Como a hipnose pode auxiliar pacientes com fobias, ansiedade e depressão

A hipnose permite o aproveitamento dos conteúdos psíquicos, para o tratamento de transtornos mentais e doenças orgânicas

Gil Gomes - Diretor do Instituto Brasileiro de Hipnose (IBH) / Arquivo pessoal

Há tempos a hipnose tem sido aplicada como ferramenta no tratamento de doenças orgânicas e de doenças mentais. Através dela, transtornos de ansiedade e depressão podem ser abordados com bons resultados para o paciente. No Rio de Janeiro, o Instituto Brasileiro de Hipnose (IBH) tem sido uma das instituições a empregar a técnica durante as consultas de psicologia. O diretor da instituição, o professor e psicólogo Gil Gomes, conversou com o DIÁRIO DO RIO para tirar as principais dúvidas sobre a utilização da técnica no setting terapêutico.

DIÁRIO DO RIO – O que é a hipnose clínica e como ele pode ser aplicada nas sessões terapêuticas?

Gil Gomes – A hipnose clínica, aplicada à psicologia, é o aproveitamento de um fenômeno ocorrido no âmbito do transe hipnótico durante uma consulta. Ela permite ao terapeuta o aproveitamento dos conteúdos psíquicos acessados, para o tratamento de vários transtornos mentais, como ansiedade, fobias e depressão, por exemplo. Ela pode ainda auxiliar no tratamento de doenças orgânicas. O uso da hipnose no setting terapêutico permite que o paciente tenha um melhor aproveitamento da prática analítica, com mais rapidez e custos menores.

DDR – Qual é proposta da hipnose?

Gil Gomes – A proposta da hipnose é maximizar os resultados, respeitando os limites do paciente. Em um processo de análise convencional, o paciente, muitas vezes, leva muito tempo para acessar conteúdos emocionais e pensamentos disfuncionais. Através do recurso da regressão, o terapeuta pode entrar em contato com eventos que causaram algum tipo de trauma ou desconforto ao paciente e, assim, tratar tais conteúdos com mais facilidade. A hipnose é uma ferramenta que agiliza e encurta o processo terapêutico, de forma bastante satisfatória. Nas experiências que temos, no Instituto Brasileiro de Hipnose (IBH), os pacientes costumam verificar resultados bem interessantes, após 8 ou 10 sessões. Mas é importante destacar que a dedicação do paciente ao tratamento é fundamental para alcançarmos bons resultados.

DDR – Quais profissionais podem fazer uso da hipnose?

Gil Gomes – Como a hipnose é um meio e não um fim, qualquer profissional que atue na área da saúde e tenha formação por meio de instituição reconhecida, pode fazer uso da prática na sua atividade de atuação. O Decreto nº 51.009, emitido pelo presidente Jânio Quadros, em 22 de julho de 1961, permitia apenas aos médicos fazerem uso da hipnose no Brasil. A medida tinha como finalidade impedir que pessoas inescrupulosas empregassem a técnica em espetáculos ou números isolados de hipnotismo, para tirar proveito da pessoa ou submetê-la a situações vexaminosas. Era uma medida protetiva. Como o decreto não foi regulamentado, acabou caindo no governo do presidente Fernando Collor de Mello. Portanto, o profissional da área de saúde que pertence a um conselho pode usá-lo, desde que a entidade tenha regulamentado o uso da hipnose na prática profissional. O conselho de odontologia foi primeiro a reconhecer a técnica da hipnose. Na psicologia, a regulamentação aconteceu, nos anos 2000. A partir daí, a hipnose pôde ser usada como uma ferramenta de apoio terapêutico.

DDR – No caso do dentista, como ele utiliza a hipnose como recurso auxiliar?

Gil Gomes – Ao aplicar a anestesia, o dentista pode lançar mão da hipnose para potencializar esse fim. Além de tornar, o tratamento mais tranquilo, mais humanizado e sem trauma. Há pessoas, no entanto, que têm algum tipo de alergia e não podem tomar anestesia. Nesse caso, o dentista pode usar a hipnose como uma forma de analgesia, que é um dos fenômenos hipnóticos. Atualmente, quase todos os conselhos reconhecem a hipnose como uma ferramenta de facilitação de tratamentos de saúde.

DDR – A pessoa sob hipnose perde a noção do que acontece ao seu redor?

Gil Gomes – Não. Nós temos três níveis de transe hipnótico: leve, médio e profundo. O psicólogo geralmente a trabalha no nível médio, no qual a pessoa tem noção do que está acontecendo à sua volta durante a sessão terapêutica. Na regressão, o terapeuta também pode induzir o paciente a um transe médio. Isso quer dizer que o paciente estará ligado ao que está acontecendo, respondendo às perguntas do terapeuta e tendo uma participação no processo. Nós temos ainda o transe profundo, mais usado por médicos e dentistas. Nesse transe, o profissional vai trabalhar com sugestões diretas. Às vezes, o paciente pode achar que dormiu. Isso, no entanto, não é verdadeiro. Mesmo não estando plenamente consciente naquele momento, ele está de algum modo protegido.

DDR – No transe profundo, a pessoa perde a sua capacidade de interação?

Gil Gomes – Não. A pessoa não perde totalmente a sua capacidade de interagir. Os seus sentidos estão despertos. Por que isso acontece? Para hipnotizar, nós precisamos ter uma relação adequada com o nosso paciente (Rapport). Se a pessoa confia em que está conduzindo o processo, ela não vai ter receio de entrar nos níveis médio e profundo de transe. Há pacientes que ao entrarem em estado de hipnose profundo, despertam assim que o comando de retorno é dado pelo profissional. Isso é um sinal de que ele estava ouvindo o que estava sendo falado.

DDR- É possível induzir uma pessoa sob estado de hipnose a fazer algo que ela não queira?

Gil Gomes – Isso não existe. Toda pessoa tem um conjunto de crenças e valores que norteiam a sua mente e a sua vida. Caso algum comando que contrarie tal conjunto de crenças seja dado, o paciente automaticamente vai abrir os olhos. Ele não perde a noção de quem é, do que aceita ou rejeita. Não há uma suspensão dos seus juízos de valor do paciente.

DDR – Existem pessoas mais suscetíveis a entrar em transe hipnótico?

Gil Gomes – Sim. Geralmente são as pessoas que conseguem fazer uma dissociação maior, ficando com o foco mental no objetivo sugestionado. São pessoas mais fáceis de tratar através da técnica. As pessoas mais resistentes à ela, no entanto, devem passar por um treinamento para serem submetidas à hipnose. Em tal situação, aplicamos exercícios imaginativos, de forma que ela aprenda a fazer visualizações mentais, para dissociar a mente do corpo. Você treina a pessoa para que ela tenha mais condição de entrar em transe hipnótico, para aproveitar o fenômeno que você se propôs a tratar. Existem as pessoas mais suscetíveis e as menos suscetíveis, mas todas podem entrar em transe hipnótico. Toda hipnose é uma auto hipnose. Se a pessoa não quiser ser hipnotizada, ela não será hipnotizada. Ela tem que querer. A clareza da necessidade torna o processo mais fácil. Como diz um amigo meu, Paulo Paixão: “A hipnose é um encontro entre dois especialistas: um é especialista em uma técnica e o outro é um especialista em si mesmo”.

DDR – O senhor disse que a hipnose pode encurtar e baratear um tratamento psicológico. Houve um aumento de pacientes no IBH para a realização de tratamentos?

Gil Gomes – Até bem pouco tempo, a terapia era um recurso voltado para as classes mais altas, pois era caro. Se uma sessão custa R$ 200, o paciente tem que pagar R$ 800 mensalmente. Assim, você descarta boa parte da população de um possível tratamento de saúde mental. Com a determinação da Agência Nacional de Saúde para que os planos de saúde cubram despesas com saúde mental, os atendimentos de psicologia e psiquiatria ficaram mais acessíveis à população. Diante desse novo contexto, nós criamos uma clínica que trabalha com hipnose e psiquiatria. Nós procuramos atender os pacientes a preços acessíveis, apesar de todos os custos que temos como uma empresa privada.

DDR – Qual conselho o senhor daria às pessoas que estão atravessando algum momento difícil em suas vidas?

Gil Gomes – Como psicólogo, recomendo que as pessoas busquem tratamento em qualquer caso de desconforto mental. Faço um apelo para que elas não deixem as coisas piorarem. Existem, atualmente, vários recursos para serem aplicados aos tratamentos mentais. Temos que cuidar da nossa cabeça, pois ela é quem vai desencadear vários resultados positivos ou negativos que vão impactar a nossa vida. A hipnose é uma boa abordagem, pois você otimiza o tratamento e, por consequência, reduz os custos. Ela produzir resultados muito positivos. Cuidar da saúde mental, é cuidar de si.

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