Usos e abusos de uma ALERJ fora de seu tempo

O debate público brasileiro tem tratado nos últimos anos, mesmo antes da eleição de 2018, de como a política precisa, com urgência, incorporar a eficiência, reduzir mordomias, extinguir cabides de emprego e aumentar a competência técnica de seus quadros. Em resumo, não teremos um país civilizado, próspero e justo enquanto nossos governos forem amadores e corporativistas.

Ocorre que a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro vai totalmente na contramão desses valores, que têm sido cada vez mais exigidos pela sociedade. Para além da questão ética e da recente prisão de diversos deputados, a ALERJ também perde pontos quando levamos em conta o desperdício de dinheiro público, as “boquinhas” e o jeito anacrônico de fazer política. São os usos e abusos de um parlamento fora de seu tempo. É a tal “velha política”.

Analisemos alguns dados:

  • Recentemente, procuradoras da ALERJ denunciaram a existência de 42 funcionários fantasmas na Procuradoria. Eles não trabalhavam mas recebiam salário pago com nossos impostos. O espaço físico da Procuradoria nem mesmo permitiria que todos trabalhassem e apenas 12 pessoas foram encontradas quando a imprensa visitou o órgão.
  • A Presidência da ALERJ dispõe de 231 cargos comissionados. Isso significa mais cargos do que as presidências da Câmara dos Deputados, do Senado e da Assembleia de São Paulo somados. O gasto estimado com esses funcionários é de 865 mil reais por mês.
  • A Primeira Secretaria da ALERJ tem mais 68 cargos de livre indicação política, que representam custo de 296 mil reais por mês.
  • Os setores de Medicina e de Odontologia, que atendem aos funcionários gratuitamente, têm 36 e 30 vagas respectivamente. Embora os servidores mereçam o cuidado, será que é preciso tanta gente?
  • A divisão de Transportes da Assembleia é responsável apenas por vigiar, manobrar e consertar os carros oficiais das excelências. Pois bem. São 74 – isso mesmo, setenta e quatro! – funcionários nesse setor.
  • Ao todo, a ALERJ tem 76% de seus funcionários sendo comissionados, ou seja, apenas 24% fizeram concurso e os demais são indicados pelos políticos. São 4226 empregos de confiança entre os 5500 totais.
  • Mesmo com 5500 vagas, a Corregedoria, responsável por corrigir os usos e abusos das autoridades, tem apenas 6 funcionários. Por quê?

Esses números, somados aos casos de corrupção e de malversação de recursos, além das CPIs engavetadas e dos ex-presidentes presos, geram uma indignação profunda e a sensação de que a ALERJ está fora da realidade. Vale lembrar que, enquanto deputados estiveram presos na legislatura passada, seus gabinetes continuaram gerando custos e pagando assessores, totalizando 2,6 milhões de reais em gastos. Não há prova maior da desconexão com o anseio popular.

Durante a campanha eleitoral, como candidato a deputado estadual, toquei nestes pontos diariamente e me comprometi com um mandato competente tecnicamente, ético e que cortasse gastos de assessoria, combustível, material de escritório, etc. Propus também a criação de uma comissão de transparência total dos gastos da própria Assembleia, com servidores concursados e independentes. Embora tenha recebido honrosos 5242 votos, estes não foram suficientes para a vitória. Contudo, como cidadão e como atento observador da política me sinto no direito de – assim como todos os leitores – cobrar que os novos deputados, principalmente os que se elegeram propagando serem defensores da “nova política”, mudem urgentemente esse cenário. Avisem ao grupo das “velhas práticas” que já estamos em 2019.

Esse foi tema do “Política com Bruno Kazuhiro” no YouTube do Diário do Rio e no Podcast:

4 COMENTÁRIOS

  1. ALERJ consegue reunir o legislativo mais canalha do pais. Esse antro precisa ser INTERDITADO URGENTEMENTE. La reina o que de mais podre existe na politica brasileira e o sentimento e de total impunidade. Nao sobra ninguem.

  2. Os que propõem mudanças terminam por não serem eleitos. Muito triste. No Rio de Janeiro , há um grupo fechado que se mantém no poder com essas benesses, irregularidades , desperdício, altos salários e numerosos cargos nem nenhuma necessidade e não há jeito de fazê-los desistir. Não votam nunca pela lisura , só se preocupam em ganhar uma grana por fora em qualquer votação. Todo mundo sabe e ninguém pode fazer nada. Só eles. É a treva.

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