Claudia Chaves: Dignidade – Sem açúcar, sem afeto

Dignidade, escrita por Ignasi Vidal e dirigida por Daniel Dias da Silva, narra uma amizade aparentemente inquebrantável entre dois homens que exercem sua carreira na liderança política

Foto: Rafael Blasi

A palavra dignidade tem no seu radical ígneo, ferro. Qualidade que se atribui aos corajosos, aos nobres. Linha mestra dos samurais que se suicidam quando  aparece a mínima possibilidade de não cumprirem o que lhes é predestinado. Dignidade, escrita por Ignasi Vidal e dirigida por Daniel Dias da Silva, usa  uma amizade aparentemente inquebrantável entre dois homens que exercem sua carreira , desde jovens, na liderança política.

Ignasi Vidal, o autor espanhol, consagra-se  como ator principal, na tradição dos contemporâneos musicais na Espanha. A partir de 2015,  alcança novos patamares como dramaturgo com os  textos O  Plano  e Dignidade que são representados em  vários países.  Elogiado pela crítica, o autor catalão também produz textos online, narrativos e dramatúrgicos.

O primeiro ponto que se percebe em Dignidade é o belo aproveitamento da arena onde transcorre o espetáculo. O cenário com inspiração de Bauhaus, a escola alemã que inventou a estética moderna e ainda atualíssima,  é um jogo de xadrez super dimensionado pelo qual, com a excelente marcação criativa  de Daniel Dias da Silva, Thelmo Fernandes e Claudio Gabriel se movimentam em um embate exclusivamente verbal que ressalta a qualidade do texto, com uma interpretação primorosa, raramente presenciada.

As questões pessoais, éticas, profissionais se misturam em uma rede  em que cada peixe que se pesca está podre e ainda assim não pode ser descartado. O que mostra a força do texto é como Thelmo e Claudio  fazem o jogo de poder e de como  tocados por situações de superioridade não  abrem mão de nada, da forma como veem o mundo e egoisticamente se agarram a ela, não importando tantos anos de companheirismo. Em um momento, falam que quem toma café sem açúcar não tem dignidade.  Um reflexão fundamental para os tempos  em que vivemos que vai além do político, pois integra o cotidiano, quando  o cheque mate é que todos tomam café sem açúcar.

  • SERVIÇO:
  • Teatro de Arena do Sesc Copacabana
  • Quinta a Domingo às 20 h
Jornalista, publicitária, professora universitária de Comunicação, Doutora em Literatura, Bacharel em Direito, gestora cultural e de marcas. Mãe do João e do Chico, avó da Rosa e do Nuno. Com os olhos e os ouvidos sempre ligados no mundo e um nariz arrebitado que não abaixa por nada.
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