A situação dos acessos ao bairro chega a um ridículo tão grande, que os próprios moradores fazem a sinalização, com o bom humor típico do carioca

Numa cidade com vocação turística como o Rio de Janeiro, os lugares mais visitados pelos turistas acabam sendo os que recebem mais detalhada atenção do Poder Público: justo, ou injusto com os moradores dos outros bairros, isto é realidade em qualquer cidade do mundo. É verdade que após a administração do ex-prefeito Crivella, passamos a viver num tipo de realidade paralela. Mas também é verdade que sua (má) administração já acabou há praticamente seis meses e as autoridades parecem ainda seguir em transe.

Certamente a Prefeitura sabe que o terceiro ponto turístico mais visitado do Rio de Janeiro é a Escadaria do Selaron, na divisa entre Lapa e Santa Teresa. E, da mesma forma, deve saber que a cada dia que passa a colorida escadaria concebida e executada pelo artista chileno Jorge Selaron vem sendo depredada e depenada. Azulejos são arrancados por gente que “quer levar uma lembrancinha” e também se descolam por falta de manutenção. O mapa do bairro, lá em cima, vive sendo pifado e danificado, como já noticiamos aqui. Não há guardas municipais subindo e descendo as escadas; ficam sempre PMs ou guardas na parte de baixo, e quem estiver lá pra cima “que se lasque”, disse ao DIÁRIO José de Arimathea, morador das proximidades. Para o Sr. José, nem os PMs “nem se preocupam em subir, para pegar os garotos que vendem maconha e outras drogas lá pra cima”.

A Prefeitura também sabe que as formas mais usuais de subir para o Polo Gastronômico de Santa Teresa, são através das ruas Santa Cristina, Cândido Mendes, Silvio Romero, Francisco Muratori, Monte Alegre, Ladeira do Castro e André Cavalcanti. As autoridades municipais certamente já ouviram falar que os taxistas e motoristas de aplicativo evitam subir para o bairro, e fazem a cidade passar vergonha a cada vez que recusam uma corrida, seja de nacional ou de estrangeiro, em direção ao bairro. E tenha certeza, eles sabem muito bem que a principal razão de se recusar tais corridas é o estado absolutamente vergonhoso, por vezes de ruína, em que se encontram as pavimentações destes 7 principais acessos ao bairro. Os imensos rombos e crateras das ruas que dão acesso a Santa Teresa chegam a completar aniversários anuais, sem nenhum tipo de ação do município. Paralelepípedos jogados um por cima do outro, já causaram a destruição de diversos carros.

É chocante nível do mau serviço que recebemos aqui, somos cariocas de segunda classe”, disse o morador Genivaldo Pereira, que se diz apaixonado pelo bairro. Há que se entender a revolta do seu Genivaldo. Descendo a pé a Ladeira de Santa Teresa, em direção à Lapa e ao Convento que deu nome ao bairro, perto da esquina da Rua Gonçalves Fontes, uma imensa cratera tem paralelepípedos jogados pra tudo que é lado. Terra de Ninguém. Aliás, de ninguém mesmo: “Ninguém conserta nada aqui. Nós mesmos ficamos colocando os paralelepípedos no lugar”, disse ao repórter uma simpática freqüentadora do Bar do Serginho. Jaz solitária no bairro – e toda pichada – uma placa comemorativa de uma intervenção relevante realizada na parte histórica de Santa pela Prefeitura: o conserto dos para-peitos em ferro forjado trabalhado que decoram a murada que dá para o Largo do Guimarães: obra da primeira gestão do prefeito César Maia (1992).

Se os motoristas profissionais fogem do bairro, os moradores – como é típico do carioca – levam o total abandono com bom humor. No início do ano, uma imensa placa ‘ornava’ um dos rombos que se tornaram símbolo de Santa. Ela dizia “é com vocês mesmo“. Alguns propuseram até soprar velinhas: “os buracos são tampados de forma precária, e acabam aparecendo de novo nos mesmos lugares, porque não é feito o reforço necessário, apenas enchem e recolocam os paralelepípedos“, disse Genivaldo.

O estado do asfalto na esquina da Rua Leopoldo Fróes com a Rua Aprazível é mais uma belezura, complementada por uma eterna poça d’água que se acumula, como um lago, junto a uma válvula azul, provavelmente da CEDAE. E a calçada na Rua Aprazível junto à Leopoldo? Em ruínas.

Um bairro que vem tentando fortalecer seu comércio, que tem restaurantes de renome em toda a cidade como a Adega do Pimenta, o Sobrenatural, o Portella Bar, Bar do Mineiro, o Teréze, o badaladíssimo Aprazível e a badalada lojinha de doces Alda Maria, que tem o magnífico Parque das Ruínas, o fantástico Museu Castro Maya, inúmeros Hotéis, Hostels, Pousadas e casas de eventos, entre outras várias atrações sensacionais do ponto de vista cultural, simplesmente necessita de algum tipo de atenção do poder público para suas vias de acesso. E nem vou falar do favoritíssimo deste repórter, o centenário Armazém São Thiago. “Pra começar, nem precisamos de atenção especial. Basta esse pessoal lembrar que Santa Teresa existe.”, disse um conhecido comerciante do bairro.

Recentemente restaurado, o bonito Armazém São Joaquim, construído em 1854 com sua meia fachada em pedras de mão e inconfundíveis janelinhas vermelhas, mal pode ser enxergado pelos freqüentadores. Uma imensa banca de jornal, que mais parece uma loja da Barra da Tijuca, decorada em chapas de inox e plástico azul, esconde 1/4 do prédio, e dois postes enormes – um deles na cor prata, com um acabamento de chapéu chinês (como um exaustor) e acoplado a um imenso armário suspenso, servem para desviar a atenção da beleza que deveria emanar do histórico Largo do Guimarães.

Se fôssemos entrar no mérito das ruas internas do bairro, esta reportagem teria 25 laudas e provavelmente citará quase todas as ruas. O estado da pavimentação do bairro é digno de municípios muito pobres, pequenos e sem recursos, do interior das regiões mais necessitadas. Um começo muito lógico seria rever primeiro os acessos ao bairro, um dos mais queridos pelos turistas de dentro e de fora da cidade, dando início a uma programação de consertos mais ampla. Afinal, se ninguém conseguir chegar ao bairro, nem vai ter chance de ver o restante dos problemas pelos quais passa um local cheio de edificações históricas, mansões mágicas, cultura rica e diversa, vistas deslumbrantes, natureza rica, clima fresquinho e com uma calmaria digna de cidade do interior.

Atualização – 25 de maio de 2021 – 11h34

A Cedae informa que técnicos da companhia vistoriaram, na manhã desta terça-feira (25/05), o encontro das ruas Leopoldo Fróes com Aprazível e não foi constatado vazamento em sua rede.

4 COMENTÁRIOS

  1. Levei a família pra passeio no bonde. No caminho havia um veículo. Ficamos por uma HR esperando a GM tomar providências. No final o dono do carro aparece e nem uma multa tomou. Precisava ver a cara dos turistas. It seems the mayor doesn’t care…

  2. Concordo inteiramente com o artigo.
    Santa Teresa é uma especie de Montmartre Carioca, mas é tratada como se nao fosse nada.
    Cadê a Secretaria de Conservação? A Secretaria de Planejamento Urbano?
    Em tempo: A escadaria Selaron também é um caos em termos de acesso. Quando que a Prefeitura vai desapropriar ou comprar aquele estacionamento gigantesco em frente à escadaria, em nome do interesse publico? Poderiam transformar o espaço numa area de embarque/desembarque, em vagas, também num pequeno parte e local de convivencia.
    As vans de turismo se amontoam em espaços minusculos, com um estacionamento privado gigante ali ocupando um grande espaço bem em frente. A rua está suja, as fachadas da rua da escadaria também estão degradadas e não há incentivo publico à sua ocupação. Alem do que, o acesso à Sta Teresa pela escadaria, usando rua do Convento, é mto perigoso, o que é absurdo.

  3. Realmente é um absurdo o abandono em que se encontra o nosso querido bairro de Santa Teresa.
    Sou de uma família centenária do Bairro e fico triste de ver o esquecimento do poder público em relação ao bairro.
    Existe uma Região Administrativa XXIII por que, se nada acontece?
    Moro aqui há 22 anos e o que vejo é a deterioração do bairro. a cada ano que passa.
    Esperamos que este ano alguma coisa seja feita para restabelecer o turismo em Santa, restabelecer as ruas que estão abandonadas principalmente a que vai para o Silvestre, e trazer novos moradores que zelem e deem valor ao Bairro que fica a 10 minutos de qualquer lugar do Rio de Janeiro.
    Aguardamos com ansiedade as obras da prefeitura que o bairro merece e tem direito, pois pagamos impostos para que?

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