enem

Com a proximidade do ENEM, é fundamental que toquemos em alguns aspectos relativos à redação, prova que, sem dúvida, pode ser o diferencial da conquista de uma vaga naquele tão sonhado curso, daquela tão sonhada Universidade.

Nesta coluna, eu trouxe algumas dicas básicas. Retirei algumas delas de dois livros meus: Caminhos do texto e Desafios da redação.

Nas próximas colunas, traremos outras dicas importantes para quem quer se desenvolver na produção de variados gêneros textuais.

Reitero que estamos à disposição para sanar eventuais dúvidas com a equipe do CEFIL – Centro Filológico Clóvis Monteiro, da UERJ, de cuja Consultoria Linguístico-Gramatical sou coordenador. O e-mail é cefiluerj@gmail.com.

Desejo a todos excelente prova!

ESCREVER E INTERPRETAR: ARTE E TÉCNICA; CONTEÚDO E ESTRUTURA

“A palavra é metade de quem fala e metade de quem ouve” (Michel de Montaigne)

A realização de um texto, esteja você na situação de leitor, esteja na do próprio produtor, pressupõe dois esforços distintos e imprescindíveis: num primeiro instante, há que se buscar a captação de um universo de ideias (impressões) oriundas da apreensão suscitada pela sensibilidade do homem; por fim, é necessário que esse universo seja materializado por meio das palavras (expressão) que advêm da capacidade pragmática do homem.

Para que tal realização ocorra, pois, é fundamental que se adquiram as técnicas imprescindíveis à consecução de ambas as vertentes da escrita sobre as quais se falou acima – uma dicotomia. Quer por meio de leitura sistemática, quer por intermédio de um desenvolvimento paulatino da sensibilidade, hão de ser procurados os meios de solidificação daquilo que – a priori – pareceria insólito. Na verdade, o fato é que interpretar/entender um texto e produzi-lo são “duas faces da mesma moeda”, como diz o ditado popular. Só interpretará bem um texto a pessoa que for capaz de produzir bons textos. Por outro lado, só produzirá bons textos a pessoa que for capaz de compreendê-los com bastante acuidade.

E nós, seres humanos, dispomos, sem dúvida, da capacidade ou da faculdade de produzir e de interpretar qualquer código que venha por meio da linguagem, inclusive o texto, seja ele oral, seja ele escrito. Aqueles que não conseguiram essa “façanha” certamente não o conseguiram – ainda – porque não tiveram o treinamento necessário a ela.

As palavras de Descartes, em seu Discurso sobre o método, elucidam um pouco o que dizemos:

“É verdadeiramente notável a inexistência de homens tão estúpidos e tão embrutecidos, sem mesmo excetuar os loucos, que não sejam capazes de reunir várias palavras ao mesmo tempo e de compor, com elas, um discurso pelo qual façam compreender seus pensamentos.”

(René Descartes, Discurso sobre o método, grifamos)

Tudo isso está inequivocamente inserido no domínio expressivo que se venha a ter da palavra, da sintaxe, da gramática, porquanto ferramentas básicas de que o homem dispõe para transmitir satisfatoriamente suas ideias a outros homens. E, além disso, ferramentas indispensáveis, igualmente, para que um ser humano compreenda as ideias transmitidas por outro ser humano. Sem um código comum (é de domínio de toda a gente), não haveria compreensão mútua e a comunicação, portanto, seria fatalmente prejudicada. Ou melhor: prejudicada fatalmente…

Partindo-se do pressuposto de que a arregimentação de vocabulário, de variações na expressão, de sintaxe clara e objetiva, de gramaticalidade expressiva suficiente vêm, sempre, de fora para dentro (desde de que se nasce, desenvolvem-se essas faculdades ininterruptamente), por fim, chegar-se-ia à conclusão de que a leitura é o meio mais eficaz, o mais rápido de se adquirirem esses caminhos de interpretação e de produção de textos.

É exatamente por essa razão que havemos por bem não separar nunca a INTERPRETAÇÃO/INTELECÇÃO da PRODUÇÃO de textos, uma vez que, como dissemos e repetimos, ambas andam de mãos dadas, e quem desenvolve uma desenvolverá a outra naturalmente. E mais: uma necessita da outra para (co)existir.

“Todos os escritores, ou pelo menos os grandes, manifestam-se favoravelmente à leitura como base de toda criação textual. Ler, ler bem, ler sempre para solidificar o estilo, ampliar o conhecimento, transformar o modo de pensar, alterar ideias. A leitura é também importante porque favorece a variação de expressão, a fuga de expressão monótona, o derrubar dos obstáculos da imaginação. Não se recomenda, aqui, grande quantidade de leitura, mas a qualidade dela, ou seja, aquela que auxilia na recriação do mundo.” (João Bosco Medeiros,Redação Empresarial)

Não se poderia veementemente exprimir todo o universo a que se propôs – seria utópico. Bom texto é aquele cujo autor tenha conseguido:

1) Captar nuanças, matizes, meandros do mundo que o cerca de forma subjetiva (PLANO DO CONTEÚDO);

2) Transmiti-lo – esse mundo captado – às letras ou à oralidade, respeitando as suas limitações intrínsecas, de forma objetiva (PLANO DA EXPRESSÃO).

Para isso, é preciso que haja uma seleção de conteúdos que serão expressos, a não ser que se queira escrever, obviamente, um texto literário muito extenso (como um Romance), em que os limites de escolha são de inteira arbitragem do autor. Um romance pode ter 100, 200, 500, 1000 páginas… Mas este livro não é, a rigor, sobre a escrita desse cabedal: ficaremos na interpretação e produção de textos menores, dissertativos e não-dissertativos (literários, narrativos, etc.). Então, é de extrema importância a seleção de ideias para que o texto não se torne prolixo e demasiadamente informativo, o que são defeitos de uma dissertação-argumentativa, por exemplo.

“Os pintores, não podendo representar igualmente bem numa tela plana todas as diferentes faces de um corpo sólido, escolhem uma das principais, como aquela que unicamente deve estar voltada para a luz, sombreando as demais e deixando-as surgir apenas na medida em que possam ser vistas.” (René Descartes, Discurso sobre o método)

Isto é: devemos sorver o tudo que nos cerca da forma mais contundente possível; não conseguiremos – entretanto – transmitir esse “tudo” de forma total às palavras. É preciso conhecer os limites. Interpretar e produzir textos é, em muitos casos, exatamente ver até onde esses limites irão. E é, por fim, conhecer a capacidade que os textos têm de esconder elementos em suas entrelinhas, elementos que o bom intérprete/escritor deve dominar cada vez melhor e melhor e melhor…

ALGUMAS NOÇÕES BÁSICAS PARA UMA EXCELENTE REDAÇÃO

“Qualquer um de nós, senhor de um assunto, é, em princípio, capaz de escrever sobre ele. Não há um jeito especial para a redação, ao contrário do que muita gente pensa. Há apenas uma falta de preparação inicial, que o esforço e a prática vencem.”

(J. Mattoso Câmara Jr., Manual de expressão oral e escrita)

Não há, de fato, uma ‘fórmula’ capaz de estabelecer todos os critérios pertinentes a uma boa redação.

Entretanto, alguns conselhos são válidos e serão alvo de nosso curso. Ei-los:

1) Evite dar opiniões muito extremistas em relação a algo: saiba que o examinador estará mais preocupado com a sua capacidade técnica de redigir e defender sua posição do que propriamente com suas opiniões.

2) Leia jornais, livros e revistas: além de lhe permitirem um embasamento de opiniões, são capazes de desenvolver a sua criatividade e aumentar o seu vocabulário, o que lhe será imprescindível.

3) Procure estar sempre ajustado à norma-padrão, evitando gírias, estrangeirismos, frases feitas e clichês.

4) Atenção à precisão vocabular: uma palavra é única e insubstituível; cada uma possui um significado totalmente próprio (garota ? menina ? mulher ? senhora.

5) Seja o mais claro e objetivo possível: a redação dissertativa não está centrada no manejo artístico da língua. Evite ordens inversas.

6) Seus parágrafos terão de três a cinco períodos.

7) Palavras não devem ser repetidas, a menos que isso venha como recurso expressivo. Use sinônimos, hiperônimos, hipônimos etc., sempre tendo observado o item 4 acima.

Há, além dos aspectos acima mencionados, alguns outros que se devem levar em conta, e que serão considerados pelo examinador.

1) ASPECTO ESTÉTICO:

  • Legibilidade da letra
  • Paragrafação
  • Margens regulares
  • Ausência de rasuras

2) ASPECTO GRAMATICAL:

  • Ortografia
  • Acentuação
  • Concordância verbal / nominal
  • Regência verbal / nominal
  • Pontuação
  • Colocação pronominal

3) ASPECTO ESTILÍSTICO:

  • Evite repetição de palavras
  • Evite frases e parágrafos muito longos
  • Evite emprego de termos desnecessários
  • Cuidado com o uso inadequado do pronome “onde” e dos relativos com regência infringida
  • Cuidado com o uso de adjetivos inexpressivos (de significação muito ampla)
  • Cuidado com a presença de conectivos da língua falada
  • Evite prolixidade (falar ou escrever demais)
  • Evite ambiguidade
  • Não seja incoerente com sua tese
  • Cuidado com a repetitividade de vocábulos e/ou de ideias

4) ASPECTO ESTRUTURAL:

  • Presença de um conflito básico (tese), advindo de um tema (ideia central)
  • Sequência lógico-temporal
  • Sequência (concatenação) entre as ideias
  • Presença de argumentos pertinentes à ideia central (coerência com o tema básico e com a sua tese)
  • Descrição objetiva, expressiva e equilibrada
  • Criação de suspense
  • Coesão
  • Cuidado com a introdução clichê (negativo) e uso de frases feitas
  • Cuidado com o desfecho clichê (negativo)
  • Presença de uma conclusão remetendo a toda a redação e demonstrando que sua tese é defensável.
PhD em Língua Portuguesa pela UERJ. É professor adjunto de língua portuguesa e filologia românica da UERJ e author and content developer da California State University. Tradutor de inglês, francês, alemão, espanhol, italiano, latim e grego, pesquisador das filologias russa e mandarim. Escritor com mais de 40 livros publicados e premiados no Brasil e no mundo. Membro efetivo da Academia Brasileira de Filologia, do PEN Club Rio-Londres, da Académie des Arts, Sciences et Lettres de Paris e da Academía de Letras y Artes de Chile. Em 2011, recebeu a Comenda e a Médaille de Vermeil do Governo francês.

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