Coronavirus

Em “A queda do céu: palavras de um xamã yanomami”, o pensador e ativista político Davi Kopenawa, com sua vivência própria dos povos da Floresta Amazônica e de sua “trajetória existencial”, busca explicar a partir da mitologia e da metafísica próprias da cosmovisão e da cultura ancestral dos povos indígenas, como, em pleno século XXI, estamos vivenciando uma verdadeira “guerra de mundos”: neste momento histórico, em que a sobrevivência da humanidade encontra-se ameaçada, desta vez, pela pandemia do Coronavírus.



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No contexto das culturas milenares e ancestralidades dos povos originários, não é a primeira vez que o “céu ameaça desabar” sobre todos nós!

O que significa dizer que a partir da cosmovisão indígena, há necessidade de uma radical, profunda e urgente mudança em nossa atual rota civilizatória comum, e em especial no sistema político-econômico dominante atualmente na escala global.

Outros sintomas visíveis de que vivenciamos uma convergência de crises ambiental, hídrica e sanitária, são: as cada vez mais intensas tempestades, inundações, desertificação do solo que já afeta a produção de 25% do volume total de alimentos produzidos do planeta e incêndios florestais incontroláveis que tem se intensificado pelas fortes variações climáticas afetando inclusive países ricos da Europa e EUA.

A estes cenários de destruição, se somam a barbárie social presente em diversas cidades do mundo: apesar das elites econômicas (formadas pelos chamados “super ricos” e o sistema financeiro internacional) e seus sócios donos do poder político, continuarem a  naturalizar o aprofundamento das desigualdades e a exclusão social, assim como a desigualdade hídrica, que afetam cada vez mais as populações mais pobres em diversas cidades do mundo.

Assim como, as grandes corporações multinacionais, com a ganância desenfreada que as caracterizam, avançam de forma acelerada com seus processos produtivos que provocam intensa destruição ambiental, com o único objetivo de expandir sua lucratividade financeira ao custo da ampliação exponencial de sua dívida ecológica que historicamente tem afetado os países da periferia global.

Ou seja: num contexto de globalização financeira, neste jogo de interesses político-econômicos, as revoltas populares pelo reconhecimento de direitos ambientais, em geral são contidas com violência por forças militares, como tem ocorrido desde os anos 1990 nas “Guerras da Água” em países da América Latina. Neste sentido, a manutenção e perpetuação da insustentabilidade do establishment dominante, tem se dado pela subjugação das nações em ‘sub-desenvolvimento’ e ‘em desenvolvimento’, como o Brasil e nosso vizinhos latino-americanos e do continente africano, que juntos são os que tem pago esta conta caríssima e salgada por meio do sacrifício dos seus bens ambientais e da super exploração dos seus povos.

Num período marcado por uma crise das crises, é necessário que no porvir – que no dicionário significa literalmente “o tempo que está por vir, por acontecer; o futuro” – possamos como coletividade passar a optar por novas atitudes e escolhas que nos levem ao abandono definitivo de arraigados valores do mundo Colonial, com sua superação pelo direito ao Bem Viver: enfim, uma sociedade em que a humanidade independente da sua renda e origem, as plantas, o solo, as águas, as florestas, os mares e os animais e os demais seres vivos sejam portadores de direitos fundamentais, os chamados “Direitos da Natureza” já reconhecido até mesmo em algumas Constituições Nacionais de países vizinhos.

Afinal, apesar dos incontestáveis avanços tecnológicos e dos meios de comunicação, ainda somos prisioneiros e, pior: ainda hoje, continuamos no cotidiano a reproduzir modos de vida e a manter modelos (ditos) de desenvolvimento extremamente predatórios e poluentes. Isso vem ocorrendo, de forma profundamente irresponsável, no mínimo, desde o século passado, o que tem se mostrado bastante insustentável e nocivo tanto à saúde humana, quanto ao meio ambiente e tem resultado na ameaça extinguir inúmeras formas de vida e de sociedades autóctones, como os povos indígenas, como se fossemos verdadeiros exterminadores do futuro!

A destruição das florestas por desmatamentos e queimadas como temos visto na Amazônia, no Cerrado e na Caatinga (uma vez que a nossa Mata Atlântica já foi reduzida a apenas 8% de  sua extensão original); a contaminação dos rios e oceanos (onde em muitos ambientes marinhos já existem mais embalagens plásticas, do que peixes!); o aumento da poluição do ar em nossas cidades onde, basicamente, as pessoas se deslocam através de meios de transportes movidos por petróleo (hidrocarbonetos); o envenenamento das águas, solos e alimentos por agrotóxicos; a predatória expansão ilimitada do agronegócio e das monoculturas com seus pacotes tecnológicos à base de venenos químicos (agrotóxicos) sobre os ecossistemas e biomas que contaminam os mananciais e camponeses(as); as “máquinas devoradoras de minérios” retirados de forma gananciosa e com alto risco de provocar novos desastres ambientais (inclusive nas águas profundas dos oceanos); a extinção de inúmeras espécies animais e vegetais que compõem a nossa rica e diversificada biodiversidade; são alguns dos malefícios visíveis de políticas de extermínio e de genocídio em curso. O ecocídio do planeta segue sua marcha acelerada ao caos. Até quando!?

A densa obra de Kopenawa, com belo prefácio de Eduardo Viveiro de Castro, antropólogo e professor do Museu Nacional (UFRJ), nos faz refletir – e deveria também nos levar a começar a agir imediatamente a partir de agora, enquanto (talvez) ainda haja tempo! -, sobre que tipo de Sociedade e de Economia na atualidade tão apartada e distanciada, em especial nos últimos séculos de hegemonia do produtivismo capitalista cujo resultado tem sido um “progresso destrutivo”. Em que, em síntese, ainda tem prevalecido a alienação e o estranhamento na “construção” de nossa relação coletiva com a Natureza – como se o ser humano já não fosse parte dela!

Este cenário preocupante, têm comprometido a garantia da Salvaguarda à Vida da nossa e, principalmente, das futuras gerações: já que ambas estão em perigo, neste momento em que, para a grande maioria o que (ainda) tem valor são a ganância desmedida por lucros, o individualismo e o fetiche do consumismo sem limites que, em conjunto, tem contribuído para devorar e destruir de forma acelerada o Planeta Terra.

A pandemia Coronavírus nos lança um desafio a todos: seremos “capazes de espantar as ‘fumaças de pandemias’ que nos devoram”!?

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