Vendedores na feira orgânica do Centro, uma das 22 da cidade a oferecer produtos sem agrotóxicos – Foto: reprodução/Facebook

Uma imagem não saía da minha cabeça: centenas de pessoas aglomeradas durante a pandemia à espera de ossos e restos de carne doados por um caminhão para complementar sua alimentação. Essa semana apareceu nas redes sociais mais uma cena chocante: famílias buscando seus alimentos em um caminhão de lixo. As imagens rodaram o mundo e não podem sair das nossas  reflexões e ações. No nosso Brasil profundo, 19 milhões de pessoas enfrentam fome hoje.

Esse não é um problema que surgiu na pandemia. Os dados da Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional mostram que, entre 2018 e 2019, aumentamos em mais de 10 milhões o número de brasileiros em situação de fome. Se considerarmos todos os que tiveram que restringir sua alimentação em algum grau (insegurança alimentar), o número se multiplica para preocupantes 116,8 milhões. A pesquisa “Efeitos da pandemia na alimentação e na situação da segurança alimentar no Brasil” revelou que 44% dos brasileiros reduziram o consumo de carnes e 41% o consumo de frutas durante a pandemia. Está cada vez mais difícil se alimentar de forma segura e saudável. 

Recentemente foi celebrada a semana mundial da alimentação, mas a verdade é que não temos motivos para comemorar. Já falamos por aqui sobre o impacto da inflação no aumento dos preços, principalmente dos alimentos. Confira aqui. Quando é possível comprar arroz e feijão, falta o gás para cozinhar. Por isso, políticas como a dos restaurantes populares são tão importantes para uma grande parcela da população carioca. 

No município do Rio de Janeiro já tivemos oito restaurantes populares, mas hoje apenas três deles sobrevivem na Zona Oeste e Zona Norte da cidade, fruto da retomada pelo município de uma política antes estadual. São pessoas em situação de rua em busca de comida. Famílias inteiras que encontram nos bairros de Campo Grande, Bangu e Bonsucesso um restaurante para realizar até 2 refeições diárias, com diversidade de alimentos, saborosos e nutritivos, a um preço acessível. 

Há poucos dias, realizei junto a companheiros do PSOL uma visita ao restaurante popular em Campo Grande e pude constatar a grande diferença que estes espaços fazem na vida das pessoas. É urgente que a Prefeitura realize a reforma e a retomada dos demais equipamentos fechados pelo governo do Estado. Em 2020 a Câmara aprovou orçamento de R$ 4,2 milhões de reais para essa reabertura, mas até hoje nenhuma ação saiu do papel. Infelizmente, a única coisa que aconteceu foi um corte de 2,2 milhões do orçamento dos restaurantes existentes, representando a redução de cerca de meio milhão de refeições. Isso é inaceitável. 

Outra política relevante para a alimentação saudável do carioca são as de fortalecimento da agricultura urbana, familiar e orgânica. Enquanto em todo o mundo são estimuladas a produção de alimentos frescos e a ampliação da cadeia de consumo, na cidade do Rio os agricultores não possuem ações efetivas para seu fortalecimento. A legislação que obriga as escolas municipais a comprarem 30% da merenda escolar dos agricultores locais, não tem sido praticada. 

 Sem o cumprimento dessa política tão relevante para a geração de renda desses agricultores, muitos encontram nos circuitos de feiras orgânicas o principal caminho para fornecer alimentos acessíveis e saudáveis à população. Porém, esse grupo não tem nenhum apoio da Prefeitura. Dá para acreditar que as 22 feiras do circuito estão sob a responsabilidade da Secretaria de Ordem Pública? Estes agricultores e feirantes, que deveriam ser vistos como um grupo potente para ampliar a qualidade de vida, a geração de trabalho e renda e fortalecer o uso do espaço público, hoje estão limitados a uma política de ordem urbana. Na Câmara de Vereadores, está em votação o PL 1854/2020 do ex-vereador Renato Cinco, desarquivado pelo nosso mandato, que busca garantir segurança institucional para o circuito carioca de feiras orgânicas, permitindo o fortalecimento deste como uma importante política pública de agroecologia.

Este é um artigo de Opinião e não reflete, necessariamente, a opinião do DIÁRIO DO RIO.

Vereador do Rio, economista e morador da Zona Oeste. É um dos criadores do coletivo Tudonumacoisasó, que já realizou mais de 10 projetos sociais na cidade e um dos fundadores do Movimento Inter-religioso da Zona Oeste (Mirzo).

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