Saiba como a Comlurb virou a empresa pública mais eficiente do Rio, assumindo tarefas que hoje vão muito além da limpeza da cidade

Retirado do O Globo

Passando a Limpo

 

A Comlurb, que recolhe nove mil toneladas de lixo por dia e não pára de assumir outras funções, virou referência de administração

*Por Dimmi Amora

Ailton Alves de Souza tem 59 anos e voz de trovão. Negro, 1,89m, com colares de contas vermelhas e azuis no pescoço sob uma camisa preta de tecido sintético, ele põe óculos de armação fina e dourada para ler um relatório dentro da pasta preta que carrega lotada de papéis. — O número de funcionários da gerência não está aqui. Peraí que eu vou ligar para pegar — pede o gerente operacional da Comlurb para a área de São Cristóvão. — Não pode ter erro. Se errar, dá problema no “Bom-dia”. não errar é uma rotina dentro da empresa que recolhe as nove mil toneladas de lixo que os seis milhões de cariocas jogam por dia em tudo que é lugar: na porta das casas, nas favelas, nas ruas, nas lagoas, nas praias, nas florestas, nas encostas.

 

Obstinados pela perfeição, seus 17.455 funcionários conseguiram transformar a empresa de lixo em referência de administração. A eficiência da Comlurb pode ser medida por suas centenas de indicadores, calculados diária, obsessiva e milimetricamente, que se resumem no seguinte: enquanto a maioria das cidades consome de 10% a 15% de suas receitas com a limpeza pública, em 2007 a empresa gastou 7,4% do dinheiro da prefeitura, ou R$ 612,9 milhões.

 

Do orçamento da empresa, R$ 455,2 milhões foram para as tarefas específicas de limpeza urbana. Com a pouca colaboração do carioca, que deixa 40% de seu lixo em locais públicos (mesmo com 132.438 papeleiras espalhadas pela cidade), a Comlurb tem que gastar até com a compra de materiais de alpinismo para retirar lixo de encostas. Os R$ 157 milhões restantes foram usados para cumprir obrigações que ao longo dos anos outros órgãos do município deixaram de fazer bem e passaram a ser realizados por ela.

 

Mas onde é mais visível a velocidade e a qualidade da limpeza pública feita pela empresa estatal é no primeiro dia do ano. Numa operação com organização militar, 93 quilômetros de praias (oceânicas e da Baía de Guanabara) são limpos num tempo que espanta cariocas e turistas ainda sonolentos ou embriagados pela festa do réveillon. Em alguns anos, a Operação Iemanjá, que começa às 6h, já terminou antes das 9h, recolhendo 682 toneladas de lixo deixadas na festa .

 

O planejamento da Operação Iemanjá começa quatro meses antes e conta com um componente essencial: a possibilidade de levar o que é coletado para os dois aterros sanitários da cidade. Este ano, portanto, pode ter sido o último de uma série de 35 anos dessa operação em que a Comlurb contará com estas áreas. Superlotados, os aterros estão próximos de não poderem mais receber detritos. Como a cidade de Nápoles, na Itália, o Rio deverá ficar em breve sem um lugar para seus rejeitos, o que jogará no lixo a estrutura atual da empresa.

 

Além de coletar e tratar o lixo dos cariocas nos 365 dias do ano, a Comlurb também limpa as mais de 1.064 escolas da prefeitura, os quatro maiores hospitais de emergência municipais, as feiras livres, os postos de salvamento da praia e o Parque Nacional da Floresta da Tijuca. Entre seus serviços inusitados, já emprestou técnicos para fazer auditoria nas contas da Secretaria municipal de Saúde. E em 2008 passou a cuidar de todas as praças, consertando brinquedos que estavam caindo aos pedaços.

 

Desde setembro, entrega os medicamentos do Programa Remédio em Casa. Não bastasse, ainda faz a poda de árvores nas ruas.

 

Até fevereiro, a poda era de responsabilidade da Fundação Parques e Jardins (FPJ), ligada à Secretaria municipal de Meio Ambiente. Entre 2001 e 2008, o prefeito Cesar Maia trocou seis vezes o titular desta pasta. Na seqüência: Eduardo Paes, ex-deputado federal e atual prefeito; Pedro Paulo, deputado estadual; Ayrton Xerez, ex-deputado federal; Rosa Fernandes, vereadora; Pedro Fernandes, filho de Rosa e deputado estadual; e Célio Luparelli, suplente de vereador. Depois de dezenas de acidentes com quedas de galhos, causados pela péssima manutenção de empresas terceirizadas, Cesar Maia chamou Paulo Carvalho, ex-presidente da Comlurb, e pediu que assumisse mais esse serviço.

 

Engenheiro, ex-professor da PUCRJ e com passagens por Telerj e Embratel, Carvalho é um gaúcho com sotaque português, herdado dos pais. Assumiu no primeiro dia do primeiro governo de César, 16 anos atrás, a presidência da empresa que até então tinha a característica padrão dos serviços públicos do Rio: a má qualidade. Esteve lá até 1º de janeiro de 2009 ininterruptamente.

 

Ao chegar à Comlurb, Carvalho recebeu dezenas de telefonemas de políticos pedindo a nomeação de apadrinhados para cargos de gerência.

 

Não atendeu nenhum. Colocou técnicos, cuja responsabilidade foi implementar rotinas que deixariam os bairros limpos. Em 1993, as pesquisas mostravam que 30% dos clientes não estavam satisfeitos com o serviço. Hoje, são 9%.

— Os políticos gostavam muito de mutirão. O trabalho não era feito direito, as pessoas reclamavam e eles pediam mutirão para limpar.

Acabei com isso e implantamos uma rotina para não deixar sujo. Agora vamos fazer o mesmo com a poda — diz o ex-presidente, que entregou o cargo para a engenheira Angela Fonti, ex-secretária municipal de Obras.

 

A rotina é o que Ailton, o gerente de São Cristóvão, chama de “Bomdia”.

 

São 110 gerências operacionais — três vezes mais do que há duas décadas —, cada uma com um planejamento de limpeza diário. Todos os seus 195 subordinados têm acesso a essa folha, escrita à mão. E as mal-traçadas linhas de Ailton, que quando entrou na empresa, em 1973, como gari, era semi-alfabetizado, só o cliente tem o direito de alterar.

— Sei onde está o lixo. Tenho autonomia. Não tenho que mandar papel para ninguém — diz Ailton.

Os clientes que Ailton tem que agradar colaboram pouco. Se em grandes cidades do mundo menos de 5% do lixo são tirados das ruas, na região de São Cristóvão ele alcança 48%. Mesmo assim, Ailton não pode ter mais que dez reclamações por mês. Em novembro, foram nove que chegaram através do call center da empresa, que recebe 450 mil ligações ao ano. Apenas 0,1% é para reclamar da coleta domiciliar. As chamadas de reclamação aparecem num computador na sala do gerente no momento em que chegam à central.

— E vão para a sala do presidente também — lembra Ailton.

A empresa que o ex-presidente Paulo Carvalho recebeu era grande, pesada e pouco preocupada com os clientes. Seu setor de atendimento por telefone era diminuto. Apesar de ter como tarefa a limpeza, tinha a maior frota de veículos da cidade: 1.568, em 1993. Era dona de uma fábrica, com mais de 250 empregados, responsável por fazer das vassouras às carrocinhas usadas pelos garis. O lixo era jogado em cinco lixões, entre eles o de Gramacho, hoje um aterro sanitário, mas que até 1995 era a visão mais apropriada do que se imagina ser o inferno.

 

A decisão de Carvalho foi tornar a empresa leve. E grande. A frota foi quase toda terceirizada e hoje, com 1.131 veículos (27% menos que 16 anos atrás), a Comlurb coleta 32% mais lixo do que em 1993. A fábrica tem um quinto dos funcionários e produz três vezes mais vassouras.

 

Não parou de produzi-las porque ninguém faz melhor e por preço mais baixo no mercado. Já não tem que fazer mais carrocinhas, que estavam com o uso condenado desde 1929, mas se mantiveram na paisagem até a década passada com suas enormes rodas de ferro e carcaça azul.

 

Quem empurrou por muito tempo essas carrocinhas foi Sebastião Alves da Fonseca. Aos 73 anos, com o rosto talhado e pequenos e profundos olhos pretos, ele está na Comlurb desde 1963. Ao chegar, a empresa estava trocando por caminhões as carroças movidas por 1.440 burros.

 

Mas as carrocinhas continuaram, para infelicidade de Sebastião que, mesmo contra elas, foi nove vezes escolhido o gari padrão.

— Quando empenava a roda, era igual empurrar um caminhão. Agora, o serviço está leve — diz o gari, que varre as mesmas ruas da Praça da Bandeira e da Tijuca desde 1980.

Com a carrocinha, Sebastião conseguia varrer no máximo 1,8 quilômetro linear de rua. Agora, empurrando um contêiner plástico de 120 litros, ele varre até 2,8 quilômetros no mesmo tempo.

— Ganhamos 30% de produtividade.

E os garis ainda passaram a cuidar de outros serviços, como limpeza de bueiros, pequenas capinas, limpeza de cartazes e das papeleiras — conta Sebastião Alves Neto, gerente operacional, que fez cursos de gestão da qualidade, no início da década de 90, baseado nas idéias de Vicente Falconi (hoje consultor do governo do Rio). — Éramos reativos. Se reclamavam, mandávamos um caminhão. Mas não avaliávamos. Padronizamos o serviço e hoje a Comlurb é igual na cidade inteira Para fazer a limpeza do réveillon, a orla é dividida em 54 setores que, às 10h, já devem estar limpos. São 3.600 funcionários e 375 máquinas para o trabalho. Cada gerente convocado cuida de um setor. Ailton e sua equipe de 80 pessoas de São Cristóvão são responsáveis pela limpeza entre o Posto 6 e a Rua Djalma Ulrich, em Copacabana, que, sozinha, responde por 39% do lixo da operação.

 

Na última virada, para estar com tudo pronto para começar a limpeza às 6h, Ailton despediu-se de todos na confraternização em sua casa às 23h30m. É o horário em que a preparação começa para a maioria. Da Zona Oeste e da Baixada partem 64 ônibus fretados em direção à orla para que os garis não se atrasem.

Pelo rádio, Ailton pede para que todos tomem o café da manhã no próprio ônibus. Quando chegam a Copacabana, seus homens fazem um aquecimento antes do trabalho.

— Para nós, essa limpeza das praias é encarada como uma grande missão — revela o gerente.

Dos 3.600 homens, 80% são garis que, ao fim do trabalho, em pleno réveillon, alegres e orgulhosos, comemoram o dever cumprido. São outros tempos. Ao entrar na empresa, em 1993, Carvalho conta que os garis tinham vergonha da profissão. Com baixos salários, andando na caçamba de caminhões, sem equipamentos de segurança e tendo que fazer sua comida em fogueira nas ruas, o alcoolismo virou quase regra.

 

Hoje um gari ganha R$ 589,18 (R$ 118,84 acima do salário mínimo regional). Mas não é só isso que faz com que os trabalhadores sejam bem dispostos, educados, eficientes e alguns até personalidades da cidade, como Renato Lourenço, o Sorriso. A empresa já recebeu pedidos de modelo de roupas e caminhões para fazer festa infantil cujo tema era gari (a origem do nome é do primeiro homem a limpar as ruas da cidade, um francês chamado Aleixo Gari).

 

Agora, os garis podem progredir na empresa para ocupar outras funções se tiverem boas avaliações de desempenho. O número de horas de aulas de treinamento passou de três mil para 203 mil em 15 anos. Os garis ganham ainda plano de saúde e tíquete-refeição ou alimentação de R$ 225. Na empresa, eles recebem também um café da manhã. Não por caridade. Uma pesquisa constatou que a maioria dos acidentes de trabalho acontecia no início da jornada matinal. Os trabalhadores chegavam muitas vezes mal alimentados e ficavam mais expostos.

 

Pedro Paulo Pimenta, responsável pela área de segurança do trabalho, conta que agora o maior problema é causado pela falta de cuidado dos cariocas com o lixo domiciliar, o mais simples de ser coletado. Cacos de vidro e agulhas são deixados sem a proteção de um papelão ou de uma garrafa pet, causando cortes. No trabalho mais perigoso da empresa, a limpeza de encostas (que já tirou até uma geladeira da encosta do Cristo Redentor), jamais houve acidente.

 

Toda a técnica da Comlurb por pouco não foi exportada para a maior capital do país. A pedido de Cesar Maia, a empresa chegou a estudar a participação na concorrência para recolher as 15 mil toneladas de lixo diárias de São Paulo, mas desistiu. Paulo Carvalho disse a Cesar que seria arriscado por causa da inadimplência comum nesse mercado. Nas grandes cidades, a limpeza urbana é terceirizada para movimenta mais de R$ 10 bilhões por ano e os escândalos são comuns.

 

Por aqui, a Comlurb é acusada, por exemplo, de beneficiar a Julio Simões, empresa que começou na área de transportes e que foi a que mais venceu licitações para terceirização da sua frota. O ex-presidente nega qualquer favorecimento.

 

A Julio Simões foi uma das sete concorrentes que disputaram a licitação para a construção do novo aterro da cidade pelos próximos 30 anos. Para isso, teria que obter um terreno adequado dentro do município e realizar as obras nos moldes que a Comlurb determinava.

 

Paulo Carvalho diz que o aterro foi concebido durante três anos e atendeu a todas as sugestões dadas por várias entidades. Mesmo assim, cinco anos depois, ele continua no papel e sua construção virou uma batalha político-jurídica.

— O problema foi o preço. É três vezes menor que o de qualquer aterro no país. Como as empresas justificariam seus preços comparados com os nossos? — pergunta Paulo Carvalho.

Com o preço (atualizado) de R$ 16 por tonelada (contra média de R$ 45 no mercado), a vencedora da concorrência foi a Julio Simões, a mesma que era a principal fornecedora de veículos para a Comlurb. Concorrentes, entidades da sociedade civil e políticos entraram na Justiça alegando irregularidades. Já são 60 ações judiciais contra o novo aterro.

 

Enquanto isso, os aterros de Gramacho e Gericinó recebem todo o lixo e estão chegando ao esgotamento, podendo causar uma tragédia ambiental.

 

Desde o ano passado, Nápoles, no sul da Itália, também está sem aterro sanitário. Lá, parte da destinação final do lixo era controlada pela máfia, que ganhava milhões recebendo inclusive lixo clandestino de outros países. A máfia perdeu esses aterros, mas tem impedido outros e sobrou para os moradores a queima de lixo nas ruas, causando poluição e afastando turistas.

 

Enquanto os aterros do Rio não se esgotam, Ailton chega numa segundafeira antes das 7h na gerência. Cumprimenta todos pelo apelido, liga seu computador e puxa as queixas. Nenhuma desde o fim de semana. Seu problema é com a estação de transferência do Caju, para onde o lixo vai antes de seguir para os aterros, que já está lotada.

— Vamos mandar o último caminhão direto para o aterro e desafogar o Caju — ordena.

Sem grandes queixas, está tudo certo para que o item cinco do “Bomdia” seja cumprido: a SDP04-2 fará a limpeza da Avenida Leopoldo Bulhões, que corta o subúrbio. A equipe de 16 garis com nome de nave espacial, que Ailton chama de Tropa de Elite, sai num microocirc;nibus com ar-condicionado.

 

É ela quem dá uma garibada mais caprichada em qualquer área da cidade.

 

Para serem mais eficientes, seus capitães Nascimentos usam um truque ensinado por Ailton. As vassouras da fábrica Aleixo Gari — as melhores do mercado — chegam com 17 centímetros de piaçava e recebem um corte do tamanho de dois dedos na ponta. Ailton explica que assim elas são mais eficientes na varrição de áreas muito sujas: — Temos poder de improvisação. A gente se vira nos 3