Foto: Renan Olaz/CMRJ

Um dos grandes problemas do debate público brasileiro nos dias de hoje é que constantemente a posição mais fácil de assumir é geralmente a que menos demonstra eficácia na solução dos problemas. Se prevalece aquele velho ditado, “para se fazer uma omelete é preciso quebrar os ovos”, há pessoas que vivem fazendo piquetes e manifestações pela preservação da casca do ovo. E pouco importa se não vai ter omelete para o jantar.

E quando falamos na difícil questão da população de rua do Rio de Janeiro, certos parlamentares de esquerda (não são todos) costumam abraçar as teses do mundo ideal, ou seja, do mundo das ideias – onde os ovos ficam inteiros, de casca intacta e não há fome. Esquecem o mundo sensível, onde nem sempre o que deve ser feito é algo esteticamente ou romanticamente bonito.

Recentemente, a Câmara Municipal aprovou uma lei que basicamente proíbe todos os cidadãos do Rio de Janeiro que criem obstáculos, a chamada “arquitetura hostil” para a permanência da população de rua em um local público. Entenda-se aí como “local público” até mesmo as calçadas da frente de nossos prédios, nas quais se criou até obrigatoriedade de manutenção pelo condomínio. Acredito que a iniciativa do criador da lei tenha se dado depois do episódio em São Paulo que se transformou em confronto entre a Prefeitura tucana e o padre esquerdista Julio Lancelotti. Na ocasião, a gestão ainda sob a responsabilidade do falecido Bruno Covas instalou pedras pontiagudas sob os viadutos Dom Luciano Mendes de Almeida e Antônio de Paiva Monteiro, localizados na Avenida Salim Farah Maluf. O padre supracitado destruiu algumas delas a marretadas, simbolizando um confronto contra um suposto higienismo, e a prefeitura então recuou, retirando as pedras.

A questão que fica no entanto em nossas cabeças é: o direito de pessoas dormirem na rua é algo pelo qual valha a pena brigar tanto? Ou seria melhor termos políticas definitivas de acolhimento e reinserção na sociedade, uma eterna utopia que nosso poder público não consegue atingir?

O editorial publicado essa semana pelo DIÁRIO DO RIO é perfeito, na síntese que faz do cenário em caso de sanção do projeto pela Prefeitura: o Rio se tornará a capital mundial da mendicância. Tal afirmação soa antipática aos ouvidos dos que se acostumaram ao conceito de que deixar pessoas dormirem nas ruas é “humanismo”.

Mas o mundo sensível, aquele que não é o das ideias, aquele mundo que reage e interage, é diferente. Não há apenas dois lados – há, sim, a busca pela verdade. O Rio de Janeiro precisa de turismo, comércio e lazer para impulsionar sua economia, gerar empregos, arrecadar impostos, que permitam investimento em educação, saúde e desenvolvimento. É muito claro o círculo vicioso: com mendicância nas ruas, perde o turismo, o comércio e o lazer, perde a arrecadação, perdem os empregos e os investimentos. E essas derrotas conduzem a… mais pessoas nas ruas. Todas elas, claro, devidamente “autorizadas” pelo projeto do qual estamos falando (aliás, somente eu e mais um outro vereador votamos contra).

O que o Rio precisa está lá no editorial do DIÁRIO DO RIO: consciência de que autorizar a vida nas ruas pode significar, na verdade, a morte de uma grande cidade. É preciso devolver as ruas aos cariocas e turistas e devolver a esses moradores de rua aquilo que eles merecem: dignidade. O resto é casca sem recheio. Vamos quebrar essa casca.

2 COMENTÁRIOS

  1. Vereador, da próxima vez o senhor perca 2 minutos pra pensar em uma maquiagem melhor pro seu texto higienista. Falou muito, mas não falou nada. Qual é a proposta do VEREADOR da cidade pra devolver a dignidade aos moradores de rua? Nenhuma. Qual a alternativa ao problema que apresenta? Nenhuma. Em uma redação do Enem, prova de nível escolar médio, tiraria 0.

    Nas próximas eleições eu vou candidatar meu papagaio. Já que pro cargo só precisa falar. Quebrar os ovos é fácil, quando a casca é dos mais pobres, e o omelete só quem come são pessoas como o senhor.

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