Claudia Chaves: Enquanto você voava, eu criava raízes

Colunista do DIÁRIO DO RIO fala sobre o espetáculo Enquanto você voava, eu criava raízes

Ainda no século passado, observou-se que  desenvolvimento do teatro e de suas técnicas de encenação ocorreram  em um período em que mudanças ainda mais radicais ocorriam nas artes plásticas, o que deixou como característica que a inovação na na encenação surgiu  principalmente de inovações na pintura. Com a pandemia estabeleceu-se com força um outro elemento: a tecnologia que se torna até mesmo um personagem.

Enquanto você voava, eu criava raízes surgiu do mergulho de André Curti e Artur Luanda Ribeiro, criadores da  interessante e inovadora  Cia. Dos a Deux. O jogo de palavras do nome já demonstra a inventividade dos artistas. Dos em francês é costas, mas se pronuncia como dois em português. Assim, todos os trabalhos da dupla usam o corpo e todos os seus elementos como  fio narrativa. Essa presença se repete nesse recente trabalho.

O que vemos é um resultado extraordinário  que funciona como um quadro, com a moldura da boca de cena, no qual  a utilização da luz ( base da linguagem das artes visuais), os elementos cênicos e os corpos não se preocupam em narrar uma história clássica. Com o torso nu, uma calça de malha fina que permite vislumbrar os músculos perfeitamente esculpidos o que podemos  ver são esculturais móveis.

Outro procedimento que reverbera a proposta é a utilização de uma espécie de teatro de sombras que faz com que a sombra, imagem aumentada, dialogue com o corpo do  ator que está  em destaque na cena. E mais para colaborar com a proposta de  fazer do teatro aquilo que mostramos com atores, os elementos circenses como corda, equilibristas tornam-se contundentes para a mensagem.

O espetáculo nos mostra um renascimento após a hibernação. Como o título já indica, há a contradição permanente da alma humana : ficar/partir, voar/raízes, narrar/impactar, corpos/voz. Seja do jeito que se pensar há a ousadia  bem sucedida e perfeitamente executada dos grandes artistas. Não há fórmula, nem receita. Arte é sonhar, extrapolar, ir além. Esse é o excelente resultado de André e Artur.

  • Serviço :
  • Teatro Oi Futuro
  • de quinta a domingo, às 20h
Jornalista, publicitária, professora universitária de Comunicação, Doutora em Literatura, Bacharel em Direito, gestora cultural e de marcas. Mãe do João e do Chico, avó da Rosa e do Nuno. Com os olhos e os ouvidos sempre ligados no mundo e um nariz arrebitado que não abaixa por nada.
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