Sinos, esmeraldas e carne-seca

Da série de artigos, reportagens e entrevistas que a Folha de São Paulo fez em 26 de novembro de 2007 sobre os 200 anos da vinda da Família Real de Portugal para o Brasil. Acompanhe o índice aqui.

Originalmente publicado aqui.

Sinos, esmeraldas e carne-seca

Dia-a-dia na nova capital do império se modificou radicalmente, combinando arcaísmo e transformação nos espaços público e privado

MARY DEL PRIORE
ESPECIAL PARA A FOLHA

Mil oitocentos e oito, no Terreiro do Paço. Às 5h da manhã, um tiro vindo da ilha das Cobras estremece as janelas. A corneta da guarda municipal soa a alvorada. Badalos parecem querer acordar os mortos. Rangem as correntes dos presos que passam a buscar água. Vendilhões já estão a tagarelar. Uma música celestial ou infernal marca o ritmo da cidade. Por cima de tudo, o som contínuo dos sinos lembra que é a igreja quem controla o tempo.

Às 6h soa o ângelus. Às 12h se anuncia que o demônio anda à solta, melhor rezar. Às 18h são as ave-marias nas esquinas, em frente aos oratórios. Tantos toques indicam um enterro, outros tantos, um nascimento.

Ao peditório em altos brados dos mendigos se junta aquele dos irmãos de confrarias, com bandejas de esmolas e imagens de santos, numa cacofonia sem fim. Um horário rígido marca o dia-a-dia dos ambulantes. As vendedoras de café saem às ruas cedo. As de pão-de-ló circulam até o almoço.

Ao longo da praia, um mercado informal oferece de tremoço a bananas e lenha. É comum comer fora de hora. O prato mais solicitado é a carne-seca preparada com feijão e farinha em braseiros a céu aberto. Nas ruas, negros, escravos e livres circulam e se misturam no labirinto da cidade. Capoeiras cruzam a Candelária, exibindo-se num jogo atlético. Carregadores e mulheres ambulantes transportam sua mercadoria na cabeça: frutas, animais vivos, pacotes, água potável, roupas sujas e limpas, tigres com excrementos.

Pluralidade

Não é uma massa uniforme, essa que oferece serviços. Os indivíduos se identificam pelas escarificações no corpo ou na face, cuidadosos penteados, panos-da-costa, amuletos, jóias ou chinelas.

As negras de ganho [que trabalhavam e que repassavam seus ganhos aos donos], com seus xales azuis, trazem sobre si objetos de cunho propiciatório, buscando proteção e lucro. Dispostos na cintura por argolas ou tiras de couro, são bolas de louça, figas, dentes de animais e também medalhinhas, crucifixos e outros símbolos.

As diferentes nações formam fronteiras não visíveis aos olhos de europeus e se organizam por meio de irmandades religiosas, pontos de encontro, os cantos e os zungus, onde não faltam tensões e violências entre seus membros.

Nas chamadas "casas de pasto", o movimento é intenso: empregados servem limonadas, vinho verde português, clarets ingleses. Cervejas suecas afogam, docemente, o hábito do consumo de licor de caju e cachaça.

Pouco civilizado se considera o costume de comer com as mãos: "Primeiro tomam entre os dedos um pouco de carne. Mergulham isto no molho, esmagam o conjunto na palma da mão, fazendo um bolo, o qual levam imediatamente à boca, preparando outro enquanto comem", conta um viajante.

Depois da chegada da corte, talheres entram nos lares, seguidos de vários artigos de cutelaria vindos do Reino Unido: facas de cozinha e açougue, navalhas finas para fazer a barba "à gentleman", tesouras para costura e jardim.

Produtos importados ganham as prateleiras das lojas: água de Cologne, vinagres para toucador e para mesa, luvas, suspensórios, sabão, leques de toda sorte, escovas e pentes, sapatos e chinelas de seda e marroquim, botas de Paris, velas e azeite clarificado para lustres, chapéus de palha, castor e seda, penachos, fitas, filós, flores artificiais, mesas e espelhos de toucador, bijuterias, relógios de repetição, livros franceses. Palavras estrangeiras passam a rechear o vocabulário: "maître tailleur", "maître coiffeur".

Seios expostos

Nos sobrados, sinhazinhas e iaiás, cobertas com um timão, confortável camisolão branco, se ocupam nas atividades domésticas. Os cabelos, mal penteados ou "en papilottes", segundo a inglesa Maria Graham, dão impressão de desmazelo. Pior, a tal camisola deixa expostos os seios.

E fulmina: "Não vi hoje uma só mulher toleravelmente bela"! O contraste entre a simplicidade da indumentária e o luxo das jóias é corrente. Sem elas, as mulheres não saem aos domingos, para se confessar e ir à igreja. Portam anéis, colares, brincos e braceletes ricamente trabalhados, tesouro que tanto é presente do marido, quanto parte do dote de casamento.

A novidade chega com a exibição nas reuniões da corte. Aí brilham esmeraldas, crisólitas, diamantes, plumas, além de vestidos bordados a ouro e prata que, ousadamente decotados, à francesa, enchem a platéia do teatro São João ou do palácio.

No interior da casa, destacam-se o piano Broadwood, pisos forrados com tecido estampado francês, paredes cheias de gravuras inglesas e pinturas chinesas. "Numa ponta da sala", conta Graham, "uma mesa comprida, coberta com uma caixa de vidro, na qual havia uma peça religiosa de cera; um presépio com anjos, três reis magos e flores artificiais".

Do teto pendem gaiolas de pássaros. A modernidade do instrumento convive com o canto do curió.

No privado ou no público, o cotidiano se transformou depois da chegada da família real ao Brasil. Ele se tornou o ponto de encontro entre arcaísmo e tradição, ruptura e transformação. E em 2008, a efeméride fará mudar alguma coisa?


MARY DEL PRIORE é historiadora, autora de "O Príncipe Maldito" (ed. Objetiva).