Ponto nevrálgico de Santa Teresa, o Largo do Guimarães tem a bifurcação entre a Rua Almirante Alexandrino e a Rua Pascoal Carlos Magno, onde fica seu polo gastronômico.

Uma pesquisa do Instituto Rio 21 feita com dados oficiais da Secretaria Estadual de Segurança Pública aponta que Santa Teresa presenciou o menor número de roubos a transeuntes nas ruas do bairro em mais de 14 anos em 2020. Também o roubo a residências se manteve num patamar bem baixo. Porém, uma simples pesquisa nos maiores sites de vendas de imóveis e de imobiliárias locais demonstra que, na área mais valorizada do bairro segundo corretores locais, a quantidade de casas à venda é simplesmente enorme.

Se a segurança era por alguns tida como a razão para que as pessoas não quisessem morar em uma casa num dos bairros mais agradáveis, bucólicos, calmos e estilosos da cidade, os dados do Instituto Rio 21 jogam isso por terra. Desde 2017, o número de roubos a residências no histórico bairro da região central se mantém abaixo de 8 (oito) por ano. E Santa Teresa tem nada menos que 515 hectares, e cerca de 41.000 habitantes.

Segundo corretores, a área mais valorizada do bairro se encontra entre o Largo do Curvelo e o Castelo do Valentim, abrangendo algumas ruas especialmente valorizadas, como a Rua Aprazível, a Ladeira do Meirelles, a Pascoal Carlos Magno e a Rua Teresina. “Consideramos o Largo do Guimarães o epicentro de valorização de Santa Teresa. Quanto mais perto dele, mais valorizado o imóvel, ressalvado o caso de imóveis com vistas magníficas e que estejam entre o Curvello e o Valentim“, disse ao DIÁRIO DO RIO a corretora de imóveis Edi Rodrigues Valle, especialista na região.

Isso significaria que estes imóveis devem ser muito raros e difíceis de encontrar, seja para venda ou aluguel. Certo? Errado. Nossa equipe, numa pesquisa de campo feita no decorrer do mês, encontrou uma quantidade grande de residências incríveis, no ponto mais valorizado do bairro, à venda. Começando pelo Largo do Curvelo, verificamos que a linda casa amarela de cúpula redonda em cobre azinhavrado bem na esquina da Almirante Alexandrino com a Rua Dias de Barros, construída em 1916, está à venda.

O famoso imóvel na esquina da Almirante Alexandrino com a Dias de Barros está anunciado para venda. Teria 3.000m2 e a pedida seria de nada menos que 30 milhões de reais.

Uma pausa no nosso roteirinho para falar de uma área um pouco menos cotada, mas igualmente linda, a rua Joaquim Murtinho, que é o nome da Almirante Alexandrino, antes do Largo do Curvelo. Nela, várias pousadas e hostels foram inaugurados nos últimos 20 anos. Numa rápida pesquisa, encontramos em anúncios para venda vários destes. Com destaque para mansão Sonho do Papagaio, lindíssima, à venda por 3,2 milhões. O Hostel Bossa in Rioquase ao lado, também está anunciado para venda, e a corretora responsável pede R$ 1,15 milhão. Juntinho aos dois, está o lindo boutique hotel Casa Amarelo, instalado numa casa linda de 1904, anunciado por R$ 5,5 milhões; são 859m2. Logo ali perto, no iniciozinho da rua Hermenegildo de Barros, uma mansão conhecida por ter uma bonita torre visível por todos os lados está sendo anunciada por 3,4 milhões pelo corretor Wolfran Goebel.

Combinamos ir do Curvelo até o Valentim. É isso que faremos. Saindo do Curvelo, um pouco mais adiante, quase chegando no Largo do Guimarães, outro imóvel lindo, conhecido por todos como “Castelinho do Largo do Guimarães”, atrai a atenção de todos. É a antiga clínica São Fernando. Este imóvel foi totalmente reformado após ser vendido pela Sergio Castro Imóveis, não uma, mas três vezes, de 2004 para cá. Ficou lindo, tendo sido dividido em diversos apartamentos, mantida sua linda fachada com janelas neogóticas e fantástica cúpula da torre em pedra ardósia, no estilo francês. Mas… Está à venda. A pedida? R$ 7,9 milhões pelos seus quase 1.000m2 de construção, e amplo terreno. Ganhou uma bonita piscina.

O Castelinho do Guimarães, como é conhecido, é visível de diversos pontos do bairro e já foi uma clínica. Está à venda por R$ 7.900.000,00.

Chegamos ao ponto mais valorizado do bairro, o Largo do Guimarães, facilmente reconhecível pelo antigo Armazém São Joaquim (o prédio amarelinho e vermelho de duas esquinas, com fachada em pedras de mão) que sediará um Bar de Tapas e uma Imobiliária, e pelo Cinema de Santa Teresa, assim como pela antiga Padaria das Famílias, hoje Portella Bar. E é aqui que deveria ficar mais difícil encontrar imóveis à venda, né? É o ponto mais seguro do Bairro, junto à polícia, administração regional, e polo gastronômico.

Uma das vistas mais lindas do Rio de Janeiro pode ser vista do Rio Panoramic Boutique Hotel, na Ladeira do Meirelles, acessível pelo Largo. Imóvel Art Déco incrível, coisa de cinema. Você adivinhou. Está à venda. A pedida é de R$ 9,8 milhões, e não uma, não duas, mas umas quatro corretoras estão anunciando o imóvel para venda, e ele ainda funciona como hotel.

Um pouco mais pra perto do Guimarães (como dizem os moradores de Santa), ficava o antigo Relais Solar de Santa, já desativado. O imóvel, com imenso jardim arborizado, teve seu térreo construído no século XVIII, e seu varandão em arcos com cantarias de granito é de chorar de lindo. Com cerca de 709m2 em terreno de 1782m2, o imóvel é uma das antigas residências da família De Botton, outrora donos da poderosa loja de departamentos Mesbla. Esta linda casa tem quatro propriedades vizinhas muito especiais.

Na foto de divulgação de uma corretora de imóveis, o antigo Relais Solar de Santa

A primeira delas delas é a casa de festas e eventos mais espetacular da cidade, o Solar Real. O imóvel tem uma das vistas mais fantásticas e sensacionais de todo o Rio de Janeiro, e é um antigo hospital do Império, construído no século XVIII, depois doado por Dom Pedro II para um Convento. Depois, foi moradia da Família De Botton. Tem um terreno majestoso, cercado das visões mais espetaculares da cidade, piscina semi-olímpica, mais de 1.500m2 de construção e… está à venda. Duas imobiliárias o anunciam por R$ 12,8 milhões. A segunda casa vizinha é uma bonita casa de dois pavimentos, 1700m2 de terreno e 600m2 de construção, logo abaixo do Solar Real e logo acima do antigo Relais Solar, e que segundo vizinhos, pertenceria a um advogado. Esta tem uma pedida meio salgada, comparada com as outras: R$ 7.500.000,00.

A terceira casa vizinha impressiona quem passa pelo Largo do Guimarães, e foi construída em 1871! São quase 4.000m2 e a sua entrada portentosa chama atenção de todo mundo. Conhecida como “a casa do alemão“, estaria na enésima geração de uma mesma família. Está anunciada para venda por R$ 8.000.000,00 pela corretora Tavares, e seu muro altíssimo vai da Ladeira do Meirelles, pela Rua do Aqueduto, e vai até segunda curva da Rua Aprazível. Pelas fotos a que tivemos acesso, parece uma casa de fazenda, e necessita de pintura, mas seu dono já encheu o telhado de painéis solares.

Em foto do Google Earth, a “casa do alemão”. Anunciada na internet por 8 milhões, teria cerca de 800m2 de construção e parece uma casa de fazenda.

Você pensa que acabou né? Mas não. A quarta casa vizinha é uma casa que divide a rua particular de entrada com o Solar Real, e está anunciada por nada menos que quatro corretores. Pelas fotografias, está em péssimo estado de conservação, e não tem piscina, além de ter “apenas” 385m2. Mas a vista é um deslumbre, e os detalhes em azulejos antigos são um arraso. O preço é de 5,5 milhões de reais. São três pavimentos acessíveis por uma escadaria muito bonita, mas…haja exercício de step!

Quase de frente para a “casa do alemão” e para a “casa do advogado“, está a casa mais anunciada de Santa Teresa. Com frente para a Rua do Aqueduto e para a Rua Aprazível, nada menos que 8 corretoras anunciam o imóvel na internet. O preço pedido é de 4,2 milhões, mas a aparência da casa de 700m2 demonstra a necessidade de obras e mais obras, denunciando a razão de tantas corretoras anunciarem o mesmo imóvel, sem sucesso, há tanto tempo.

A casa mais anunciada de Santa Teresa está à venda por 4,2 milhões e se encontra em péssimo estado de conservação, além de ter recebido janelas de alumínio em completo desacordo com sua arquitetura.

Na Rua Aprazível, considerada a mais valorizada do bairro, são 27 casas à venda em sites especializados. Com as informações obtidas pelo Instituto Rio 21, a segurança no bairro é, em geral, satisfatória, e mais ainda nesta região mais central, da Rua Pascoal Carlos Magno e do Largo do Guimarães. Segundo especialistas, o aumento do custo de vida, a redução do número de famílias que conta com empregados domésticos mensalistas, e as dificuldades econômicas pelas quais o Rio de Janeiro vem passando, são as explicações para este fenômeno, assim como o esvaziamento da região central da cidade, em direção à Zona Sul e à Zona Oeste.

A verdade é que morar em Santa Teresa é emblema de um estilo de vida”, disse ao DIÁRIO DO RIO a Superintendente de Vendas da Sergio Castro Imóveis, Lucy Dobbin. “Temos que compreender que o mau momento do setor hoteleiro pode ter contribuído para que tantos hostels e boutique hotels tenham sido colocados à venda. Mas a pandemia leva o principal crédito disso, por ter afastado os estrangeiros, que são tão apaixonados pela Montmartre carioca. Quem comprar hoje, está fazendo um bom negócio”, completa a profissional, que confessa, todavia, que a procura está menor, pois os proprietários estariam “pedindo preços de outra época”. Mas, como todo corretor, puxa pelo otimismo: “Estamos abrindo uma filial no bairro, bem no coração do Guimarães. Não faríamos isso se não acreditássemos“, desafia.

Profissionais são unânimes também em dizer que, pelas regras de mercado, uma boa casa precisando de reformas – não estamos falando de uma ruína, leia-se – no melhor ponto do bairro não sai por menos de 2 milhões de reais, e uma dessas mansões já reformada – ou melhor, restaurada, pois as casas antigas são mais procuradas do que as modernas, neste bairro – pode chegar a 7 milhões de reais. Deseja-se piscina, muro alto, amplos jardins, e garagem, segundo eles, e uma bela vista torna a venda mais fácil. E pra nós meros mortais, resta admirar as fotografias, comer uma lingüicinha na Adega do Pimenta, e jogar na Megasena. Boa Sorte pra nós.

18 COMENTÁRIOS

  1. Sou morador do Largo dos Guimarães, para mim o que afasta as pessoas é que desde alguns anos o som alto do comércio nesta área acaba com a paz de qualquer um. A prefeitura simplesmente não faz valer os limites estabelecidos na ligislação para a área citada.

  2. Muito boa matéria. Sou de Santa e para perceber que o reporter fez uma pesquisa minunciosa ao contrário de outros de publicações mais famosas e fazem matéria superficiais.
    Parabéns!!!
    Vou jogar na megasena porque vale a pena morar aqui.

  3. Essa pesquisa da SSP não é nada confiável. Santa Teresa é sabidamente um dos bairros mais perigosos do Rio e é cercado de favelas por todos os lados. Sem contar que se você não tiver carro, sua vida será um inferno e se tiver, será roubado. Vocês estão de brincadeira.

  4. O relato é bom, mas se baseia em informações com referências superficiais e incompletas. Faltou falar de ruas interessantes, como a Triunfo, Fonseca Guimaraes, Aurea, Constante Jardim, Felício dos Santos, Laurinda Santos Lobo, etc.

  5. Nesses valores??
    Sou bem mais simplório:
    Com 1 milhão compro uma boa casa no interior, região serrana ou sul fluminense ( ainda sobra grana ) como o home office veio para ficar, venho às reuniões ou necessidades específicas, vejo a baía da Guanabara pela “grobo” e terei melhorado infinitamente minha qualidade de vida.
    Bye cracudo, bye violência, vou mesmo é ficar rindo a toa!!!

    • Exatamente! Estou apenas preparando tudo e o mais breve possível estou indo embora para região serrana. Vou manter o escritório funcionando aqui, mas só virei quando necessário. Qualidade de vida e segurança no RJ é quase impossível.

  6. Amo Santa Teresa. Morei 43 anos no bairro, entre 1970 e 2013, na época em que tínhamos de tudo: padarias, armazéns, açougues, farmácias, quitandas, etc. O meu pai era.dono da loja de ferragens do Largo do Guimarães, ao lado da padaria das famílias. Permanecemos ali de 1970 a 2005. Uma época de ouro que vivenciamos em Santa Teresa quando la fomos morar. Quando chegamos, não tinha tanta favela como hoje. Moramos na rua Filadélfia, depois Pascoal Carlos Magno e, por final, na Rua do Paraíso . Sinto saudade daquele tempo. Tínhamos tudo no bairro, depois foi tudo fechando e abrindo só bares e restaurantes. Apesar de tudo, Santa Teresa ainda é um encanto. Quem sabe um dia eu volto?

  7. Confesso que fiquei surpresa com os preços: me parecem irreais para o bairro. Por isso tantos imóveis à venda. Além disso, o comprador tem que estar disponível para a reforma e manutenção de uma casa dessas. Esses espaços imensos requerem também uma mensalista. A família também tem que ser grande para justificar habitar espaços gigantescos. Hoje há outras formas de morar e eu não sei se as pessoas que cumprem esses requisitos optariam por morar em Sta Tereza. É um bairro lindo e bucólico, sem dúvida, mas com poucos recursos limitam a procura, sobretudo por parte das pessoas com mais idade. E a segurança ainda é menor se comparada a outros bairros. Mas o seu artigo é mto bom. É quase um catálogo dos imóveis lindos de Santa Tereza. Foi bom revê-los virtualmente. Obrigada.

  8. Ainda em Santa Teresa, na rua Prefeito João Felipe, há outras várias mansões a venda, como as dos antigos donos do Jornal do Brasil e o ex proprietário do hospital Pronto Baby. Todas há anos vendendo. O maior problema do bairro é que hoje é cercado por favelas e os constantes tiroteios e operações policiais são aterrorizantes!

    • Muito boa matéria. Sou de Santa e para perceber que o reporter fez uma pesquisa minunciosa ao contrário de outros de publicações mais famosas e fazem matéria superficiais.
      Parabéns!!!
      Vou jogar na megasena porque vale a pena morar aqui.

  9. Corretor gênio esse aí, então.
    Acabou de dizer que o bairro todo está à venda. Pra quem tem a inteligência de ser “oculto” me parece uma grande burrisse

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