André Luiz Pereira Nunes: As décadas derradeiras do Andaraí – Última parte (1950 a 1975)

Colunista do DIÁRIO DO RIO conta a história dos últimos momentos de um dos mais tradicionais clubes do passado do futebol carioca

Legenda: Festividade para incentivar o time no começo da temporada de 1920. Acervo Fundação Biblioteca Nacional

Em 1950, o Andaraí fica em quinto lugar na categoria amadores, Série Urbana, entre oito participantes, superando o Sampaio, Astória e o Clube dos Cariocas. Entre os aspirantes, o Andaraí é apenas o penúltimo, deixando na lanterna o Clube dos Cariocas. Seus concorrentes na Série Urbana foram: Nova América (Inhaúma), Astória (Engenho Novo), Clube dos Cariocas (Cidade Nova), Cacique (Engenho Novo), Rio (Méier), Del Castilho (Del Castilho), Sampaio (Sampaio) e Benfica (Benfica). O Nova América se sagrou bicampeão da série, em certame vencido pelo Manufatura, tendo o Campo Grande como vice. Nos aspirantes, o Astória foi o campeão da Série Urbana e o Oposição o vencedor do campeonato, cujo vice-campeão foi o Campo Grande.

Partidas:

Primeiro turno: 4/06 – 1 a 2 Cacique (C); 11/06 – 3 a 0 Nova América (C); 18/06 – 0 a 2 Astória (F); 6/08 – 1 a 3 Del Castilho (C); 20/08 – 1 a 4 Clube dos Cariocas (C); 27/08 – 1 a 3 Benfica (F); 3/09 – 3 a 1 Sampaio (F); 10/09 – 2 a 4 Rio (C).

Segundo turno: 1/10 – 0 a 11 Cacique (F); 8/10 – 2 a 7 Nova América (F); 15/10 – 2 a 1 Astória (C); 22/10 – 3 a 1 Del Castilho (F); 5/11 – 0 a 2 Clube dos Cariocas (F); 12/11 – 0 a 1 Benfica (C); 19/11 – 1 a 1 Sampaio (C); 26/11 – 1 a 6 Rio (C).

Classificação por pontos perdidos da Série Urbana:

1º Nova América – 7;
2º Rio – 8;
3º Benfica – 11;
4º Del Castilho – 14;
5º Andaraí – 13;
6º Sampaio – 19;
7º Astória – 20;
8º Clube dos Cariocas – 25.

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Em 1951, o Andaraí declinou da disputa do Torneio Início e do Departamento Autônomo com a tabela já montada, o que acarretou em sanções pela Junta Desportiva. A agremiação manteve em atividade apenas o seu plantel de veteranos que atuava num certame cognominado Campeonato da Saudade.

Um fato extremamente importante ocorreria dois anos depois para as pretensões do combalido clube. Em 1953, quatro times amadores cogitavam adentrar ao seleto grupo de equipes profissionais. A tarefa não seria fácil, pois a Primeira Divisão era composta por um número restrito de agremiações. Para piorar, não havia Segunda Divisão e, por conseguinte, acesso e descenso. Por conta disso, a Assembléia Geral da Federação Metropolitana de Futebol (FMF) decidiu abrir uma décima-segunda vaga à Primeira Divisão para o time que desejasse se tornar profissional. O Oriente, então bicampeão do Departamento Autônomo, foi o primeiro a se candidatar a partir dos esforços do presidente Luiz Gonzaga Moreira da Silva. Era natural que o time de Santa Cruz conseguisse a vaga. Já o Andaraí, cuja figura exponencial era o veterano Laúza, também pleiteava o seu ingresso se esmerando na tradição e em supostos apoios do Vasco e do Botafogo, que na hora determinante não aconteceram, o que decepcionou enormemente os dirigentes andaraienses, os quais se sentiram enormemente traídos. O Manufatura, inicialmente, também cogitaria a ideia logo, no entanto, rechaçada pelos seus próprios diretores, os quais preferiram manter o seu grêmio industriário na segura zona de conforto do Departamento Autônomo. A vaga veio a cair, a propósito, diretamente no colo da Portuguesa, a qual havia sido expulsa, em 1938, da Liga Brasileira de Desportos juntamente com o Andaraí e o Olaria.

A decisão, que favoreceu o clube luso, foi interpretada pela opinião pública, não só como bastante injusta, como suspeita, em que pese atualmente se tratar de um clube de grandeza inestimável. Contudo, analisando o contexto da época, sabe-se que foram desprezados os direitos incontestes do Oriente, equipe que vinha disputando, conforme mencionado, com enorme êxito os certames do Departamento Autônomo, enquanto a Portuguesa havia abandonado, na ocasião, o futebol, se dedicando somente ao ciclismo e à recreação. Tanto que não contava com qualquer jogador inscrito para a disputa do campeonato, sendo obrigada a formar às pressas um plantel com atletas oriundos de times amadores. A Lusa planejou construir um estádio na Avenida Brasil, mas finalmente, nos anos 60, adquiriu os direitos sobre o hipódromo da Ilha do Governador por parte da Companhia Imobiliária Santa Cruz, onde veio a construir a sua sede social e o seu estádio.

Tanto Andaraí quanto Oriente protestaram com bastante veemência acerca da equivocada e absurda decisão que favoreceu a Portuguesa, recorrendo ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva, mas ambos não obtiveram êxito em suas tentativas. O que se sabe é que a Portuguesa tinha padrinhos muito fortes na Federação Metropolitana de Futebol (FMF) e desse modo conquistou a tão sonhada vaga junto aos grandes clubes da cidade. Algo parecido se repetiria na década seguinte quando o Campo Grande também alcançou a esfera profissional graças à influência de João Ellis Filho, personalidade sempre ligada à Federação.

Em 1961, o Andaraí finalmente retornou às disputas de caráter oficial. Ao participar novamente do Departamento Autônomo, foi inserido na Série Behring de Matos, tendo como adversários Auto Solar (Penha), Confiança (Andaraí), Juventude (Lagoa), Atília (Santo Cristo), Del Castilho (Del Castilho), Estrela Azul (Deodoro) e Carioca (Jacarezinho). O clube atuou em seu antigo campo, localizado na Rua Barão de São Francisco. O campeão da Série Behring de Matos foi o Atília, ficando o Auto Solar na segunda posição. O Andaraí foi o quarto colocado, superando Juventude, Carioca, Estrela Azul e Del Castilho. Não pudemos obter informações acerca da colocação da equipe aspirante devido à incipiente cobertura da imprensa. Para a fase final se classificaram Atília, Auto Solar, Paredense (Vigário Geral), Irmãos Goulart (Olaria), Realengo (único invicto), Botafoguinho (Guadalupe), Oriente (Santa Cruz) e Kosmos (Cosmos). O campeão máximo do Departamento Autônomo foi o Auto Solar e o vice o Paredense. Nos Aspirantes, o campeão foi o Oriente e vice o Botafoguinho.

Partidas:
Primeiro turno: 23/04 – 1 a 1 Del Castilho (F); 30/04 – 1 a 1 Auto Solar (F); 7/05 – 1 a 3 Juventude (F); 28/05 – 5 a 1 Estrela Azul (F); 4/06 – 0 a 4 Atília (F); 11/06 – 0 a 4 Confiança (F); 2/07 – 0 a 2 Carioca (F).

Segundo turno: 9/07 – 3 a 0 Del Castilho (C); 16/07 – 0 a 1 Auto Solar (C); 23/07 – 1 a 0 Juventude (C); 13/08 – 6 a 1 Estrela Azul (C); 20/08 – 0 a 1 Atília (C); 27/08 – 1 a 1 Confiança (C); 10/09 – 2 a 0 Carioca (C).

Classificação por pontos perdidos da Série Behring de Matos:

1º Atília – 2;
2º Auto Solar – 9;
3º Confiança – 11;
4º Andaraí – 13;
5º Juventude – 16;
6º Carioca – 16;
7º Estrela Azul – 21;
8º Del Castilho – 21.

Em 1962, o Andaraí disputou a sua última competição de caráter oficial. Participou do Departamento Autônomo pela Série Moacir Pereira. Seus rivais na chave foram Confiança (Andaraí), Nova América (Inhaúma), Juventude (Lagoa), Mavílis (Caju), Sete de Setembro (Leblon), Del Castilho (Del Castilho), Atília (Santo Cristo) e Expressinho (Leblon). O clube sediou seus jogos em seu antigo campo, na Rua Barão de São Francisco. Em razão da péssima cobertura da imprensa, na época, não obtivemos a classificação do Andaraí nas categorias Amadores e Aspirantes.

Partidas:
Primeiro turno: 29/04 – 1 a 1 Confiança (C); 6/05 – 5 a 2 Nova América (F); 20/05 – 0 a 1 Juventude (C); 27/05 – 1 a 2 Mavílis (F); 10/06 – 1 a 1 Sete de Setembro (F); 17/06 – 1 a 5 Del Castilho (C); 1/07 – 0 a 1 Atília (F); 15/07 – 0 a 3 Expressinho (F).

Segundo turno: 5/08 – 0 a 5 Confiança (F); 12/08 – 1 a 0 Nova América (C); 26/08 – 1 a 1 Juventude (F); 2/09 – 0 a 3 Mavílis (C); 16/09 – 0 a 6 Atília (C); 28/10 – 2 a 6 Sete de Setembro (C); 14/10 – 1 a 6 Del Castilho (F); 21/10 – 6 a 2 Expressinho (C).

Pela Série Moacir Pereira se classificaram Atília e Confiança. Pela Série Adriano da Costa se habilitaram Oity e Oriente. Já na Série Manuel Caetano Alves entraram na fase seguinte Elevadores Atlas e Botafoguinho. Na Série Iraci Rocha os vencedores foram Manufatura e Colégio. Ao fim do certame, a equipe estreante do Elevadores Atlas se sagrou supercampeã da categoria Amadores, enquanto o Atília foi a vice. Já nos aspirantes, os classificados foram: Atília (Série Moacir Pereira), Oity (Série Adriano da Costa), União de Marechal Hermes (Série Manuel Caetano Alves) e Manufatura (Série Iraci Rocha). O supercampeão da categoria foi o Atília e o vice o Manufatura.

Em dezembro de 1962, o Andaraí, presidido por Irineu Chaves, comemorou 53 anos de existência recordando seus momentos de glória quando disputou pela Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT) e Associação Metropolitana de Esportes Atléticos (AMEA) o Campeonato Carioca ao lado dos chamados grandes clubes da cidade. Não faltaram menções a jogadores de renome como Oto Bandusch, Americano, Vilela, Monteiro, Hermógenes, Gilabert, Russinho, Iustrich, Popó, Cid e tantos outros que posteriormente se transferiram para times maiores e até integraram seleções do Rio e do Brasil. Infelizmente, quando se instaurou o profissionalismo, em 1933, o alviverde foi forçado a abandonar a companhia dos co-irmãos e passar a dedicar-se aos desportos amadores. Por ocasião de seu 53º aniversário, ainda se encontrava filiado à Federação Carioca de Futebol e federações cariocas de ciclismo, arco e flecha e futebol de salão. Seu antigo campo, localizado na Rua Barão de São Francisco, de propriedade da Caixa de Mobilização Bancária, tinha acabado de ser adquirido pelo America Football Club, que o manteve até o início dos anos 90, quando foi vendido e veio a se tornar um shopping center.

Em 1973, o Andaraí teve diversos de seus bens de sua sede, tais como máquinas de escrever, geladeira e outros, penhorados por falta de pagamento à Sociedade Independente de Compositores e Autores Musicais (SICAM). Sua antiga sede social, localizada na Praça Barão de Drummond, 24, que hoje abriga a Pizzaria Parmê, resistiu até 1975, quando o proprietário do imóvel retomou seus direitos. O espaço, que ultimamente só servia para reuniões e carteados, demonstrava pobreza e desolação. Antes do final daquele o ano o clube permaneceria vivo apenas na lembrança de torcedores, jornalistas e aficionados.

A retirada compulsória e injusta do Andaraí da primeira divisão, por meio de uma baixíssima manobra política, foi extremamente prejudicial ao futebol carioca. O clube alviverde era possuidor de um bom time, além de aglutinador do interesse de toda uma região na qual se situava o bairro que lhe dava nome, a Fábrica das Chitas, Vila Isabel e o Grajaú. O Andaraí dispunha de torcida, velha guarda e aficionados como Laúza, Irineu Chaves e tantos outros. Depois que o Vila Isabel e o Mangueira deixaram de existir, o clube ampliou o seu território esportivo e sentimental arregimentando outros entusiasmos e paixões, passando a ser um ponto de convergência de várias classes de torcida. Tratava-se de um celeiro de craques e uma escola eficiente. Com o seu aniquilamento, estancou-se uma fonte de interesse, gerando ressentimento e desilusão nos partidários que se retraíram diante do inevitável. O desporto perdeu uma referência e o futebol mais um atrativo, atestando, como sempre, a incompreensão, a maldade, a incapacidade e os interesses sub-reptícios dos dirigentes que comandam até os dias atuais as entidades esportivas.

André Luiz Pereira Nunes é professor e jornalista. Na década de 90 já escrevia no Jornal do Futebol e colaborava com Almir Leite no Jornal dos Sports. Atuou como colunista, repórter e fotógrafo nos portais Papo Esportivo e Supergol. Foi diretor de comunicação do America.
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