm o vigor físico necessário. O quadro de arquitetos e engenheiros florestais foi drasticamente reduzido por aposentadorias. E a verba necessária para a contratação de substitutos foi usada para objetivos políticos. Nada menos que R$ 134.807,60 vêm sendo gastos mensalmente com funcionários comissionados que não comparecem à Fundação. Isto dá a incrível soma de mais de R$ 1,8 milhão ao ano gasto com esse tipo de coisa, enquanto os trabalhadores dos parques têm dificuldades em fechar o orçamento doméstico no fim de cada mês. É imoral.

A administração que assume em janeiro está comprometida com uma atitude técnica e ambiental na gestão da Fundação e dos espaços públicos da cidade. Sua primeira medida, será a reabertura do Campo de Santana ao público, assim como os demais parques fechados. Todos os funcionários a serem contratados o serão com base em sua qualificação técnica. Os usuários serão bem-vindos de volta aos parques, seguindo as orientações de segurança durante a pandemia. Esperamos plantar muitas árvores e novas praças pela cidade. A Fundação Parques e Jardins está de volta!

Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

4 COMENTÁRIOS

  1. Fala ressentida e fantasiosa sobre uma dura realidade. Chamar o ambulatório animal de abrigo é covardia. E ainda que fosse, o felinos estão ali há muito mais tempo que qualquer gestor que chegue. Ademais, os felinos do parque são nada mais do que reflexo da política de abandono que se perpetua no Rio de Janeiro, gargalo do estado brasileiro.

  2. Transformar um local que presta assistência aos animais, coisa que o próprio poder público não faz como deveria, em um café é no mínimo fantasioso. Isso mostra despreparo e falta de contato com a realidade do Campo de Santana.

    Se de fato esse senhor será integrado a equipe, deverá no mínimo sair de seu pedestal acadêmico de arquitetura e urbanismo (que são pontos válidos, vale ressaltar) para o “chão ” e a realidade da falta de assistência naquele lugar, principalmente quando o foco são os animais (SILVESTRES e gatos).

  3. Os gatos comunitários do Campo de Santana são protegidos por lei e serão devidamente tutelados e respeitados!

    O local onde funciona o atual ambulatório dos gatos do Campo de Santana já tinha sido utilizado para os mesmos fins na gestão César Maia quando funcionou um posto de castração. Não é um abrigo de gatos!!! É um ambulatório que atende não só os gatos como os animais silvestres!

    Qualquer ato que prejudique os gatos do Campo de Santana será veementemente rechaçado. Espero que tenha sido uma declaração baseada na falta de conhecimento do Sr. Roberto Anderson e não uma posição da atual gestão da Fundação Parques e Jardins.

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