Andrey Monteiro – Telemedicina: uma visão muito além do que uma consulta por vídeo

Tenho a visão de que a telemedicina utilizada na sua integralidade seja uma das ferramentas com maior capacidade de impacto social e otimização de recursos.

Foto: Marcello Casal - Agência Brasil

Após mais de 20 anos envolvido com medicina de alta complexidade, inovação tecnológica em saúde e assistencial, entendo a necessidade de um momento disruptivo, que aumente não somente o acesso e a promoção à saúde, mas também que gere valor assistencial e melhor utilização dos recursos financeiros.

Desta maneira tenho a visão de que a telemedicina utilizada na sua integralidade seja uma das ferramentas com maior capacidade de impacto social e otimização de recursos.

Quando falamos em telemedicina, devemos antes de mais nada entender que essa ferramenta não se resume apenas ao ato médico da consulta. Existem inúmeras outras funções como campanhas de saúde em massa, telemonitoramento de crônicos e a determinados grupos de risco, capacidade de levar atenção à saúde em locais remotos e até mesmo considerados de risco. Além disso hoje já é possível a realização de exames clínicos, laboratoriais e de imagem com a incorporação de hardwares às plataformas de telemedicina.

Existem inúmeros apelos para a incorporação, evolução e maior adesão a esta ferramenta assistencial :

?   Menos deslocamento do usuário ( médico e paciente )
?   Menor necessidade de investimento em novos centros assistenciais 
?    Maior oferta de profissionais com menor custo e menor desgaste físico da equipe 
?   Melhor qualidade e maior acesso à internet 
?   Monitorar à distância de grupos de risco, com isso aumentando adesão ao tratamento
?   Troca de informação entre profissionais de saúde, facilidade de segunda opinião ou orientação assistencial especializada
?   Uso de inteligência artificial , reduzindo tempo de espera, orientando em casos mais simples ou sinalizado situações de emergência 

A pandemia alavancou e de certa forma chancelou essa ferramenta existente a décadas.

O engajamento continua sendo um problema, além da visão inadequada em somente utilizar a ferramenta de forma parcial. Vejo muita atenção com oferta de consultas médicas e pouca visão com outras possibilidades como monitoramento e utilização de outras ferramentas.

A maior oferta de utilização destas plataformas está nos usuários da medicina suplementar. Porém esses ainda têm fácil acesso a métodos ortodoxos, o que diminui o engajamento a essa nova modalidade assistencial.

A difusão desta ferramenta no SUS irá aumentar o engajamento, além da vantagem de acesso, benefício aos mais vulneráveis da população e reduzir as chances de que absurdos do passado retornem a ocorrer, como por exemplo importar médicos cubanos ou milhares de prefeituras sem ofertar qualquer atendimento à população.

E claro que não estamos falando que esse avanço irá resolver todos os problemas.
Mas o sistema de saúde precisa de medidas de impacto real com aumento do acesso, redução de custos e maior eficiência.

A inflação médica é cerca de 50 a 100 % maior do que a inflação geral de preços.
A incorporação de novas tecnologias e o envelhecimento da população, atrelados à baixa eficiência e baixo investimento no sistema de saúde, são os maiores vilões para essa lógica perversa.

Afinal hoje temos tomógrafos que realizam exames em menos de 30 segundos, funcionam part time e o tempo entre um exame e o outro chega a 30 minutos. Como reduzir a espera e os custos com este modelo irracional ?
A demora pelo agendamento de uma consulta faz com que tenhamos enorme percentual de absenteísmo e consequente ociosidade de consultas, ao mesmo tempo que temos enormes filas de espera pelo agendamento e baixa oferta de consultas.

Se não houve maior acesso e promoção à saúde, cada vez mais investiremos em novas unidades e cada vez mais estas unidades serão verdadeiras represas humanas aguardando a solução para aqueles que realmente precisam e que estão competindo por um lugar com outras pessoas que não precisariam estar ali.
Mesmo tendo a certeza de que existe baixo investimento no sistema de saúde, cada vez menos temos a esperança de que esses investimentos irão aumentar. A resolução seguramente passa por novas soluções para antigos problemas.

Andrey Monteiro
Cirurgião Cardiovascular e pioneiro em transplante cardíaco pediátrico e assistência circulatória

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