Dani Monteiro: Por uma consciência negra o ano inteiro

'Se somos a maioria da população, o que mesmo justifica que ainda sejamos empurrados a abrir mão da nossa ancestralidade, dos nossos cabelos e da nossa cultura, a viver nas favelas como prolongamento das senzalas?'

Foto: Divulgação

Domingo não será um dia qualquer. No próximo 20, data dedicada a Zumbi e à Consciência Negra, é possível que tenhamos muitas celebrações espalhadas pelo Brasil adentro. Terão se passado três semanas daquela eleição que não esqueceremos. Precisamos nos livrar do ranço dos últimos quatro anos. Mas a ocasião bem que pode servir para nos livrarmos de um ranço mais antigo que é o açoitamento a que os pretos são submetidos desde que chegaram por aqui. Se somos a maioria da população, o que mesmo justifica que ainda sejamos empurrados a abrir mão da nossa ancestralidade, dos nossos cabelos e da nossa cultura, a viver nas favelas como prolongamento das senzalas? Vamos pensar sobre o assunto?

O Novembro Negro representa muito, mas diz pouco sobre o que realmente queremos e precisamos. Na verdade, não queremos tanto assim, ou é demais pedir que nos garantam o espaço que é nosso por direito? Eu aposto que você, que está lendo esse texto, concorda comigo que pretos merecem ter sua representatividade proporcionalmente garantida. Eu tenho certeza de que você concorda que um país em que todos são tratados de forma igualitária em direitos e oportunidades é um país mais feliz. Eu estou certa de que você concorda comigo que segregação prejudica a todos e que esse papo de que padrão branco é o que vale é nocivo à exaustão. Bora combinar que o nosso cabelo e a nossa pele e os nossos corpos inteiros são diferentes mas igualmente belos?

Nesse Brasil que sabemos precisar ressurgir das cinzas espalhadas nos últimos anos, preto não é minoria. Nem nunca foi. Se você olhar para a História com atenção, é questão quase que de mera lógica enxergar quem pavimentou essa nação. Povos originários, que chama? De alguma forma, nossas formas de cura, nossas ervas chegaram até você. Nosso batuque, certamente ecoa por aí. Não fomos escravizados à toa, você sabe bem o valor que nós temos. Há uma lógica de dominação muito anterior a nós e que você pode até pensar que não, mas ela também não é boa pra você. Corpos brancos também servem à lógica de dominação, não se engane. Hoje sou eu, amanhã, ninguém sabe, mas pode ser você.

Os números já mostram que os pretos representam a maioria da população brasileira. Diz o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Veja você que 56,1% dos brasileiros se declaram negros, grupo que reúne pretos e pardos. Por que mesmo somos tão poucos ou quase nulos quando se tratam dos cargos de decisão, por exemplo? Você acha que está certo? Eu mesma, quando olho o Parlamento estadual, o meu lugar atual, vejo com estranheza haver tão poucos com a minha cor. Igualdade de raça e gênero é sinal de dignidade não apenas para a população, mas é sinal de um país que se enxerga e abrange a formação que tem. Um país que respeita a sua história.

Já está mais do que na hora de aceitarmos a diversidade e de garantirmos o empoderamento das pessoas pretas. Não é muito. É apenas o necessário. Dignidade para todos, vamos levantar essa bandeira? Não é justo que esperemos um dia ou mês para chamar de nosso. Precisamos de consciência negra o ano inteiro.

Este é um artigo de Opinião e não reflete, necessariamente, a opinião do DIÁRIO DO RIO.

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