Claudia Chaves: Adeus, Ternura – Sem o último gole

Colunista do DIÁRIO DO RIO fala de Adeus Ternur, que tem direção de Rodrigo Portella e dramaturgia de Rafael Souza-Ribeiro

Foto: Victor Pollak

Os tempos andam bicudos. Muito ódio, ofensas, desavenças. Bebedeiras, angústia, ansiedade. Gente sem  qualquer humor. Poder-se-ia até dizer: Que palha assada é essa? Pois  é. Mas talento, graça, trapalhada do bem, um vilão canastrão possuem seu lugar.  Uma arena de circo daquela onde se dá risada e se batem palminhas. Isso tudo está em Adeus Ternura com direção de Rodrigo Portella e dramaturgia de Rafael Souza-Ribeiro, do premiado grupo Bando de Palhaços em sua primeira incursão no teatro adulto.

Um bar que vai fechar naquela noite. Um comprador canastrão. A mais pura brasilidade está inteira em um texto, elaborado  com as 3 regras do teatro clássico: unidade de lugar ( ação toda no mesmo cenário); unidade de tempo ( ação é a duração da peça) e verossimilhança ( se acontecesse assim, seria assim exatamente).  Rafael Souza-Ribeiro acerta em cheio quando se vale do recurso cinematográfico  do plano sequência:  a cena é sem cortes, os personagens são vistos de  uma única perspectiva e ao longo de toda uma ação. Os diálogos, os encontros são em uma linguagem rápida, com toques de quiproquó e  pinceladas do exagero de atuação dos palhaços de circo.

E para garantir esse clima de bares, sempre decadentes,  com a “família”de frequentadores, o proprietário funcionando quase como um manipulador de bonecos , a trilha sonora fio condutor, pesquisa pelo grupo a partir do excelente  “Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e ditadura militar”, de Paulo Cesar de Araújo. Ana Carolina Sauwen, Camila Nhary, Filipe Codeço, Matheus Lima e Pablo Aguilar interpretam , com muito talento, personagens que conseguem uma tarefa difícil -ao mesmo tempo estereótipos e arquétipos  – que se confrontam com o fracasso, mas seguem em frente pela força que exala do conjunto.

A direção do premiadérrimo Rodrigo Portella é um acerto em todas as frentes. Transforma a arena do Sesc em um picadeiro na qual os atores se movimentam com a mesma agilidade que se vê no circo. O over se torna na medida. Os figurinos vestem mais do que as pessoas. Encarnam o que pensam, o que sentem, suas perdas.  Há , ao fundo, nos sussurrando a atuação dos  palhaços que vimos pela vida a fora. O que transborda como os sentimentos das músicas é a capacidade criativa de Rodrigo que cria em cada espetáculo que dirige uma jóia  lapidada de prazer para a plateia.

A palhaçaria são os  gestos, ditos ou maneiras de palhaço; que se constitui no modo de agir espalhafatoso ou ridículo, exagerado. A roupa larga, o sapato bicudo, o nariz vermelho, a boca superdimensionada  traduzem um grotesco que logo se transforma, pela alegria, em um momento especial. Há surpresas, erros que viram acerto. Acerto que vira erro. É desse talento, dessa verdade dos limites humanos  que o Bando, Rodrigo e Raphael  nos fazem pensar que de camada em camada chega-se ao essencial:  a alegria da ternura é o que nos salva

  • Serviço:
  • Teatro de Arena do Sesc
  • Quinta a domingo às 20 h
Jornalista, publicitária, professora universitária de Comunicação, Doutora em Literatura, Bacharel em Direito, gestora cultural e de marcas. Mãe do João e do Chico, avó da Rosa e do Nuno. Com os olhos e os ouvidos sempre ligados no mundo e um nariz arrebitado que não abaixa por nada.
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