William Bittar: Naqueles bailes de um Rio nem tão antigo

Colunista do DIÁRIO DO RIO fala sobre os bailes que aconteciam na Cidade Maravilhosa na década de 70

Baile da Pesada, com Big Boy - Foto: Acervo Leandro Novaes

Quando entrava dezembro, naqueles idos anos setenta, a garotada do subúrbio se alvoroçava. Afinal, além da proximidade do verão, temporada de praia, viriam os imperdíveis bailes de formatura.

Os clubes de toda cidade se preparavam, pois tanto os colégios tradicionais, como Pedro II, Instituto de Educação ou muitos particulares, iriam promover aquele evento.

Na prática, eram muito diferentes daqueles do cinema americano, que celebravam o fim do ensino médio e o ingresso numa vida adulta, incluindo uma provável primeira vez de muitos daqueles adolescentes com os hormônios em ebulição, flores e limusines.

Por aqui também os desejos ferviam, porém bastava uma dança colada ou um beijo furtivo sob a escada que a noite estava completa. Algumas vezes a aventura poderia se estender até uma rua escura próxima e até virar namoro ou “coisa mais séria”, mas era raro. A idade média da turba estava entre 15 e 18 anos, pois a formatura em questão era do antigo científico ou ensino normal, este o baile mais disputado.

Aproximava-se o horário, 22h30, e alguns grupos se posicionavam junto às portarias dos clubes para conseguir alguns convites que sobrassem. Os artifícios eram variados: simplesmente pedir a um rosto mais solícito, ajudar a descer dos automóveis ou até mesmo acompanhar a formanda e sua mãe com um guarda-chuva surrado, numa noite de mau tempo. Importante era a aproximação e o pedido que, se bem conduzido, resultava no ingresso tão desejado. Em muitas ocasiões era a própria mãe que cedia um convite sobrando, ou permitia a entrada junto àquela prima ou amiga mais tímida que estava sem companhia.

O ritual era padrão, independentemente do endereço do clube. Por isso, nas noites de quinta, sexta ou sábado, já que raramente havia bailes de formatura aos domingos, alguns grupos de jovens perambulavam pela cidade, após verificar a programação das festas.

Em eventos mais concorridos, valia seguir até a igreja onde se realizaria a missa da turma e ali, precocemente, já se tentava um convite simples ou familiar, este último um verdadeiro tesouro, que permitiria o acesso a todos os companheiros de festas.

Em seguida, superar um novo desafio: a indicação de passeio completo ou esporte fino, exigências expressas para ingressar nos salões. Paletós, alguns poucos disponíveis, voavam de janelas ou de basculantes de banheiros para atender, um a um, aos amigos, o que resultava em aparências inomináveis devido às diferenças físicas dos futuros usuários. Não raramente, seguia o traje completo, para atender às exigências, gerando verdadeiros espantalhos cujo objetivo era participar do baile. Ou, para desespero daqueles nas calçadas, algum paletó ficava preso num galho de árvore, após lançado de um vão escondido no salão.

E os clubes? Estavam por toda a cidade… O elegante Monte Líbano, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, com sua arquitetura modernista, geralmente cenário escolhido pelos alunos do Pedro II ou do Instituto de Educação; ao lado, a Associação Atlética Banco do Brasil, com seu pano de vidro na fachada, também era muito concorrida. Na Zona Norte, destacava-se o elegante Tijuca Tênis Clube, também de arquitetura moderna, para muitos colégios tijucanos. Os subúrbios da Central e Leopoldina também contavam com seus clubes, como Magnatas, no Rocha, Mackenzie, no Méier, Várzea Country Club, em Água Santa, Social Ramos Clube, Irajá Atlético Clube, Cassino Bangu, nos bairros de mesmo nome.

Alguns clubes de futebol também abrigavam, em suas sedes sociais, bailes inesquecíveis, como o América, na praça Afonso Pena, o Fluminense, com talvez o mais elegante salão nobre do Rio com sua ornamentação e vitrais art-nouveau, o Flamengo, em sua sede à Av. Rui Barbosa… Raro era o clube que não arrendava suas dependências para tantas formaturas na cidade.

Naquele período entre dezembro e o carnaval, os principais conjuntos (posteriormente denominados bandas) estavam comprometidos com os formandos, diminuindo as cotas dos bailes convencionais.

Ao som do Painel de Controle, The Fevers, Famks, The Pop’s, Incríveis, Renato e seus Blue Caps ou de orquestras como Tabajara, Severino Araújo, Lafayette e seu conjunto, os Devaneios, Ed Maciel, Joni Maza, Aeroporto, os jovens dançavam em seus ternos e sapatos apertados com as pós-debutantes em seus vestidos e cabelos produzidos para a ocasião.

Por quatro ou cinco horas, aqueles adolescentes se desligavam do mundo, da censura, das perseguições políticas, luta armada, embalados e envolvidos naquele ambiente de sonho, luzes coloridas e, com colaboração dos adultos, copos de gin-tônica ou cuba-libre, uma versão contemporânea da Cinderela. Próximo das quatro da manhã, paletós atirados sobre as cadeiras, algumas gravatas amarradas na testa suada, maquiagens escorrendo e os penteados desfeitos nas últimas músicas da madrugada, geralmente uma sessão agitada por marchas de carnaval, encerrada ao som da indefectível Cidade Maravilhosa.

A década de 1970 tornava-se duas em uma, pois após o recrudescimento das lutas políticas e a violência da repressão, o movimento hippie, descendente de Woodstock, perdeu espaço para o consumismo das discotecas.

As equipes de som substituíam, gradativamente, os conjuntos nos salões. Este movimento, provavelmente foi iniciado em julho de 1970 com os disc jockeys Ademir e Big Boy, responsáveis pelo referencial Baile da Pesada, que também popularizou a Black Music americana, com destaque para James Brown e muitos integrantes da Motown. Estava lançada a semente para os futuros bailes funks, descendentes diretos do Black Rio.

Até mesmo a indumentária mudava, entrando em cena os sapatos de dois ou três andares, calças boca-de-sino, cintura alta e camisetas coladas. Para as meninas, minissaias ou macacões curtos com botas de cano alto.

Abandonava-se, pouco a pouco, o som das baladas de Procol Harum, Johnny Rivers, Classics IV, Bread, Carpenters, as danças com rostos e corpos tão colados que geravam reprimendas da segurança ou das mães: Do you wanna dance? Surgiam as coreografias de grupos ao som das luzes e músicas disco, nos embalos de sábado à noite, staying alive. Os salões passaram a abrigar equipamentos de som, que evoluíram para paredes de alto-falantes, aumentando a incomunicabilidade, pois importava soltar suas asas e dançar sem parar nas noites cariocas ou mesmo em New York City Discotheque.

O início da década de 1980, por motivos vários, assistiu ao esvaziamento dos bailes em clubes, dos cinemas de rua… Diminuíam os circos e parquinhos itinerantes e aumentavam as opções padronizadas de lazer asséptico.

Relações afetivas tornavam-se efêmeras sob o som alto e as luzes girantes da discoteca, onde cada um pretendia tornar-se a Dancing Queen naquela pista, mesmo que por uma noite apenas.

O tempo, medido em segundos nos relógios digitais, parecia maior, mas todos alegavam que não era suficiente, como o Coelho da Alice no País das Maravilhas, sempre atrasado.

Os adolescentes daqueles bailes cresceram pressionados por uma sociedade competitiva e consumista, que muitos combateram sob a égide de Paz e Amor. Poucos ainda resistem, malucos beleza, mas a maioria, esquecendo para não sentir saudades, incorporou como lema um sucesso disco para continuar sem culpa: I will survive.

Carioca, arquiteto graduado pela FAU-UFRJ, professor, incluindo a FAU-UFRJ, no Departamento de História e Teoria. Autor de pesquisas e projetos de restauração e revitalização do patrimônio cultural. . Consultor, palestrante, coautor de vários livros, além de diversos artigos e entrevistas em periódicos e participação regular em congressos e seminários sobre Patrimônio Cultural e Arquitetura no Brasil.
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