Roberto Anderson: Baixo progresso social no Mangue

'A Cidade Nova tem esse nome em decorrência de sua ocupação tardia, já que, durante os séculos XVII e XVIII, a área urbana da cidade ocupava o conhecido perímetro entre os morros do Castelo, São Bento, Conceição e Santo Antônio'

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Contrariamente a índices econômicos, como a muito conhecida medida dos Produtos Internos Brutos – PIBs per capita dos países, o Índice de Desenvolvimento Humano – IDH buscou uma apreensão mais ampla, mais focada no ser humano. Ele se organizou a partir de três dimensões básicas: a renda, a escolarização e a esperança de vida. Foi criado pelo economista paquistanês Mahbub ul Haq com a colaboração do economista indiano Amartya Sen, ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 1998.

Durante muitos anos, a Prefeitura do Rio de Janeiro avaliou e divulgou os IDHs das diversas regiões cariocas. Mas, desde 2016 ela passou a utilizar um outro índice, o Índice de Progresso Social – IPS, aplicado às regiões administrativas. Este, criado a partir de 2010, é composto por três dimensões – necessidades humanas básicasalicerces do bem-estar e oportunidades, que por sua vez se decompõem em outros índices compostos, totalizando 36 indicadores. Dessa forma, o IPS busca apresentar um quadro mais complexo da situação das diversas comunidades humanas.  

Recentemente, a Prefeitura do Rio de Janeiro divulgou uma atualização mais detalhada do IPS, referente ao ano de 2022, e tomando como unidade os bairros cariocas. Assim, ficamos sabendo que a Barra da Tijuca está no topo da classificação de progresso social no Rio, com a pontuação 79,29. Não se pode considerar uma boa notícia que esteja no topo dessa classificação o bairro mais incomum da cidade, com pouca mistura social, poucas possibilidades de interação no espaço público, em sua maior parte organizado na forma de condomínios fechados, e com mobilidade baseada no uso do automóvel. Laranjeiras, o bairro que vem logo a seguir, com índice de 77,47, é a antítese da Barra, sendo conhecido por suas rodas de chorinho, sua feira livre e suas áreas de bares e restaurantes populares.

Olhando-se para os bairros com piores índices, encontramos o Jacaré, com índice de 50,45 e, em último lugar, a Cidade Nova, com índice de 50,43. Contraditoriamente, é na Cidade Nova que se encontra a sede da Prefeitura, de onde saem as decisões que impactarão o desenvolvimento social dos bairros. Aparentemente, a administração municipal tem se mostrado incapaz de olhar o seu entorno imediato e buscar inseri-lo num processo de melhorias.   

A Cidade Nova tem esse nome em decorrência de sua ocupação tardia, já que, durante os séculos XVII e XVIII, a área urbana da cidade ocupava o conhecido perímetro entre os morros do Castelo, São Bento, Conceição e Santo Antônio. Até o início do século XIX, o processo de urbanização na direção oeste apenas havia ultrapassado o seu antigo limite, a rua dos Ourives, atual Miguel Couto, e chegado ao Campo de Santana. Isso se deu através do duro trabalho de aterramento das lagoas da Pavuna, Lampadosa e Sentinela. Fora da área central, só havia ocupações até a Lapa e a Glória ao sul, e na Prainha e Saúde ao norte, havendo também o caminho que levava ao Arraial de Mata-Porcos, atual Estácio.

Quando, finalmente, no início do século XIX, a cidade ultrapassou o Campo de Santana, teve início a difícil ocupação de uma área pantanosa, a área do Mangue. Em 1808, a chegada da corte portuguesa, com aproximadamente 15.000 pessoas, o que representava um quarto da população da cidade, mudou radicalmente a ocupação do seu solo. A instalação de D. João VI na Quinta da Boa Vista e a abertura do Caminho do Aterrado, ou das Lanternas, que levava a São Cristóvão, criou um poderoso eixo de expansão da área urbana em direção àquela região. Foram abertas e ocupadas as ruas do Lavradio, Inválidos e Resende, no antigo Pantanal de Pedro Dias. Acelerou-se o processo de drenagem e saneamento das áreas pantanosas do Mangal de São Diogo, e a área urbana ultrapassou o Campo de Santana, iniciando a ocupação das atuais ruas de Santana, Visconde do Rio Branco e Moncorvo Filho.

Os atuais baixos índices de progresso social da Cidade Nova talvez se expliquem pelo fato de que a mesma seja fruto de um processo incompleto de renovação urbana, empreendido a partir da década de 1970, quando se buscou demolir as construções antigas e alterar o seu traçado urbano. Houve a construção da sede da Prefeitura e de alguns edifícios comerciais, e a expulsão, também incompleta, de moradores pobres. Esta expulsão teve como fato mais marcante a remoção da imensa área de prostituição que ali se formou a partir da década de 1920. Calcula-se que no seu auge, nos anos 1940, sete mil mulheres ali trabalhassem. Durante a ditadura militar, já em processo de redução, a zona de prostituição foi cercada por tapumes, com entradas disfarçadas entre os mesmos, por onde os clientes se esgueiravam.

O último reduto da prostituição no Mangue foi a Vila Mimosa, uma vila que se situava onde hoje se encontra o Centro de Convenções Expo Mag (antigo Sul América). A sua transferência para as proximidades da Rua Ceará provocou duas renomeações de lugares: a Rua Sotero dos Reis, que ganhou a alcunha de Vila Mimosa, e a sede da Prefeitura, que passou a ser conhecida como Piranhão. Como é nesse edifício que se originam as decisões que podem melhorar as vidas dos moradores dos bairros, está mais do que na hora de as mesmas se voltarem também para os deserdados que sobraram na Cidade Nova, sobreviventes das drásticas e autoritárias transformações que ali ocorreram.      

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Roberto Anderson é professor da PUC-Rio, tendo também ministrado aulas na UFRJ e na Universidade Santa Úrsula. Formou-se em arquitetura e urbanismo pela UFRJ, onde também se doutorou em urbanismo. Trabalhou no setor público boa parte de sua carreira. Atuou na Fundrem, na Secretaria de Estado de Planejamento, na Subprefeitura do Centro, no PDBG, e no Instituto Estadual do Patrimônio Cultural - Inepac, onde chegou à sua direção-geral.

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