Em meu opinar, penso que uma obra-prima resguarda seu valor de arte não pelo efeito momentâneo que a explosão da novidade nos leva a atribuir enquanto algo importante. Não é a fenomenalidade instantânea de uma obra, sua receptividade calorosa, seu impacto sobre a sensibilidade o que a torna grandiosa. Prefiro crer que uma obra prima se vale, antes, pelo que deixa enquanto legado, ou seja, pelo que ela promete e pelo que ela inspira no futuro. Uma obra prima é muito mais uma extensão viva, um fio contínuo de um pensamento e de um sentimento, do que propriamente um calor da hora, um frisson midiático. Obras-primas persistem. É isso.

O grupo de rock Legião Urbana conseguiu a proeza de conceber uma obra-prima nesses moldes citados acima. Em outubro de 1989, o grupo lança o álbum As Quatro Estações. Lançar um álbum como esse, no ano emblemático de 1989, não é o primeiro sinal de genialidade da obra, mas sim a circunstância mais propícia para sacramentar o ato, naquele momento. O mundo passava por mudanças no plano social, econômico e político. Com a queda do muro de Berlim, em 9 de novembro, o socialismo e o capitalismo, que eram os dois blocos de poder que agitavam o mundo em um jogo de forças e de interesses oponentes, ruíram com o dualismo. A vitória do capitalismo se firmou afastando a penúria econômica, sobrepondo-se ao sistema opressivo e antidemocrático que o socialismo, corrompendo os ideais de Marx e Lenin, deu corpo. Cansado da servidão socialista, o mundo se acorrentou à servidão neoliberal.

A partir de 1989, a servidão neoliberal impôs as suas regras no Brasil e no mundo: o enxugamento da máquina estatal, o desemprego, a precarização do trabalhador, a inflação, o aumento da desigualdade, a manutenção do privilégio da burguesia e o pior: o fim das utopias. Cazuza, naquele ano, berrava na canção de abertura de seu álbum Burguesia: “a burguesia fede! A burguesia quer ficar rica! Enquanto houver burguesia, não vai haver poesia”. Dito e feito? Não. Dito e não feito. Dito e desobedecido. Foi o que o próprio Cazuza fez; foi o que também os meninos de Brasília, Renato Russo, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos fizeram: transformaram a indignação em poesia. O material eles tinham: o Brasil recém-saído da ditadura, cheio de feridas abertas; e um mundo desacreditado, sem esperanças de que as diferenças pudessem ter lugar.

As Quatro Estações foi o quarto álbum da banda, desfalcada naquele momento com a saída do excelente baixista Renato Rocha. Assim como o álbum IV do Led Zeppelin, As Quatro Estações representa um trabalho que guarda um certo mistério e fetiche, pois representa um divisor de águas na trajetória daqueles artistas. Legião Urbana, até 1988, já era uma banda de rock estabelecida no mainstream brasileiro. Os três primeiros álbuns já dão prova das potências artísticas do grupo: Russo se destaca pelo lirismo e pela complexidade de suas letras; e, no palco, por seu canto, que remete ao timbre vocal de Morrisey; e por seu gestual, que imita os contorcionismos de Jim Morrison; Dado, Bonfá e Rocha formam com harmonia e densidade a “cozinha” sonora da banda (guitarra/bateria/baixo), carregada de influências do pós-punk smithiano, que conferem às canções de Russo uma atmosfera pesada e melancólica.

No entanto, As Quatro Estações muda o rumo da banda, tanto no plano da forma quanto no plano do conteúdo. O peso do pós-punk diminui a intensidade, de modo que canções antigas como “Baader Meinholf Blues”, “Petróleo do futuro” e “Teorema” são impossíveis de serem cogitadas no novo álbum. Igual se passa com a levada melancólica de canções como “Tempo perdido”, “Acrilic on canvas” e “Andreia Doria”; são afastadas dessa estética nova que a banda tenta imprimir depois da saída de Rocha. Em As Quatro Estações não se tem registro nem da “sujeira” e impulso violento e acelerado do pós-punk, nem mesmo da tristeza e obscuridade dos tempos perdidos. A banda, desde o álbum Que país é este? (1988), vinha passando por um processo de drenagem dos excessos, de medição dos pontos, filtrando apenas o necessário. Por isso, no plano da forma, a banda já não era uma versão tupiniquim do The Smiths.

No conteúdo, Renato Russo foi mais longe, ousando no apuro poético das letras. A indignação revoltada da juventude que passou pela ditadura e testemunhou o processo de redemocratização, estava ainda presente nos versos, como também a crítica social, a denúncia e a verbalização do horror. Mas, Renato acrescentou a isso tudo um misticismo estranho, uma fé descoberta, uma crença na humanidade que, nos álbuns anteriores, se reduz à utopia. Analisando o álbum, canção por canção, notamos que a esperança não renasce no espírito da banda; antes ela não havia ou era tratada nas entrelinhas; com As Quatro Estações, a esperança é tocada pela primeira vez e posta em primeiro plano como conteúdo poético.

“1965” é exemplo disso: “em toda e qualquer situação/ eu quero tudo pra cima”. Apesar disso, é uma canção-protesto que denuncia a banal e cruel da violência em tempos de ditadura: “cortaram meus braços/cortaram minhas mãos/ cortaram minhas pernas/ num dia de verão/ podia ser meu pai/ podia ser meu irmão”. A pegada rock mais forte do disco fica a critério dessa canção empolgante: “mataram um menino/ tinha arma de verdade/ tinha arma nenhuma”.

Em “Meninos e meninas” Renato usa a canção, aparentemente alegre e despretensiosa, como desabafo para exprimir carências: “preciso de oxigênio/ preciso de carinho”. “Existem canções”, vê-se no encarte do disco; canções que transbordam: “e eu gosto de meninos e meninas”. “Há tempos” abre o disco apresentando fraseados de rock menos crus, ainda que o tema seja denso: a tristeza “tão exata” do viver na cidade, como efeito, talvez, da servidão neoliberal. Renato canta o absurdo: o “descompasso e o desperdício” são “herdeiros” da “virtude que perdemos”. O grito que “acordaria não só a casa, mas a vizinha inteira” é o apelo de quem, mesmo jovem, adoeceu. A esperança não se perde ainda que os santos tenham perdido a “medida da maldade” e que a “ferrugem nos sorrisos” tenha caducado as utopias: resta, no fundo da casa, no fundo do ser, mesmo oprimido, a fonte de água limpa, o fio de luz.

“Pais e filhos” interrompe o fluxo positivo de “Há tempos” e lança o ouvinte em um dos poucos blues compostos pela banda. É o suicídio da menina que “se jogou da janela do quinto andar” cometendo aquilo que não é “nada fácil de entender”; cantar o inexplicável é possível, então? Em parte, sim. Mas o certo é que o existencialismo da canção aponta para um fato: “é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã/ porque se você parar pra pensar, na verdade não há”. O passado de “Há tempos” reflete-se no futuro incerto da canção seguinte que destrincha a frágil e ambígua relação entre pais e filhos: “são meus filhos que tomam conta de mim”. O que é certo? O que é regra? Apenas a morte: “sou um grão de areia”.

A morte e a dor atravessam outras canções: a pesada “Feedback song for a dying friend”, escrita para Cazuza “escondido” no “ninho farpado sombrio da semente” e a bela “Maurício” que conta a dor física de um amigo de Renato: “meu coração já não me pertence/já não quer mais me obedecer/ parece estar tão cansado quanto eu”. Mas como são quatro estações, e não apenas uma, então “tudo deve passar”. O inverno traz dor e solidão, o outono traz a melancolia, presente na romântica “Sete cidades”: o coração “tão tosco e tão pobre” do poeta se expõe, deixa-se iluminar pela saudade e esvai feito folha amarelada: “quando não estás aqui/ meu espírito se perde/ voa longe”.  “Eu era um lobisomem juvenil”, embalada por um belo bandolim, guarda algo da trova medieval e, ademais, reforça o tom outonal na misantropia de um “bicho do mato” que foge da realidade externa, que quer “chegar até as nuvens com os pés no chão” e que acredita no mundo do seu jeito, vedando seu coração aos outros, aos não-lobisomens.

“Se fiquei esperando meu amor passar”, em que Renato mescla em sua letra trechos de “I Coríntios 13” celebra a primavera e suas revoluções amorosas. Por isso, a esperança toma a frente, graças ao espírito cristão do “cordeiro de Deus” que tira o pecado dos homens: “dai-nos a paz”, clama Renato. O amor que se acreditava sentir não era amor; era egoísmo. O poeta vivia “perdido e vivendo em erro” por “culpa do amor” que não se aprendeu amar. A canção é, para mim, uma das mais comoventes e encerra o álbum com uma beleza rara nas obras da Legião.

 O amor omnia vincit; quer dizer, ele vence tudo; e traz consigo o vigor ardente do verão; as estações mudam e Renato canta essa transição em “Quando o sol bater na janela do seu quarto”, em que extrai trechos da “A doutrina de Buda”: “ainda temos chance/ o sol nasce para todos”. O verão da verdade entra pela janela e acende uma luz: “o caminho” da vida “é um só”: dor e desejo – “tudo é dor/ e toda dor vem do desejo/ de não sentirmos dor”. Em “Monte Castelo”, misturando mais uma vez sua letra com versos de outro autor (agora Camões), Renato tenta falar a língua dos anjos, ao celebrar o amor como o fogo eterno “que arde sem se ver”, a “ferida que dói e não se sente”, a “dor que desatina sem doer”; são antíteses da vida, quatro estações do existir que se chocam e se alimentam sob o signo da música. Legião salva e faz falta.

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