São Jorges

Sao Jorge, Rubens, 1606

O Brasil devoto reconhece em muitos santos católicos um canal legítimo de expressão de sua fé. Nem todos os santos, porém, são tão populares como é o caso de São Jorge. Em especial no Rio de Janeiro, São Jorge é acolhido pelo povo de uma maneira bem peculiar. De modo que, em todos os anos, no dia 23 de abril, logo que a manhã raia no céu, já se notam sinais evidentes desse fervor de adoração. Fogos de artifício pipocam no asfalto e no morro, famílias inteiras saem à rua, numa alegria de feriado, sacolejando no trem, descendo ladeiras vestidas em vermelhos de tonalidades mis, beatas se amontoam nos adros das igrejas do Centro e de Quintino, barracas se armam com quitutes e bebidas.

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O Julgamento de São Jorge, Bernardo Martorell, 1434

No intervalo de tempo que separa anualmente cada missa celebrante em nome do santo da Capadócia, está lá envidraçada numa moldura ou mesmo esculpida num gesso modesto a imagem de Jorge.  É fato que Jorge é um santo pop, querido e citado como um exemplo de força física e moral: tem lugar cativo no altar de muitos lares suburbanos, em botequins, escolas de samba. Mas, acima de tudo, Jorge é uma representação artística.

Na verdade, o conjunto de expressões de fé que encontramos em demasia na religião católica, ou seja, toda aquela galeria de anjos, santos, profetas narrados na Bíblia ou fora dela não passa de uma iconografia. Iconográfico é tudo aquilo que, por conta da plasticidade de sua forma, compreende certa linguagem visual. Isso significa que ao expressar uma linguagem visual, a imagem comunica um conteúdo, algo que é interno a ela e que, pela exteriorização, se mostra e se revela. No original da língua grega, Icon é “eykon” (imagem) e Grafia é “graphia” (escrita). O que se entende, por aí, que imagens formam gramáticas próprias.

São Jorge e o Dragão, Vitale da Bologna. 1330

São Jorge é uma gramática: ele fala uma linguagem sugestiva, não-verbalizada, que somente as representações artísticas são capazes de fazer. O Jorge que devotamos na festa do dia 23 é um símbolo; há algo nele que quer dizer. Mas isso não implica que ele seja uma imagem estanque, parada no tempo, pelo fato de ser um santo da Idade Média. Jorge é um símbolo vivo que atravessa os rincões da história e que, a cada festa que se celebra em sua honra, a cada peito inflamado de fé, atualiza sua força representativa entre seus devotos.

Nas artes visuais, Jorge tem uma significância iconográfica: ele é a imagem da força, do arrebatamento e da coragem. Couraça, armadura, capacete são os muros de proteção desse espírito destemido, enquanto sua lança aponta a meta que conduz o guerreiro: a superação de tudo o que enfraquece e oprime. Desde a Idade Média, pintores o representam com maestria, como forma de fortalecer esse objetivo iconográfico que a Igreja sempre prezou e dedicou confiança. Naquela época, dada essa predileção popular, Jorge aparecia nas pinturas representado como o soberano soldado que luta contra a força demoníaca do dragão.

No espaço da composição visual, Jorge estava sempre no centro do quadro, flagrado no ataque ao inimigo. Em torno dele, um espaço comprimido de imagens, dando a impressão de sufocamento, típica do medievalismo. Para o espírito da época, assolado com o pavor de ser arrastado para o inferno, Jorge formava a imagem do herói que ensina como vencer o mal, por isso ele deveria ser dominante na cena; ele é, assim como Cristo, o caminho terreno para a libertação e, enquanto essa libertação não chega, tudo ao redor será cárcere e sofrimento.

São Jorge combate o Dragão, Leonhard Beck, 1515

Na Renascença dos italianos Rafael e Tiziano ou dos alemães Lucas Cranach e Leonhard Beck, a imagem de Jorge transpira uma firmeza sem esforço. Nenhum desses artistas o representa como alguém que sofre ou hesita na ação. O guerreiro, na visão renascentista, guarda similaridades com o heroísmo grego, pois é preciso controlar as emoções no ato combativo. As imagens renascentistas de Jorge nos mostram um homem belo que executa a ação com precisão e justiça; é o dragão quem desequilibra e aterroriza a natureza e Jorge é o responsável por recuperar a serenidade e a racionalidade ameaçadas pelo mal.

No Barroco, ao contrário, a iconografia de Jorge está diretamente atrelada ao desequilíbrio. Não é simples e garboso lutar contra o mal, como parece aos renascentistas. Jorge está em risco na arte do belga Peter Paul Rubens. Seu cavalo se ergue imponente no centro do quadro, mas nos causa a sensação súbita de que a ação poderia dar errado; mas não dá. Avançando sobre o dragão, como se estivesse avançando sobre nós, a imagem de Jorge é representada na técnica michelangelesca do escorço, na qual o fundo do quadro recua e a imagem corporal das figuras se projeta para fora. Mesmo podendo falhar, Jorge acerta o alvo.

São Jorge combatendo o dragão, Eugène Delacroix, 1847

Rubens evoca a emoção dessa luta entre bem e mal. No Barroco, Jorge é patético; ou seja, comove. O flamejar revolto da capa do herói, da crina e do rabo do cavalo falam a linguagem das tempestades. Céu e terra querem a morte do mal. No Romantismo, isso também fica claro. Jorge protagoniza a luta de forças num cenário sombrio e brumoso. No sublime trabalho de Eugène Delacroix, as linhas de tensão estão presentes no quadro inteiro; o ambiente compactua com a missão heroica de Jorge, estão unidos no mesmo propósito de desmaterializar a opressão. Tudo move na batalha que leva o humano ao combate contra o desumano; e é o bravo Jorge quem deve vencer, altivo por cima da maldade, adornado por ouro, protegido pelas montanhas, como se vê no simbolismo de Gustave Moreau.

São Jorge e o Dragão, Gustave Moreau, 1880s

Entre os devotos não vimos apenas um, mas vários ângulos do mesmo herói. São Jorges que se multiplicam no imaginário do povo falando juntos uma complexa gramática: o Jorge cavaleiro racional e belo, o Jorge tempestuoso e aventureiro, o Jorge cintilante e divino.

2 COMENTÁRIOS

  1. Adorei o artigo. “No Barroco, Jorge é patético mas comove…”. Que sequência oracional artisticamente verdadeira: a Literatura exerce, também, esse papel. Ela comove o leitor. Texto muito bom, muito sensível.

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