Alexandre Knoploch: O governo de uma sociedade rachada

O presidente eleito Lula terá diante de si uma forte oposição tanto no Congresso quanto nas ruas, onde clamam as vozes dos 58 milhões de brasileiros que deram preferência a Jair Bolsonaro

Foto: Reprodução Redes Sociais

Acabamos de presenciar a vitória mais apertada de um presidente eleito na história do Brasil. Pouco mais de dois milhões de votos, ou seja, menos de 2% do total, separaram o adversário derrotado, Jair Bolsonaro, da reeleição. O fortalecimento da oposição na sociedade está entre os primeiros efeitos desse acirramento. A voz de quase metade da população, que declarou preferência pela direita, já se faz ouvir nas ruas, como vimos nas manifestações do dia 2 de novembro.

Lula tampouco terá vida fácil no Congresso Nacional pelos próximos quatro anos. Afinal, os partidos aliados a Bolsonaro elegeram a maior bancada de deputados e senadores. O próprio partido do atual presidente elegeu a maior quantidade de deputados federais: 99. Junto aos eleitos do PP e do Republicanos, temos 187 políticos. A frente apoiadora do petista, por sua vez, elegeu uma quantidade importante na Câmara, equivalente a 80 parlamentares, mas, somada aos parlamentares de partidos aliados, como Psol e Rede, continua com a minoria: 108.

Estamos diante de uma situação completamente diferente de 2003, quando o chefe de Estado contava com um apoio consistente de mais de 200 mandatários no Parlamento, que lhe facilitou a governabilidade. Desta vez, tanto a oposição na Câmara quanto no Senado estará apta a propor, sozinha, a criação de uma CPI, por exemplo. A favor de Lula, não podemos negar o fato de que a atual oposição é formada por dezenas de deputados pragmáticos e pouco ideológicos.

Por mais que saibamos que nem todos os deputados que hoje pertencem à base de Bolsonaro vão manter a oposição ferrenha ao governo petista, as dificuldades virão, principalmente no contexto de uma sociedade rachada. Afinal, o Congresso não poderá ignorar os apelos populares.

A idade avançada de Luís Inácio Lula da Silva certamente não vai ajudar a fortalecer o vigor da sua liderança. Afinal, qualquer pessoa de 77 anos disposta a viajar mundo afora como ele está, para participar de eventos e encontrar líderes de outros países, terá que lidar com os limites físicos inevitáveis impostos pelo tempo.

Com uma base de apoio composta por 10 partidos, todos com suas respectivas exigências, diferenças e até disputas políticas, terá Lula saúde e disposição para gerenciar tantos aliados, além de enfrentar uma consistente oposição popular? Terá condições de pacificar um país que saiu tão dividido das urnas e evitar um clima de “terceiro turno”, como pedem os opositores mais radicalizados?

Quanto a nós, da oposição, devemos refletir sobre nossa capacidade de reorganização. Resta saber se a direita conseguirá se reerguer para voltar com força em 2026. Acredito que dificilmente a convicção antipetista desaparecerá da mente dos 58 milhões de brasileiros que manifestaram preferência por Bolsonaro e que regressaremos ao comando do Executivo pelas vias democráticas.

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