Claudia Chaves: Luiza Mahin… Eu ainda continuo aqui

Colunista do DIÁRIO DO RIO fala sobre espetáculo “Luiza Mahin… eu ainda continuo aqui”

Foto: Cris Granatto

Um dos melhores procedimentos para se conseguir atingir as pessoas, emocioná-las, envolvê-las é contar parábolas, fábulas, atualizar um tema. As metáforas possuem essa força narrativa, um veículo fundamental  para levar à reflexão. Um dos assuntos mais importantes de nossa atualidade é o genocídio de jovens negros e pobres. No Brasil, os índices são os maiores do mundo.  O espetáculo “Luiza Mahin… eu ainda continuo aqui”  ao mesmo tempo que conta a história da mãe do escritor Luiz Gama, fatos do século 19, discute o atual extermínio.

Com texto de Marcia Santos e direção de Édio Nunes, a peça realiza, com  eficiência, o cruzamento entre os relatos contemporâneos destas mães com a vida da personagem Luiza Mahin, nascida no início do século XIX, mãe do advogado abolicionista e jornalista Luiz Gama, vendido como escravo pelo próprio pai. Para evidenciar que a situação é imutável, apesar de uma distância de quase 200 anos, os figurinos misturam roupas contemporâneas com elementos étnicos.

Na iluminação que parece feita com velas, no sombreado forte vermelho, emerge grandiosa, de forma imperial, Cyda Moreno, atriz e idealizadora do projeto, que funciona como  elemento de ligação, uma bordadeira/costureira, que alinhava passado e presente, os  episódios que vão reforçando a dor de perda, a brutalidade dos assassinatos, as injustiças. A direção de Édio Nunes ressalta no movimento e na interpretação das atrizes Cyda MorenoMárcia SantosMárcia do Valle ,Taís Alves e Jonathan Fontella (representatividade do filho de todas elas), que os monólogos – estrutura dramatúrgica – transformam-se  em parte de um enorme diálogo, impactante.

A utilização dos instrumentos de percussão, que nos remete aos rituais religiosos, torna a encenação um ato de liturgia. As atrizes, o texto, o som, a iluminação, com a escolha  de evidenciar que o racismo  existe desde sempre tornam Luiza Mahin um libelo-denúncia. A linha central fica clara com os fatos atuais apoiados na pesquisa histórica apoiada e nas transformação da brutalidade em arte.

Serviço:
Casa de Cultura Laura Alvim
Quarta e Quinta às 20 h

Jornalista, publicitária, professora universitária de Comunicação, Doutora em Literatura, Bacharel em Direito, gestora cultural e de marcas. Mãe do João e do Chico, avó da Rosa e do Nuno. Com os olhos e os ouvidos sempre ligados no mundo e um nariz arrebitado que não abaixa por nada.
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