Siri: Por que devemos discutir a matriz energética do país?

Para William Siri, crise hídrica e maior exploração do carvão tornam o debate sobre o tema ainda mais urgente - e isso tem tudo a ver com as eleições

Foto de Pok Rie no Pexels

Você percebe que tem algo de errado na política quando vê a conta de luz aumentando todo mês, mesmo fazendo tudo que manda o protocolo: desliga tudo da tomada, economiza no banho, reduz o consumo. Mas, no fim, o valor só aumenta. É em casa que a gente começa a entender o que está acontecendo no Brasil.

Não há país desenvolvido e soberano sem autonomia energética. Quando o país em questão é o Brasil, de dimensões continentais e perspectivas tão diferentes para cada uma das regiões, a urgência do tema se torna mais evidente. Estamos falando de algo que vai muito além do que ter energia à disposição. Discutir matriz energética, ou seja, o conjunto de fontes de produção da nossa energia, é entender que estamos num momento crucial: caso não façamos nada, esta década pode ser o “ponto de não-retorno” para a humanidade. O nosso desenvolvimento econômico precisa ter uma perspectiva sustentável ou corremos o risco de não garantir um futuro digno para as futuras gerações – além das atuais, que também serão afetadas. Precisamos de uma Política de Estado planejada a longo prazo que sobreviva a quem estiver no poder. Nomes são transitórios, política de estado, não. 

Toda fonte energética tem seus prós e contras. Apesar da profusão de rios que possibilitaram mais hidrelétricas em nosso país nas últimas décadas, elas demandam o alagamento de grandes áreas, modificam o curso dos rios e afetam a biodiversidade de várias espécies vegetais e animais. Isso sem falar do enorme impacto na vida das populações ribeirinhas e indígenas.

Na minha geração, ainda na escola, muito se falava sobre a eficiência e caráter de energia limpa das hidrelétricas, modelo predominante de produção de energia elétrica no Brasil. Hoje, o entendimento é bem diferente. Como vimos nas crises hídricas dos últimos anos, o país pode ficar dependente de outras fontes mais poluentes como as usinas termelétricas. De alto custo para o sistema elétrico e baseada em combustíveis fósseis para a sua produção (queima de diesel e carvão), elas aumentam significativamente a poluição atmosférica.

A criação da “bandeira de escassez hídrica” banca o aumento de custo de produção com um valor de R$ 14,20 a cada 100 quilowatts utilizados em cada residência. Mas essa realidade não é péssima apenas para o bolso dos cidadãos, é ruim também para o setor produtivo. As indústrias acabam repassando a elevação de custos com preços mais altos, gerando uma reação em cadeia. Precisamos diversificar nossa matriz de forma sustentável, com baixa emissão de poluentes.

Se nada for feito pela perspectiva ambiental, crises hídricas serão ainda mais recorrentes. Por isso, não basta ter a resiliência como um norte: precisamos fazer diferente desde já.

Infelizmente, não é o que o Governo Federal sinaliza. Afinal, Bolsonaro sancionou o PL 712/2019, lei que estende para 2040 a operação do Complexo Termelétrico Jorge Lacerda (CTJL). Baseada na forte produção de energia a partir do carvão no estado de Santa Catarina, isso significa colocar o Brasil na dependência da energia mais poluente que temos por ainda mais tempo! 

Como Presidente da Comissão de Trabalho e Emprego na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, compreendo que as condições de empregabilidade de um ofício tão específico não podem ser modificadas da noite para o dia. Mas não dá para deixar o tempo passar.

É preciso vontade política para promover a requalificação dos profissionais que trabalham nas carvoarias e de toda a região beneficiada, aplicando de maneira realmente justa e democrática o Programa Transição Energética Justa (TEJ). Garantir que não haja a dependência de uma única matriz produtiva para a geração de empregos é fundamental. Esse entendimento também vale para a cidade e o estado do Rio de Janeiro, já nos referindo à cadeia petrolífera. Precisamos agir agora com políticas públicas de implantação de empregos verdes. Mudar datas e postergar o problema não vai fazer com que ele desapareça.

Não esperávamos uma postura diferente de Jair Bolsonaro, que desprestigia os compromissos de redução de emissões de gases do efeito estufa e joga contra a agenda climática desde antes de ser candidato à Presidência da República. Ainda assim, é hora dos governos agirem em torno da pauta.

Temos alternativas? Temos!

O Brasil é um país, como diz o poeta, “abençoado por Deus e bonito por natureza”. Modelos de produção de energia mais sustentáveis, como a energia eólica e a solar, encontram enorme potencial em nossas terras. 

Precisamos que as eleições deste ano promovam a discussão política sobre programas estruturais abordando o debate sobre matriz energética, sem se deixar abater pelas fake news no diálogo com a sociedade. Que seja possível estar lado a lado da população trabalhadora, sem esquecer do tema que deve nortear a humanidade. Nossa saúde, nosso bolso e nosso futuro saudável dependem disso.

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1 COMENTÁRIO

  1. Sr. Siri, o seu discurso é bonito mas fica só nisso.

    1) Hidroelétricas: houve muito investimento, mas ambientalistas embargaram que fossem feitas com reservatórios. Quando ouvimos no jornal que reservatórios estão vazios leia-se que esses são reservatórios de usinas feitas no tempo que vovó era virgem. Hoje é impossível fazer uma com reservatório. Fazem “a fio d’água”, ou seja, se o rio tem vazão, ela gera. Quando há seca, ela desliga. As hidroelétricas assim deixaram de ser reguladoras de fluxo das águas, deixaram de ser banco de poupança. Serve pra quê uma hidroelétrica assim? De pouca coisa, porque não dá segurança! Belo Monte é um colosso, mais de 30 turbinas: só 1 estava funcionando esses dias.

    2) Eólicas e Solares: Nada contra elas, mas tem que ter em questão que os painéis solares são extremamente poluentes na sua confecção. Além disso, eles decaem a capacidade geradora com o tempo. O descarte das pás de eólicas é um problema ainda não resolvido, sobrando vários refugos no meio-ambiente. São matrizes energéticas inseguras no sentido de não dar pra confiar no sol e no vento toda hora – não geram constantemente igual. E por isso um país não pode se segurar nelas pra montar o grosso da matriz energética. Cata-vento é bonito pra ver de longe, mas de perto faz som chato e atrapalha passarinho também. São consideravelmente caras ainda em relação às fontes tradicionais. A Alemanha hoje está passando um aperto pela baixa geração eólica e solar e caiu nas mãos do Putin – mendigando gás natural.

    3) Fóssil: Embora sejam antipáticas no dia de hoje, é o que ainda traz segurança energética quando não se pode fazer hidroelétrica com reservatório! Não tem pra onde fugir. É uma ironia do destino, até. O Brasil tinha em 2000 algo como 90% da matriz energética limpa, vinda das águas: daí os ambientalistas que evitaram todas as represas fizeram sujar a matriz energética brasileira porque precisamos de uma fonte segura e constante de geração. Sem grana para por usinas nucleares, fomos de gás natural, carvão e óleo. É uma consequência não programada da interdição dos reservatórios. E isso poucos têm peito de dizer publicamente.

    4) Nuclear: A energia constante e limpa que esta fonte poderia nos dar, a Constituição Cidadã de 1988 interditou somente à União: nenhuma empresa privada pode construir. Então, essa fonte não cresce, porque o Governo Federal nunca tem dinheiro para por à frente os projetos de expansão. Mas ESTA sim é uma energia limpa, segura e constante do futuro!

    A plataforma de ESG que está virando moda hoje em dia encontrou graves problemas na transição energética que se quer fazer à força – contra a vontade e o interesse público: virou religião. O passo a ser dado é mais lento, tem que ser mais debatido. E esquece, o futuro não vai ser feito majoritariamente de cata-ventos não.

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