História e Antecedentes

O Diário do Rio foi o primeiro jornal diário a circular no Brasil, tendo sido fundado no longínquo ano de 1821, ou seja, há mais de 200 anos. Ele tinha o apelido de “Diário da Manteiga”, porque era baratinho, e custava o mesmo que uma pequena porção do laticínio.

O Diário do Rio de Janeiro, ou Diário do Rio, como carinhosamente o carioca se acostumou a chamá-lo, foi o primeiro jornal diário do país, começando a circular em primeiro de junho de 1821, antes mesmo da independência do Brasil. Agora, em 2021, completou 200 anos. Isso mesmo, 200 anos!

Inicialmente impresso na sua própria gráfica, a Tipografia do Diário, o veículo teve como seus primeiros editores Zeferino Vitor de Meireles e Antônio Maria Jaurdan. Já de olho na notícia local, Meireles espalhou pela cidade umas “caixinhas coletoras de notícias“, onde as pessoas podiam inserir papéis com o que acreditavam que fosse interessante ser publicado.

Segundo a maioria dos historiadores, o Diário do Rio de Janeiro, nesses seus anos iniciais, era um jornal mais informativo, sem uma linha editorial que interferia na vida cotidiana da corte imperial. Mas ele era tão informativo que acabou por contribuir no cotidiano dos cariocas da época, na medida em que, segundo a historiadora Laiz Perrut Marendino, “trazia ao público uma ideia da vida em sociedade ao reunir em suas páginas grande quantidade de anúncios variados, notícias oficiais do governo imperial, notícias dos países estrangeiros, invenções, novidades das ciências, da medicina, da literatura e tudo o mais que considerava útil ao público leitor.”

Por ser um jornal que era vendido por preços muito módicos – o que lhe valeu o apelido de ‘diário da manteiga’, pois custava o mesmo que uma pequena porção do laticínio – tinha imensa difusão e capilaridade. Além disso, a quantidade de anúncios publicados nas suas páginas era tão grande – bem semelhante (piada interna) ao que ocorre hoje nesta nossa versão online tão cheia de banners e vídeos que tanto irritam nosso leitor hoje em dia – que ele era quase uma espécie de “páginas amarelas” do Rio de Janeiro da época. O que você queria, na corte imperial, você achava no Diário do Rio.

Acima, uma edição de domingo do Diário do Rio

A partir mais ou menos de 1830, e após apoiar e defender a independência do Brasil, os anos se passaram e o jornal passou a ter uma linha editorial bem mais politizada, e passou a se posicionar na propagação das ideias dos chamados “Caramurus”, que eram os membros do antigo Partido Restaurador. Estes eram em sua maioria comerciantes portugueses, burocratas e militares que queriam a volta do Imperador D. Pedro I para o Brasil, após ele ter abdicado em favor de seu filho. Eles defendiam uma monarquia mais centralizada e quase absolutista. Só que D. Pedro I morreu em 1834, esvaziando esta corrente política.

No período subsequente, o Diário teve uma grande atuação na área da literatura, publicando ensaios, artigos, contos e até mesmo realizando – durante décadas – uma famosa “Semana Literária”, na qual atuavam alguns dos principais nomes da literatura brasileira da época. Neste período, houve momentos em que a notícia chegava a ficar em segundo plano; mas nunca o jornal deixou de veicular anúncios e notícias locais.

Trecho de uma página de anúncios do Diário, data de 1821. O Diário foi o primeiro a publicar classificados de imóveis / Foto: Site do COFECI – Conselho Federal de Corretores de Imóveis

Durante as regências e principalmente após a morte de Pedro I – aos mais distraídos, lembramos que D. Pedro II virou Imperador ainda menor de idade, e até completar 15 anos, o país foi governado por sucessivas regências, passando por uma grande instabilidade – o Diário do Rio passou a se dedicar muito mais decisivamente à discussão política, sem nunca deixar de lado seu viés informativo, o cotidiano do carioca e do fluminense, os anúncios e a briga política. Exatamente como fazemos até hoje.


[…]Até aqui tinha se o Diário abstido de questões políticas; do princípio do anno em diante consagraremos algumas columnas a esse importante objeto. Não impedira? isso que registremos em nossas páginas o que de mais importante ocorrer nos paizes estrangeiros; […]”

Diário do Rio de Janeiro, 2 de Janeiro de 1845

Nesse momento, a redação anunciou que o jornal passaria a contar com colunas de opinião sobre os temas mais importantes da corte, da cidade e do país. A partir daí, crescemos exponencialmente, abraçado mais a temática política, os colunistas de opinião – exatamente como fazemos agora – e o jornal passou também a ter um farto noticiário internacional, inclusive contando com um correspondente internacional em Lisboa.

Em 1855 uma grande crise financeira afetou o Diário, que acabou sendo vendido ao escritor José Martiniano de Alencar, que, em 1856, contrata José de Alencar como editor-chefe. A partir daí, a parte final da primeira página de cada edição passa a vir com folhetins literários de autores que acabariam por se tornar alguns dos maiores escritores do país.

Entre 1858 e 1960 a crise novamente se aplacou sobre a redação, e em 10 de dezembro de 1858 o jornal pára de ser impresso diariamente, retornando no dia 16, com o nome “O Velho Diário do Rio de Janeiro”, explicando as razões da crise, ocasionada por perseguições políticas.

Escreveram no Diário do Rio nomes como Machado de Assis, Quintino Bocaiúva, Ferreira Vianna, Saldanha Marinho e o próprio José de Alencar. Quintino Bocaiuva substituiu José de Alencar na direção do jornal, tornando a imprimi-lo em 25 março de 1860. O eminente republicano Saldanha Marinho assumiu o posto de principal redator. Bocaiúva era o correspondente no Senado Imperial, e nos anos seguintes começou a utilizar o espaço do jornal para defender ideais republicanos, e a promoção da mão de obra imigrante, como alternativa à escrava, mas acabou deixando o Diário.

Em 1867 o jornal é vendido a Sebastião Gomes da Silva Belfort, e passava a ter 5 grandes redatores, ao que se segue um período de prosperidade, com grandes articulistas e muitos textos literários da lavra de grandes mestres.

Em sua fase impressa final, “consagrado ao comercio, lavoura e indústria”, como dizia seu slogan da época, durou até 1878. Sua sede funcionou primeiro na rua do Ouvidor, e depois na rua do Rosário, 86, a poucos metros da nossa nova sede, na Travessa do Comércio, no histórico Arco do Teles. Em 31 de outubro de 1878, sua última edição impressa é distribuída, informando o “fim” do periódico.

Do retorno como blog até um respeitado jornal digital

Quintino Gomes Freire

Passam-se 129 anos. Em 2007, o jovem (então) sub-prefeito da Ilha do Governador Quintino Gomes Freire, aconselhado e instigado por amigos e correligionários, especialmente Breno Arruda, verifica que simplesmente não há mais um só meio de comunicação que olhe o Rio de Janeiro com bons olhos, enaltecendo tudo o que existe de positivo, e criticando (apenas) o que é efetivamente negativo e marcante. O Rio de Janeiro passou a ter uma imprensa tão “cosmopolita” que acaba se esquecendo de olhar para o próprio umbigo; de acompanhar sua própria política; de se preocupar com seu próprio destino. As uníssonas vozes da imprensa carioca daquele momento se viravam exclusivamente para assaltos a mão armada, roubos de farmácia, e os problemas que afligem a toda a população brasileira. Unicamente sobre o Rio? Não parece ter sobrado ninguém.

É assim que nasce a fase ‘blog’ do Diário do Rio. Sem recursos, sem equipe fixa, mas com surpreendente público e inacreditável audiência. O pequeno ‘blog’ cresce de forma muito rápida, atingindo milhares de acessos diários, centenas de milhares de seguidores nas redes sociais, e uma imensa audiência que o faz conquistar diversos anunciantes interessados em aparecer para tanta gente jovem e interessada efetivamente no que o Rio de Janeiro tem de bom. Neste período se destacou o imenso movimento causado pela pioneira Lista dos Blocos de Carnaval do Diário, onde, pela primeira vez se organiza um roteiro dos bloquinhos de carnaval de rua, com horários, resumo das atividades e muito mais.

O crescimento é exponencial, até que vem a crise financeira que se abateu sobre o Rio após os grandes eventos (Copa do Mundo e Olimpíadas), e tudo fica mais difícil. Mudança nos algoritmos das redes sociais passam a exigir investimentos maiores, mais matérias, equipe, mudanças. E o grande blog – que na verdade era uma pequena empresa – é colocado na parede: ou se profissionaliza e avança várias casas, ou vira hobby do seu fundador.

Claudio André e Bruna Castro

O casal Bruna e Cláudio André de Castro, ambos leitores e anunciantes do blog através da tradicional empresa imobiliária da família, veem potencial no negócio, e decidem investir na sua profissionalização. Tudo começa com a compra do prédio-sede do Diário do Rio, um sobrado histórico do século XVIII localizado num ponto nobre do Centro do Rio – o Arco do Telles, em plena Praça XV (ou Largo do Paço) – e a montagem de uma redação, inclusive com a contratação de diversos colaboradores, novo planejamento gráfico, investimento em publicidade, internet profissional e uma enorme divulgação.

O negócio é celebrado em fins de 2018, e a empresa, agora estruturada como um verdadeiro jornal, passa ao controle da família Castro, sob a direção de seu Editor-Chefe de sempre, Quintino Gomes, que, ao lado de Ivana Luterbark, mantém-se nas rédeas da operação diária do jornal, que finalmente se filia à Associação Nacional de Jornais, e passa a contar com um quadro de jornalistas e colaboradores permanentes em sua redação, além de uma equipe de especialistas em redes sociais. Neste período, começa uma disparada no número de visitantes ao site diariodorio.com.

Os sócios do Diário do Rio, Ivana Lutebark, Claudio Castro, Bruna Castro e Quintino Gomes Freire
Os sócios do Diário do Rio, Ivana Lutebark, Claudio Castro, Bruna Castro e Quintino Gomes Freire

Observando que há espaço para um grande jornal que trate de pautas positivas sobre o Rio de Janeiro, política carioca e fluminense, agenda de eventos, restaurantes, bares, botequins e boates, assim como das entranhas dos parlamentos estadual e municipais, a nova direção investe neste nicho. Enquanto o maior jornal da cidade tem orgulho de declarar-se ‘um jornal nacional’, o Diário do Rio de Janeiro se transforma em “o principal jornal regional do Rio’, focado em notícias locais, e sem priorizar a parte policial. Independente, completamente desligado dos interesses de qualquer grupo de mídia, rapidamente o Diário passa a pautar toda a imprensa nacional no que é do Rio de Janeiro. Tudo que acontece, passa a sair primeiro aqui.

O resultado é rápido. De uma média de 400 mil visitantes mensais em 2018, em 2019 a média já bate nos 3 milhões de leitores. Nas eleições de 2020, o jornal atinge 10 milhões de leitores mensais, mantendo uma cobertura local das eleições para prefeitos e vereadores jamais vista no Rio. Foram mais de 50 horas de entrevistas com candidatos a vereadores e prefeitos. Uma única reportagem sobre os candidatos a vereador entrevistados por nós teve 700 mil visitantes apenas no próprio dia da eleição.

O Diário do Rio se filia à Associação de Jornalismo Digital e à Associação Comercial do Rio de Janeiro no mesmo ano em que recebe seu primeiro prêmio, em 2021. Reportagens indicadas a prêmios jornalísticos, como a que foi escrita sobre os riscos das barragens existentes no Rio de Janeiro, têm milhões de acessos. À semelhança do velho Diário do século XIX, o jornal passa a publicar colunas de políticos cariocas tarimbados e das mais diversas correntes políticas, de Chico Alencar a Rodrigo Amorim, e de Pedro Duarte a Paulo Pinheiro. O jornal é hoje pioneiro nas discussões sobre a revitalização do Centro da Cidade, e mantém uma imensa lupa sobre a zeladoria das cidades no Estado do Rio de Janeiro.

Quem lê estas páginas aqui e as notícias dos demais veículos sobre o Rio acaba percebendo que todo mundo lê o Diário. Inclusive os outros. Como diz nosso slogan….quem ama o Rio, lê.

No Arco do Telles, começa a Travessa do Comércio, onde está sediado do Diário do Rio, no primeiro prédio à direita logo após o arco. Ele está lá, igualzinho, como nesta foto do Século XIX. / Foto: blog oriodeantigamente
Arco do Teles nos anos 1930 – Foto de Ado Pet?ík