Claudia Chaves – Um Tartufo: sem palavras

Colunista do DIÁRIO DO RIO opina sobre a peça ''Um Tartufo'', em cartaz no Humaitá, Zona Sul carioca

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Um Tartufo - Foto: Dalton Valerio

Bruce Gomlevsky ousa em uma versão de Tartufo, na qual os diálogos são substituídos pela mímica. Contar uma história, ainda que possivelmente conhecida, apenas com gestos é um ato forte, de coragem, pois recupera, ao mesmo tempo, importantes tradições do teatro mundial – a mímica era presente nos teatros de Dionísio, na commedia dell’arte e no kabuki japonês. A caracterização exagerada na maquiagem, nos figurinos estilizados denunciam uma França rural de nosso imaginário, as idades, os sexos, a situação social. Não há qualquer necessidade de palavra. A música contemporânea do esloveno Borut Krzisnik realiza a perfeita integração entre palavra e gesto, o ritmo de representação e o impacto das viradas do enredo.

A criatividade transbordante de ”Um Tartufo” é apoiada pelo elenco, que é capaz de forma afinada de mostrar a comédia satírica que é o texto, mas também das situações dramáticas dos personagens pelas manipulações de Tartufo, brilhantemente interpretado por Yasmin Gomlevsky. Um nobre senhor Orgonte franqueia sua vida e sua fortuna a um falso religioso Tartufo que lhe toma a filha Mariana e mulher Elmira A presença dos tipos populares como Dorina (Thiago Guerrante) e Cleanto (Ricardo Lopes) vai além de se ter tipos cômicos. Thiago realiza uma Dorina de passo miúdo, uma criada que é o olhar de quem não se engana. E o Cleanto de Ricardo Lopes que está caracterizado como um preto velho manco tem das melhores intepretações corporais já vistas.

A direção de Bruce Gomlevsky trabalha com todas as dimensões que o texto de Molière anuncia. A prepotência da nova classe dominante, a burguesia que se acha proprietária dos bens, mas também da vida de todos. A pulsão sexual desenfreada, sem limites, de Elmira em contraste com o amor romântico de Mariana e Valério. O filho mimado Damis totalmente inútil e simplório. A religião que engana, os falsos messias que prometem a vida eterna, que envolvem as pessoas para lhes tomar os bens da vida presente. A manipulação é o tema principal que se traduz nos atores que nos parecem bonecos de fantoches. E só o corpo, os olhares, nos fazem apreciar a expressão nua e crua de teatro: a dimensão absoluta da pessoa, do seu corpo ali à nossa frente como o meio de nos emocionar e aplaudir de pé. Bravo Bruce!

SERVIÇO

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Um Tartufo

Local: Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto
Endereço: Rua Humaitá, 163 – Humaitá – Rio de Janeiro/RJ
Quando: Quinta (06/10), às 19h

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entrar grupo whatsapp Claudia Chaves - Um Tartufo: sem palavras

Jornalista, publicitária, professora universitária de Comunicação, Doutora em Literatura, Bacharel em Direito, gestora cultural e de marcas. Mãe do João e do Chico, avó da Rosa e do Nuno. Com os olhos e os ouvidos sempre ligados no mundo e um nariz arrebitado que não abaixa por nada.
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