Foto: (Christophe Simon/AFP/)

“Chegamos em uma área mais isolada do Jardim Gramacho, umas casas de madeira, já perto do mangue, no meio do chorume, e nessa casa estava uma senhora, com três filhos, fazendo comida. Em uma panela tinha arroz. Quando fomos ver o que tinha na outra panela, havia uma ratazana enorme sendo escaldada. Para nós, o que pareceu ser uma cena assustadora, para ela era uma rotina de complemento de alimentos. Perguntamos se ela iria comer aquilo. Ela disse: “Claro”, na maior naturalidade. Nós ficamos, evidentemente, assustadíssimos com aquela imagem e fomos comprar um quilo de carne para ela e os filhos comerem. Ela agradeceu, mas disse que iria congelar o rato para comer outro dia, pois sabia que a carne comprada por nós iria acabar e ela não ia ter mais”, o relato foi feito por Marroni Alves, professor de um pré-vestibular comunitário na região. Ele presenciou a situação em uma das ações das quais participa para tentar atenuar a miséria local. Miséria esta cada vez mais frequente, real e maior.

A história contada por Marroni, que também escreve para o DIÁRIO DO RIOe acompanhou a reportagem do jornal pelas ruas da Baixada Fluminense durante a apuração de material para esta série de matérias, é mais comum do que se imagina. Jardim Gramacho tem índices similares aos de povoados miseráveis das partes mais pobres do continente africado. De acordo com um levantamento da ONG Teto, a renda média per capita dos moradores de Gramacho é de R$ 331,96 reais, o que significa 11 reais por dia. Em alguns locais do bairro, situado no munícipio de Duque de Caxias, não tem água encanada.

A pobreza que já era uma triste rotina vem se agravando nos últimos anos, antes mesmo da pandemia. Mais precisamente de 2012 para cá, após o fechamento do Aterro Sanitário de Jardim Gramacho. O lixão, que já foi o maior da América Latina, era a fonte de renda de muitas das famílias do bairro. Ainda que de forma precária e desumana, era o lixo quem movimentava a economia da região.

Rosinete conta que os pedidos por cestas básicas estão vindo de todas as partes de Duque de Caxias, não só dos locais mais pobres. Foto: Felipe Lucena

Maria Rosinete dos Santos, presidente do Fórum Comunitário de Jardim Gramacho, conta que os pedidos de ajuda aumentaram muito nos últimos tempos: “Até pessoas que tinham uma condição melhor, emprego, uma casa melhor, que vivem em uma área menos pobre do bairro, estão vindo até o Fórum para pedir comida. Uma senhora que é casada com um senhor que trabalhava na fábrica da Itaipava, perdeu o emprego e esses dias me procuraram, chorando, desesperados, porque estão passando fome. Ajudamos com cesta básica, água. Gramacho recebe muita doação, mas não está sendo o suficiente pra a gente conseguir repassar pra quem precisa. As pessoas estão passando fome mesmo“, disse Rosinete, conhecida como Rose.

Rua de Japeri. Foto: Agência Pública

A quarenta quilômetros de Jardim Gramacho fica Japeri. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o munícipio tem o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da Baixada Fluminense. No estado, ocupa a 83ª posição entre as 92 cidades, ficando à frente somente de bolsões de pobreza localizados nas regiões Centro-Norte e Noroeste. Ao redor da Penitenciária Milton Dias Moreira essa miséria corre solta. Pessoas reviram o lixo do presídio para comer ou dependem, de outra, do local para se alimentar.

“As pessoas ficam esperando as quentinhas que são rejeitadas pelos presos para comer. Aí, o pessoal do presídio dá para quem está lá, pedindo comida”, destaca Cintia Ferreira, diretora do centro espírita Caboclo da Jurema, que promove ações comunitárias para ajudar os moradores da região, inclusive das casas que foram erguidas em volta da penitenciária.

A Baixada Fluminense, por conta dos anos de descaso, é sempre associada à pobreza quando se fala em Rio de Janeiro. No entanto, na capital do estado, em alguns lugares, a situação não é diferente. Morador da Favela do Rola, em Santa Cruz, Jailson Costa, que ficou desempregado há um ano, viu a fome de perto. Algumas vezes.

“A gente sempre passou sufoco, mas de uns tempos pra cá piorou demais. Mesmo fazendo uns bicos, teve dias aqui em casa sem nada pra comer, sem nada pra dar pras crianças. Vários dias. O pessoal aqui de perto acaba ajudando, os parentes também, mas todo mundo tá no aperto. Difícil demais”, afirma ele que sempre trabalhou como ajudante de cozinha.

De acordo com uma pesquisa feita pela Central Única das Favelas (Cufa) em conjunto com o Instituto Data Favela e Locomotiva, 82% da população dessas áreas depende de doações para se alimentar. Segundo os mesmos dados, o número médio de refeições por dia dessas famílias é 1,9, ou seja, menos de uma refeição por dia. Segundo o IBGE, no Rio de Janeiro, o número de desempregados já chega a 1,5 milhão de pessoas. O RJ é o estado com o maior número de desempregados no Sudeste e o quarto maior do país, ficando atrás apenas de Bahia, Alagoas e Sergipe. Esses e outros números que ilustram o aumento da pobreza extrema no Rio estão na primeira matéria da série #TemGenteComFome. A terceira e última reportagem da série #TemGenteComFome vai mostrar soluções e projetos para resolver esse problema. Afinal, para além dos números existem pessoas que têm fome e quem tem fome, tem pressa.

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