Crítica | ‘Cordialmente Teus’ é um filme contundente e necessário

Filme de Aimar Labaki analisa estruturas brasileiras

crítica cordialmente teus
Cotidianos em diversas épocas (divulgação/Pandora Filmes)

Um dos melhores filmes brasileiros de 2022 já está nos cinemas. É Cordialmente Teus, com direção e roteiro de Aimar Labaki. De forma extremamente teatral, vemos uma crítica incisiva em cima da estrutura brasileira, em específico com relação ao desrespeito enraizado no país com outros seres humanos.

Nessa estreia de Aimar na direção de longas cinematográficos, Cordialmente Teus percorre a história do Brasil desde o passado colonial até um futuro distópico. Porém, além da ótima condução do diretor, uma dos maiores destaques da película é o elenco. O próprio Labaki, após a pré-estreia especial para convidados que aconteceu na noite da última quinta-feira (22), no Estação Net Botafogo, disse que esse é “um filme de atores”. Temos Miriam Mehler, Mawusi Tulani, Debora Duboc, Marcos Breda, Agnes Zuliani, Thaia Perez, Taty Godoi, Clovys Torres, Liz Reis, e outros, que realmente dão um show.

O autor criou dez histórias curtas, que mostram desde 1550 a 2083, e apresentam situações cotidianas de pessoas permeadas por violência, corrupção e desigualdade social. A primeira, por exemplo, traz uma mulher que passa pela aquela situação estressante de passar pela porta giratória do banco, tendo que tirar tudo da bolsa, e depois questiona sua dívida. A injustiça e a ganância do sistema financeiro são explicitadas sem nenhum exagero, de uma forma tragicômica. Em outra história, um português, como se fosse um herói, tenta convencer um índio a ajudá-lo, torturando-o. O plano aberto inicial remete a um palco de teatro, mas os planos fechados pontuais nos permitem apreciar as habilidades dos atores extraindo o máximo de suas expressividades.

Poesia e dor

Em outra história, poética, pessoas escravizadas tentam velar o corpo de um morto. Na seguinte, em 1618, duas judias honram suas tradições secretamente para não serem encontradas pela Inquisição. A cena é linda, com um fechamento emocionante, cheio de alma. O diretor explicou que essa serve como um réquiem, para logo em seguida o filme descer mais fundo na crueldade humana (brasileira), com três cenas específicas sobre tortura.

Uma interessante escolha é que cada final não termina. Sim, cada história fica em aberto, é como o Brasil, que nunca termina com seus problemas, nunca chega a ser o país que deveria e sempre passa pelos mesmos ciclos de crises e desigualdades, onde a injustiça reina e as leis não tem poder. Pelo menos para alguns.

A cena na cadeia consegue ser engraçada e mordaz ao mesmo tempo. No debate posterior ao filme, uma policial penal, Ludmila Abrante, acostumada ao sistema penitenciário, se levantou e deixou claro que a realidade era exatamente daquele jeito. Ainda por cima, disse que divulgaria para seus colegas assistirem.

É impossível ver Cordialmente Teus e não sair reflexivo sobre os rumos do Brasil, sobre Direitos Humanos e as eleições. Ademais, diria que é um longa para ser visto antes de votar.

Por fim, com produção da Lep Filmes e Canal Azul, e distribuição da Pandora Filmes, Cordialmente Teus está nos cinemas das seguintes cidades: São Paulo, Aracaju, Brasília, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Ribeirão Preto.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Olá Álvaro querido, excelente matéria crítica sobre a obra de Aimar, Crdialmente Teus. Me chamo Ludmila Abrante, sou eu a Policial Penal que comentou sobre a cena no cárcere. Gostaria de pedir que atualize essa parte da policial penal, se possível e autorizo que mencione meu nome.

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