Foto: Reprodução Internet

Algumas vezes em que estive na Lapa e me encaminhei para a escadaria Selarón, não pude evitar de pensar na divina canção do Led Zeppelin. Falo mesmo de “Stairway to heaven”. Sejam as que protagonizam os adros das igrejas, sejam as que adornam as fachadas de edifícios monumentais, figura algo bastante clichê associar escadarias públicas a esse clássico do rock. Clichês, no entanto, possuem o seu lugar cativo; eles comunicam mais rápido aquilo que queremos dizer e também facilitam conexões de pensamento. Há, enfim, espaço para tudo: clichês, escadarias, estrangeiros. Isso é o que entendemos por democracia – ou, pelo menos, deveríamos entender. No entanto, é sob tal pretexto, o de uma democratização dos espaços, que escolhi o tema desse artigo.



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Não foi preciso me deslocar a pé ou de ônibus. Uma canção, das mais belas e emblemáticas, fez todo o trabalho de transporte. “Stairway to heaven” me levou até a escadaria Selarón; mais precisamente dois trechos da canção foram responsáveis por isso, a saber: “e você sabia que sua escadaria se esconde no vento sussurrante? ”, “que emite uma luz branca e quer mostrar como tudo ainda vira ouro”. Ao pensar em todo o trabalho que o artista Jorge Selarón teve para adornar a escadaria que leva o seu nome; ao pensar que ele, segundo o parecer da importante revista National Geographic, realizou “a maior escultura do mundo feita por uma pessoa só”, não me resta alternativa senão reconhecer nele potências símiles às do rei Midas: transformar o vulgar em ouro.

Jorge Selarón, nasceu no Chile, na cidade de Limache, em 10 de janeiro de 1947. Na juventude, com 17 anos, decidiu assumir seu nomadismo e lançou-se ao mundo, viajando de carona por diversos países da Europa e da Ásia. Na época era jogador de tênis e sobreviveu em suas andanças dando aulas desse esporte. Até que aportou na década de 90, no Rio de Janeiro, cidade em que decidiu fixar residência. Na fase carioca de sua vida pôde dedicar-se à pintura, arte em que se sentia mais à vontade. Passou a ter uma obsessão temática em seus quadros: mulheres negras e grávidas. Logrou vender suas telas em restaurantes, enquanto ainda não havia despertado para a obra que o lançaria para o “paraíso”, quer dizer, que o tiraria do anonimato e o tornaria célebre.

Em 1990, Selarón se mudou para a Lapa. O péssimo estado de conservação da escadaria, em um momento histórico em que a Lapa era um território extremamente marginalizado e precarizado, levou Selarón a embelezar o local. Havia a necessidade estética de transformar a pedra em ouro. Se, na canção de Zeppelin, esse ouro emite luz branca, para Selarón a luz deveria ser multicolorida. Foi aí que passou a reformar pouco a pouco a escadaria, introduzindo azulejos pintados com as mais diversas estampas e em combinação de cores extravagantes que, entre os moradores mais conservadores, provocou riso e desconfiança. Quem era aquele estrangeiro que começava a intrometer novo sentido em 215 degraus de pedra que, até ali, possuíam apenas função urbana?

Depois de iniciada a primeira interferência no espaço público, introduzindo aleatoriamente azulejos e banheiras antigas (que serviam como canteiros de flores), Selarón partiu para uma etapa nova e mais ousada. Em 1994, por ocasião da Copa, os moradores da escadaria, que se situa na Rua Manoel Carneiro e que conecta a Ladeira de Santa Tereza à Rua Joaquim Silva – como é de costume no Brasil –, decoraram-na com a pintura verde-e-amarelo da bandeira nacional. Um desses moradores mantinha um atelier no local e resolveu contribuir com a decoração: era o “gringo”. Com o término do Mundial e com a conquista do tetracampeonato do Brasil, Selarón tirou proveito do colorido já desenhado pelos moradores e em cima deles inseriu cerâmicas e azulejos, respeitando o mesmo padrão. Nascia, então, a primeira parte da obra que ele próprio chamou de “A grande loucura”. A maior escultura feita por um homem só tomava corpo.

Durante mais de dez anos Selarón se ocupou da “grande loucura”: moldar uma velha escadaria, transformar um espaço público em arte gratuita e acessível a todos, sem nenhum amparo financeiro da prefeitura da cidade. Para um artista sem recursos, o azulejo, que é o material essencial da escadaria, chegava ao seu domínio através de generosas doações de brasileiros e de estrangeiros que visitavam o local, admiravam o empreendimento e testemunhavam o processo de trabalho em um atelier a céu aberto.

Em termos estéticos, Selarón apresenta na escadaria a herança marcante de sua hispanidade. Não nos é custoso traçar paralelos entre o trabalho que ele executava diária e incansavelmente e os hermosos adornos do Parque Guell, esculpido pelo catalão António Gaudí. Separam-se Gaudí e Selarón apenas no espaço de décadas e de países. Em ambos, todavia, se encontra a igual presença do colorismo hispânico produzido, não pelo pincel e pela tinta, mas pelo arranjo diversificado de peças embutidas em superfícies de pedra. Gaudí era o artista musivo da ensolarada Barcelona; já Selarón era o musivo da Lapa, de um bairro banhado pelo tom opaco da urbanidade marginal.

O mosaico de Selarón não seduz pela sinuosidade, mesmo porque o projeto da escadaria não foi seu. Selarón foi, além de pintor e ceramista, um interventor. Empregou na escadaria um selo, um sentido que não havia antes; ele não se adaptou à escada, mas se intrometeu no meio dela, apossando-se de sua forma radicalmente linear e insípida do ponto de vista artístico. Nenhum atrativo lhe incorporava antes. Foi Selarón quem selou a beleza no bairro da Lapa, trazendo uma luz exaltada para o coração da cidade.

Ao intervir no espaço público, Selarón recriou um território. Já não se pisa mais na Lapa sem se contaminar com a escadaria. Também pudera! Quando estamos nela, a bela visão de conjunto nos mostra um espaço dividido em dois grupos poderosos de cor: enquanto os degraus alternam-se no quente-frio de cerâmicas amarelo-e-verde, sempre compostos por intervalos de azulejos, a lateral da escada, ou seja, sua moldura, é inteiramente pintada por cerâmicas vermelhas que moderam o contraste quente-frio. O contraste se faz de imediato, mas sem que harmonia se perca e cause confusão mental; e assim é possível se entregar ao duplo desafio de ter que contemplar um espaço que, por regra de projeto, nos conduz apenas a transitar e a esquecer que arte e utilidade, que cidade e beleza, que forma e função podem, sim, serem hermanas, como Selarón foi hermano de todos nós brasileiros, imensamente gratos por sua loucura.

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