William Bittar: O Dia do Soldado e seus monumentos no Rio

No Dia do Soldado, colunista do DIÁRIO DO RIO fala sobre monumentos dedicados a eles

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Pantheon Militar, depois Pantheon de Caxias Acervo IBGE

No dia 25 agosto, data de nascimento de Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias é comemorado oficialmente, desde 1925, o Dia do Soldado.

No entanto, por algumas décadas, a principal celebração militar nacional estava associada à Batalha do Tuiuti, considerado o mais sangrento embate ocorrido no Paraguai em 24 de maio de 1866. No teatro das operações, destacou-se Manuel Luiz Osório, seu principal herói e o militar mais festejado pelo Exército até 1923, quando ocorreu uma institucionalização do culto ao Duque de Caxias como modelo ideal de soldado brasileiro.

Ao longo do século XX, historiadores com posturas ideológicas diversas consideram Caxias o maior soldado do Brasil. Thomas Whigham, por exemplo, professor americano, estudioso da Guerra do Paraguai, afirmou que “seu nome se tornou sinônimo de um oficial e cidadão correto que nunca infringe a lei”. Certamente daí o apelido de “caxias”, por vezes impropriamente pejorativo, atribuído àqueles que cumprem seus papéis com responsabilidade e correção.

Em agosto de 1889, poucos meses antes da Proclamação da República, Caxias foi homenageado com uma estátua equestre de bronze, obra de Rodolfo Bernardelli e fundida em Paris, disposta sobre um pedestal no Largo do Machado.

Em 1949, esta escultura foi transferida para o Pantheon Militar, diante do antigo Ministério da Guerra, na recém-inaugurada Avenida Presidente Vargas, depois denominado Pantheon de Caxias.

Este conjunto fora idealizado pela Prefeitura do antigo Distrito Federal, sob administração do General Ângelo Mendes de Morais para iniciar as celebrações do 150º aniversário de seu patrono, apoiado pelo presidente Eurico Dutra, que nomeou uma Comissão Especial de Homenagens a Duque de Caxias.

Em 25 de agosto de 1949, quatro anos antes das comemorações, o Pantheon Militar foi inaugurado na Praça da República, à frente do Ministério da Guerra, imponente edifício art-déco, projetado por Cristiano Stockler das Neves, inaugurado em 1941.

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Trata-se de uma construção com dominante horizontal constituída por uma longa empena cega, com cerca de quatro metros de altura, revestida de mármore, praticamente sem ornamentação, exceção para um brasão de Caxias e o monumento do patrono, que pousa sobre o conjunto.

O acesso está localizado na fachada voltada para o Ministério da Guerra, depois Palácio Duque de Caxias, através de uma larga porta sob as armas da República por onde se chega à cripta onde repousam os restos mortais do Duque e sua esposa.

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Internamente, o projeto optou por uma forma curvilínea, revestido de mármore, iluminado por uma cúpula envidraçada, proporcionando uma dramática iluminação zenital.

Ao fundo, foram projetadas duas galerias com pequenos nichos para receber os restos mortais de soldados brasileiros que atuaram na Segunda Guerra, mas permaneceram vazios, pois para esta finalidade foi idealizado o Monumento aos Pracinhas, inaugurado alguns anos depois, no Aterro do Flamengo, um notável exemplar da arquitetura moderna brasileira.

O Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra, conhecido como Monumento aos Pracinhas ou por um irreverente apelido carioca, muleta do gigante, foi idealizado na década de 1950 pelo Marechal Mascarenhas de Moraes, comandante da Força Expedicionária Brasileira – FEB – para abrigar os despojos mortais de soldados brasileiros mortos na Itália.

Foi realizado um concurso, vencido pelos arquitetos Marcos Konder Netto e Hélio Ribas Marinho, com um projeto que reunia o pleno atendimento às necessidades do programa a uma concepção formal-estrutural de grande ousadia e criatividade, se destacando na horizontalidade dominante daquela região aterrada.

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Existe um percurso que o visitante deve adotar para usufruir das soluções espaciais implementadas pelos autores. Diante do conjunto, abre-se uma grande esplanada antes da subida da escadaria monumental. Um marco vertical se lança a 30 metros de altura, duplas colunas delgadas marcam o túmulo do soldado desconhecido, com uma pira a arder o fogo da pátria, sob aquele pórtico. O visitante atinge uma plataforma onde se distribuem monumentos como uma escultura de metal, de Júlio Catelli, um grupo de granito composto por pracinhas das três armas, de Ceschiatti e uma pirâmide de granito, atarracada, com a ficha técnica do edifício e outras informações sobre a obra.

Sensorialmente, é possível apreender os quatro elementos: o fogo na pira, a terra na pirâmide, o ar, na aeronave e a água vertendo aos fundos, em moto contínuo, numa extensa cascata artificial.

Por uma abertura na plataforma, desce-se para o pavimento térreo, onde está o museu com fotos, cartas, uniformes e peças utilizadas pelos soldados nas batalhas, revelando seu cotidiano num mundo em guerra.  Um painel mural de Anísio Medeiros, apresenta uma metáfora sobre a luta contra o Fascismo.

Dali, uma escada atinge o subsolo, onde estão os túmulos dos soldados, dispostos alinhados, num ambiente com pé direito reduzido, iluminação indireta e os nomes gravados nas paredes. O rumorejar da água é o som que inunda o salão funerário.

Nas lápides, nomes, datas, patentes até que, reunidas numa seção, algumas sepulturas ostentam apenas uma peça de mármore branca, sem identificação, mas com a mesma inscrição: “Deus sabe seu nome”

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Dali, em silêncio, o visitante sobe contrito aquela escada e chega à esplanada iluminada, certamente com questionamentos ou reflexões sobre a estupidez de uma guerra e suas sequelas para os sobreviventes, os “pracinhas”, ou familiares e amigos daqueles que foram abatidos ou desaparecidos em combate.

Muitas vezes sequer é permitida uma homenagem nominal àqueles verdadeiros heróis, que honraram seus uniformes e seu país, uma atitude oposta de alguns indignos que maculam a farda, símbolo de um povo e de uma nação.

Para estes, nenhuma celebração no Dia do Soldado. Nenhum orgulho, apenas conforme Tomás Antônio Gonzaga gravou em suas Cartas Chilenas:

nunca serve

de glória ao seu autor

mas, sim, de opróbrio

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Carioca, arquiteto graduado pela FAU-UFRJ, professor, incluindo a FAU-UFRJ, no Departamento de História e Teoria. Autor de pesquisas e projetos de restauração e revitalização do patrimônio cultural. . Consultor, palestrante, coautor de vários livros, além de diversos artigos e entrevistas em periódicos e participação regular em congressos e seminários sobre Patrimônio Cultural e Arquitetura no Brasil.

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