Crônicas da Bola: Está escrito. É o destino! O Fluminense chegou à final da Libertadores

O Futebol escreve certo por linhas tortas. Eu, ainda com as mãos trêmulas, decidi escrever esse texto logo após o jogo. Não tão após, porque primeiro precisei esperar minha alma voltar para o corpo. Ela visitou todos os céus e regressou

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Foto: Marcelo Gonçalves/FFC

O Futebol escreve certo por linhas tortas. Eu, ainda com as mãos trêmulas, decidi escrever esse texto logo após o jogo. Não tão após, porque primeiro precisei esperar minha alma voltar para o corpo. Ela visitou todos os céus e regressou. Está sentada à direita do sofá da casa dos meus pais, me dando a mão para eu continuar entre os vivos. A história do Fluminense nesta Conmebol Libertadores parece ter sido roteirizada. Um filme cheio de emoções. Um épico, uma odisseia, quase uma Via Crúcis. Coisa de guerreiro.

Vamos pelo começo da história. A final de 2008, no dia dois de julho é uma noite que não terminou para a torcida do Fluminense. Quinze anos depois, outra decisão no Maracanã e nós estamos. Nós seremos! O sol nascerá, como cantou o tricolor Cartola. 

Em 2008, eliminamos gigantes da América do Sul como São Paulo e Boca. Parecia tudo escrito para aquele título ser nosso. Mas o Futebol, esse indomável, escreve certo por linhas tortas. Nelson Rodrigues também. O Fluminense é viciado em pontos de virada, em subverter a ordem de narrativas que pareciam claras e óbvias. Sem chance para os idiotas da objetividade.

Era fato que ganharíamos da LDU; perdemos. São muitos momentos em que tudo parecia ir para um lado e o Tricolor das Laranjeiras levou para outro. Empurramos o destino. Enganamos a vida. Driblamos o plano com a elegância sutil de Assis. Com a força de Rivelino. A cintura de John Kennedy. 

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Depois da falha de Fábio, gol do Internacional, no Beira Rio, dominando o jogo. Parecia um capítulo encerrado, fica para próxima. Perder faz parte. Mas era o Fluminense em campo. O Fluminense, meu irmão! O meu Fluminense, o Fluminense do meu pai, que falou o jogo inteiro que iríamos virar a partida. Viramos. Somos. Seremos!

O mesmo Fábio que falhou fez uma defesa milagrosa no final do jogo, após nossa virada, perto do fim. Eu já tinha ido. Fui e voltei algumas vezes durante esse jogo. Quase fiquei sem história para contar.

Marcelo, que também cometeu erros na partida contra o Inter, chamou o jogo para si o tempo todo. Jogador grande. Do tamanho do clube que defende hoje. Ele, que pediu bola o tempo todo, foi saindo dela que clareou tudo para Gérman Cano dar o passe que terminou com o gol de John Kennedy. Coisa de cinema. 

O que falar de Gérman Cano? História nenhuma teria palavras para esse personagem. Já é o nome dessa Libertadores. Já é! Artilheiro, garçom, marcador, gandula, amor de todos nós. O pai dessa classificação. E de outras. O pai de muita gente. A benção, meu atacante. O Inter não matou o jogo. O matador mostrou como é que faz. 

Já falo mais de JK. Primeiro, quero falar do meu pai. Decidi ver o jogo com ele, na casa dele, no mesmo lugar onde assistimos a semifinal de 2008, contra o poderoso Boca. Deu certo. Deu águia. Deu urso. Mais cedo, eu havia falado com ele que estava rolando na Internet um meme mostrando que tinha dado urso no Jogo do Bicho e John Kennedy comemora seus gols imitando o animal. O coroa brincou “então vai ser um dele e um do Cano, porque eu tô trocando cano aqui em casa”. E não é que foi? E foi de virada, como meu velho disse que seria. Estava escrito em algum lugar. Tenho certeza. Afinal, vale o que está escrito, não é mesmo? 

Não sei para quais deuses terei que pagar promessa depois desse jogo. Pagarei, prometo. Devo também algumas coisas a Fernando Diniz. Todavia, para esse farei um capítulo à parte aqui em breve. Para esse jogo contra o Inter, invoquei foi todo mundo. ET e todos os santos. Todos os dias nascem deuses, tocam os pernambucanos da banda Nação Zumbi. John Kennedy renasceu. Não vou usar a história do garoto como discurso motivacional, muita gente já fez isso. Narrativa mais que contada.

JK pode até ser um milagre como dizem. Um milagre que faz milagres. Os deuses inventam tudo e todos os dias nascem deuses. E renascem. O Futebol escreve certo por linhas tortas. A história está escrita. É o destino. Já foi o que tinha que ser. Seremos? Eu quero que sim, mas não sei. Sei que no momento já somos. Estamos no céu. Estamos na final. É o destino. Somos a história.

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