Foto: Elisa Riva por Pixabay

Envelhecer
Antes, todos os caminhos iam.
Agora todos os caminhos vêm.
A casa é acolhedora, os livros poucos.
E eu mesmo preparo o chá para os fantasmas.

Mario Quintana

Socialmente, no nosso cotidiano, ouvimos muitas vezes as seguintes frases: “estou muito velho para mudar”, “estou muito velho para terapia”, entre outras frases similares. Contudo, na minha prática clínica, tanto no serviço público como no consultório particular, encontrei algumas pessoas classificadas como idosas dispostas a embarcar nesta aventura e a enfrentar suas questões subjetivas. Aí vem a pergunta: tem idade máxima para fazer terapia? E para que? Adianta?  Seria mais difícil mudar com a idade avançada, seriamos menos flexíveis? É possível. Mas depende de cada um a disponibilidade de se encontrar consigo mesmo, de novas descobertas, de ressignificar o passado e, quem sabe, mudar alguma relação do presente e daí surgirem possibilidades de viver com mais liberdade e plenitude. A pessoa que sofre, de qualquer idade, pode querer falar disso.

Desse modo, surge a pergunta: quando nos tornamos velhos? O que é velhice? O que marca a velhice? A aposentadoria? Ter mais de 60 anos? “A velhice seria um sentimento de estar velho? “Existem velhos de 18 anos e jovens de 90”? “A velhice está na alma”? como diz a conhecida frase popular.

A idade cronológica, as marcas corporais e a aposentadoria podem ser dados imprecisos para definir a velhice, mas, é claro, que não podemos desconsiderar o tempo que passa e as experiências vivenciadas. Com a idade, inegavelmente, vem as mudanças corporais, passamos por inúmeras perdas de todos os tipos. Perdemos pessoas, famílias, amigos, trabalho, emprego, status, finanças e é preciso um trabalho de luto para lidar com estas perdas. Perdas e lutos fazem parte da vida, principalmente em vidas longas. Não é possível envelhecer sem perdas e, muitas vezes, a depressão, as lamentações e queixas são uma resposta a estas perdas.  Não é fácil, reinventar a vida!

Cada um tem uma relação particular com o tempo, assim cada um envelhece de seu próprio modo. A velhice não é reduzida a uma idade cronológica, ainda mais no campo psíquico. Quando pensamos em psicanálise e em inconsciente, sabemos que o inconsciente é atemporal. As nossas primeiras marcas de infância, mesmo com a idade, continuam presentes. E a realidade da qual falamos na psicoterapia é a realidade psíquica, trocando em miúdos, é a nossa versão da história, é como vivenciamos e sentimos os fatos ocorridos que vai determinar como levamos a vida. E isso não tem idade. 

A impossibilidade de uma psicoterapia em uma idade mais avançada ou próximo dela, diz mais de como a velhice é vista e considerada na nossa sociedade do que propriamente uma impossibilidade do idoso em fazer uma análise. A análise pode ser o lugar para o idoso falar e atualizar seu passado. Inclusive, é comum um grande prazer na recordação do passado em alguns idosos.

Na nossa sociedade, a velhice é associada ao declínio da memória e cognitivo e ao adoecimento. Pouco se fala de sexualidade ou felicidades na idade avançada. Com a pandemia e o distanciamento social, questões que já rondavam a velhice vieram à tona, como fragilidade, doença, solidão e, finalmente, trouxe luz sobre a velhice e o lugar do idoso na nossa sociedade, já que inicialmente, eles seriam o grupo de maior risco para o covid-19.

Assim, para concluir, a psicoterapia, está aberta a todos que queiram embarcam neste caminho e é bom lembrar que não é algo que deve ser indicado, como uma prescrição médica a determinados grupos. É como já foi dito indicado para quem quer embarcar nesta aventura de querer saber mais sobre si próprio.

Samantha Lemos

Psicóloga e psicanalista, é especialista em Saúde Mental da Infância e Adolescência pelo Instituto de Psiquiatria da UFRJ (IPUB/UFRJ) e em Psicanálise e Saúde Mental pela UERJ. Psicóloga da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro (SMS/RJ) e do Programa Interdisciplinar de Apoio às Escolas da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro (SME/RJ). Membro associada ao Corpo Freudiano seção Rio de Janeiro

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