Quando a guerra no Iraque se encerrou, em 2003, o país inteiro estava arrasado: disputas entre xiitas e sunitas levavam morte e destruição a todas as províncias e um grupo de guerrilheiros e terroristas eram uma cruel resistência à ocupação militar dos aliados da Otan, criando um clima de total instabilidade. 

Nesse cenário, era impossível o surgimento de qualquer atividade econômica, a constituição de um parlamento e até mesmo de um governo provisório. As forças de ocupação, somadas às forças locais de segurança, eram absolutamente incapazes de estabilizar o país. Atentados e ações armadas faziam parte da rotina até mesmo em Bagdá, onde havia pelo menos três divisões do exército americano instaladas. As forças da coalizão deveriam  montar o centro de comando do país, trazer de volta as embaixadas, alocar empresas de óleo, gás e infraestrutura para enfim começar a reconstrução do pais. Mas a situação não permitia avanços.

A solução encontrada foi criar uma área de segurança máxima, onde a segurança de diplomatas, técnicos estrangeiros e dos governantes estivesse totalmente garantida.  Em outras palavras, uma área reduzida onde fosse mobilizado todo recurso possível. Mesmo que fosse necessária a redução de forças em outras regiões do país. Afinal, se a segurança não fosse garantida o Iraque como um todo seria inviável: adeus embaixadas, adeus empresas estrangeiras, adeus reconstrução do país.

Assim, duas áreas foram escolhidas pela coalizão: um perímetro em volta do aeroporto – que garantisse que aviões pudessem aterrisar sem que fossem atacados por guerrilheiros nas cabeceiras das pistas – e outra área de pouco mais de 10km quadrados em volta do centro político, tendo o rio Tigre como limite.

A partir do estabelecimento de controle destes locais Iraque pôde voltar a crescer.  Do lado de fora da chamada Zona Verde o país pegava fogo, e com efeito não era possível naquele momento estabilizar tudo. Foi necessária a opção da Zona Verde, uma escolha corajosa, necessária, urgente, de alto risco político. Mas ou se garantia um espaço mínimo de segurança ou o país inteiro iria pro buraco.  

É inevitável comparar o Rio de janeiro a Bagdá, depois da morte do turista chinês que caminhava no principal cartão postal do Brasil, a praia de Ipanema. Evidente que toda vida humana é valiosa, é evidente que o carioca de Realengo tem o mesmo direito à segurança pública que o carioca do Leblon, mas fazendo um rápido passeio pelo Google verifico que em 2019, dois turistas estrangeiros foram assassinados – um colombiano e um chinês -ambos em áreas turísticas. Em 2017, cinco turistas estrangeiros foram assassinados, um polonês na trilha do Cristo, um argentino em Ipanema, uma argentina no Alto da Boa Vista, um alemão na Barra da Tijuca e uma espanhola na Rocinha. Já em 2016 tivemos um turista italiano morto em Santa Teresa e uma turista argentina esfaqueada e morta em Copacabana. Em 2015 tivemos um turista alemão morto no Centro do rio, fazendo turismo domingo pela manhã.

Não contei diversos casos de turistas feridos. O Rio de Janeiro se tornou a cidade onde turista morre esfaqueado em áreas turísticas e não existe beleza natural, carnaval, bossa nova, praias, que possam se sobrepor a esta realidade cruel; o fato é um só: não vale a pena vir ao Rio de Janeiro. Esta é a dura verdade. No meu canal no Youtube mantenho um programa chamado Conduta Inteligente, que consiste em dar dicas de segurança pessoal para cidadãos comuns – mais da metade dos casos em que nos baseamos para os roteiros são passados no Rio de Janeiro.

É claro e evidente o esforço do governador Witzel em reverter esta triste situação – e as operações Segurança Presente são o exemplo maior deste esforço. Mas eu sugiro, no entanto, algo mais radical, para salvar o turismo como fonte de receitas e geração de empregos: estabelecer zonas verdes, áreas de segurança máxima, onde o turista se sinta absolutamente seguro. Claro que cariocas que frequentassem essas áreas também seriam favorecidos – a vida noturna seria ativada, bares e restaurantes seria beneficiados. A primeira zona verde seria toda a extensão da orla, indo do Leme ao Leblon, ignorando até mesmo as ruas Barata Ribeiro, Prudente de Moraes e General San Martin.  A segunda zona verde poderia ser a região das trilhas da Floresta da Tijuca. Nestas áreas a Guarda Municipal atuaria armada, haveria parceria com a PM e as operações Segurança Presente, seria proibida a permanência de moradores de rua. No caso de menores, seriam utilizados dispositivos do próprio Estatuto da Criança e do Adolescente, que são claros no que tange ser obrigação do Estado a tutela da vida deles. Assim, crianças seriam recolhidas a qualquer hora do dia, as abordagens policiais seriam rotineiras. A prefeitura poderia oferecer pequena redução no valor do IPTU se o comerciante concordasse em colocar uma câmera, com boa capacidade de armazenamento, apontando para sua calçada. Todos os ônibus que trafegassem na zona verde seriam abordados em checkpoints; nas zonas verdes seriam proibidas motos com carona (somente casais seriam autorizados, ou pais e filhos). Uma espécie de Tolerância Zero para atingir o objetivo ousado: crime zero e excelente ambiente de investimentos, gerando emprego e renda.

É claro que esta é uma ideia que provocaria a gritaria de sempre, alguns chamariam de estado policial, outros de estado de exceção, mais alguns de estado de sítio. Mas encerro com a pergunta: um estado onde turistas são assassinados é um estado de quê?

3 COMENTÁRIOS

  1. Sou mineiro e moro a 30 anos no Rio e concordo com o Rodrigo Pimentel, tem que combater a bandidagem com um planejamento ostensivo, sem moleza para bandido.Espalhem policiais armados nas areas de maior riscos para os turistas e não esquenta a cabeça com a turma do contra.Foco total na segurança ao turista.

  2. Não adianta trazer empresas, fazer propaganda mundial das belezas naturais da cidade e do estado, se não se encararmos o problema da violência como prioridade e profissionalismo, e não com amadorismo. Como combater a violência, se os culpados são reincidentes? Temos que parar de defender bandidos “vitimas do sistema e da sociedade”. Quantas empresas foram embora do Rio de Janeiro e quantas mais irão, quantas empresas deixaram de de estabelecer por aqui, por causa da violência que atinge a todos, transferindo impostos que deveriam ser nossos, mas que estão em outras cidades? Vejo muita gente fazendo palestras, seminários, etc. de como desenvolver e atrair empresas para geração de empregos e renda, mas continuo afirmando que, sem um combate tenaz a violência, não sairemos do lugar. O Rio ainda não foi destruído completamente por ter se tornado uma marca mundial, queiram ou não os detratores que fazem diuturnamente campanha contra. Está na hora de fazer reviver a galinha dos ovos de ouro.

  3. Maravilhosa iniciativa. A segurança deve ser ostensiva e exagerada sim. Quando visitei Paris em 2017 na região da Torre Eiffel o policiamento era tão grande que até assustava e é uma das cidades que mais guardo memórias. Sou bacharel em Turismo, é uma atividade que tem grande peso no PIB de um país. Infelizmente, no Brasil nossos governantes ainda não se atentaram a este fato. A falta de inovação e criatividade na área é gritante. No entanto, o Rio tem melhorado sim e despertado sua atenção ao turismo como nunca antes, exemplo disso é o corredor cultural que vem se estendendo desde 2015 no Porto Maravilha (Museu do Amanhã, Museu de Arte do Rio, eventos na Praça Mauá, Aqua Rio e agora a roda gigante Rio Star, um novo point de observação). Essa área trouxe um novo point turístico para a cidade que durante décadas quando se tratava de atrativos turísticos se acostumou somente com praias, Maracanã, orla e Zona Sul. A ideia de ser proibida os moradores de rua apesar de ser um assunto delicado que merece muito estudo e planejamento para não ferir a dignidade humana dessas pessoas deve ser discutida e acho válida pois se tem uma coisa que me incomoda nesta cidade é que parece que não há ordem, a miséria insiste em nos perseguir em nossas praças, nossas ruas, debaixo de viadutos e debaixo de prédios fazendo com que o Rio tenha uma aura de cidade imunda, feia, suja. Não importa quantos anos passem esse estigma nunca passa. Prova disso é o lixão aberto que se tornou a Central do Brasil, um lugar lindo de arquitetura incrível e que está tomado de desordem e miséria e ninguém faz nada. Turismo é o novo petróleo do Rio e se houver planejamento poderemos um dia chegar a altura de Nova York, Paris e Londres. E outra coisa que quase ninguém fala: ser proibido em todo o município do Rio e região metropolitana através de uma lei municipal carros com películas escuras. Quem não deve não teme. Cidade sem segurança pública não tem turismo de excelência.

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