Com seriedade e vontade política, o Rio poderia ter um transporte de primeiro mundo

Nas últimas duas semanas participei de eventos internacionais na Alemanha e no Marrocos. No primeiro, estive em Berlim para o lançamento de uma nova rede de jovens lideranças políticas para a a qual fui convidado pela Fundação Konrad Adenauer, instituição alemã. No segundo, participei de fórum da Juventude da União Democrata Internacional, na qual faço parte da diretoria, que reúne jovens de centro-direita de todo o mundo. Entre um evento e outro, pude passar o final de semana em Sevilha e conhecer a Andaluzia, região da Espanha. Vale ressaltar que tudo ocorreu com patrocínio das instituições anfitriãs e recursos partidários ou próprios, sem qualquer verba do poder público, como deve ser.

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Por estar em viagem, não escrevi minha coluna semanal para este Diário do Rio nos últimos 15 dias, embora tenha feito transmissões ao vivo às terças, direto do exterior, sobre temas da política carioca, que acompanhei pela imprensa e pelos comentários e informações de colegas de trabalho, amigos e familiares. Mas porque conto tudo isso a você, leitor do Diário do Rio? Pois aproveitei essa viagem para comparar as cidades que visitei com o Rio de Janeiro e achei importante contextualizar.

Em Berlim o transporte público é extremamente eficiente. É verdade que presenciei uma greve dos funcionários dos serviços de transporte que complicou o cotidiano e soube que há obras de uma linha de metrô com prazo vencido, mas, no geral, o deslocamento dos moradores para o trabalho, o estudo e o lazer é extremamente fácil. Linhas de trem possuem composições confortáveis, climatizadas e com grande velocidade, permitindo viagens rápidas e dignas para os subúrbios. A integração com o metrô, os ônibus e o VLT é total, com o usuário pagando apenas uma passagem. O metrô corta todo o subterrâneo da cidade, com várias estações de integração entre linhas, formando uma rede. O VLT e os ônibus normalmente fazem trajetos mais curtos, com acessibilidade plena para deficientes, pontualidade impecável e espaço para carrinhos de bebê, bicicletas e cadeiras de roda.

Nos dias que passei em Berlim me perguntei o porquê de o transporte do Rio de Janeiro não ser semelhante. O carioca ou o brasileiro não merece? O preço das passagens, feita a conversão do câmbio, é mais elevado na capital alemã, mas não é tão diferente do Rio quanto à proporção do salário dos usuários. Não poderia a Supervia ter trens pontuais, confortáveis, rápidos e seguros, que levassem com velocidade e dignidade os moradores da zona oeste, da zona norte e da Baixada? Não poderia o metrô do Rio ter mais linhas, uma rede de verdade ao invés de um “linhão” e integrações da Linha 1 com a Linha 2 na Carioca, com a Linha 4 na Gávea e com o circuito da Linha 1 fechado conectando Gávea e Uruguai diretamente, permitindo a ida do morador da Grande Tijuca até a zona sul sem “fazer um U” no Centro? Não poderiam os ônibus serem mais baixos, com acessibilidade e permitindo levar bicicletas para que estam fossem um transporte complementar e verdade e não apenas um lazer?

Já em Sevilha, ao me dirigir para assistir uma partida entre Betis e Villareal, percebi que mesmo em uma cidade tão menor que o Rio, o sistema de transporte vinculado ao jogo era muito melhor. Diversas linhas de ônibus com parada nos arredores do estádio, diversos pontos de comércio e serviços oferecendo seus estacionamentos especialmente nos dias de partida. E na saída, um escoamento extremamente rápido dos torcedores, mesmo com um estádio com capacidade para mais de 60 mil torcedores. Ou seja, com quantidade de pessoas igual ou maior que a do Rio comparecendo ao estádio, uma cidade bem menor consegue ter muito mais preparação e infraestrutura. Muitos ônibus adicionais em cada linha que sai do estádio, funcionários da Prefeitura organizando o trânsito. Por que um jogo no Maracanã não tem linhas de ônibus especiais ou veículos adicionais nas linhas que passam pelo estádio? Por que não há mais opções de estacionamento no entorno do Engenhão? Nada disso custa tanto dinheiro, se trata de planejamento.

Chegando ao Marrocos pensei que, por não se tratar da Europa, o cenário seria mais similar ao do Rio. Ledo engano. Embora o transporte público não seja de nível europeu, me chamou a atenção que as ruas não possuem buracos, as estradas têm ótimo asfalto e as principais cidades são conectadas por trens de qualidade razoável. Atualmente, o Rio não está conectado por trens de passageiros a nenhuma cidade fora de sua região metropolitana e não preciso nem citar o estado do asfalto das ruas cariocas. Não me venham dizer que uma cidade marroquina tem mais recursos do que o Rio. Então qual é a questão?

Fica claro, sempre que um carioca viaja ao exterior, que a nossa cidade poderia funcionar melhor, proporcionar uma vida mais digna, oferecer um transporte de mais qualidade e permitir que as pessoas tenham mais tempo para suas próprias vidas e mais conforto nos deslocamentos. O porquê disso não ocorrer passa pela corrupção, pela incompetência, pela falta de vontade e pela inércia de gestão. Enquanto isso, pagamos uma das cargas tributárias mais altas do mundo. Cria-se aí uma sensação de indignação que resulta em muita gente deixando o país e muitos outros querendo mudanças na política. É verdade que a crise econômica afetou os cofres públicos e que o Brasil ainda é um país em desenvolvimento e com renda per capita menor que a dos europeus. Mas pensar que podemos ter aqui o que se vê no exterior não é coisa de filme de ficção. São possibilidades que já existem há anos em países desenvolvidos e que poderiam, com vontade política e seriedade, serem implementadas no Rio de Janeiro.

1 COMENTÁRIO

  1. Linha 4 deveria chegar ao menos até a Alvorada e a Linha 2 deveria ser terminada, possibilitando assim dobrar o número de trens nela.
    Linha Amarela deve URGENTEMENTE passar por nova licitação, a exemplo do que ocorreu com a ponte rio-niterói (cujo valor do pedágio despencou)
    E Supervia e metro tem que ser efetivamente integrados, pagando-se uma única passagem, como ocorre na vizinha SP. Meier e até Santa Cru tem metro SIM

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