Dani Monteiro: Racismo não tem graça

Deputada reforça a necessidade de aplicação rigorosa da lei em casos de racismo recreativo

Racismo recreativo é crime, e essa afirmação não deveria ser vista como mera retórica. Mas é. Na semana em que a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância do Rio de Janeiro abriu inquérito para investigar a conduta de duas influenciadoras por postaram vídeos fazendo uma espécie de “brincadeira” com crianças pretas, é preciso falar sobre o tema e o quanto ele ainda nos atravessa.

Vamos combinar que oferecer banana, um macaco de pelúcia e dinheiro para crianças escolhidas pela sua cor não deveria causar cócegas em ninguém. Mas se há oferta, certamente há demanda e falta de empatia a quem vê graça no que é grotesco e merece todo repúdio que formos capazes de declarar e combater.

Nancy Gonçalves e Kerollen Cunha, as duas acusadas, estão sendo investigadas. Caso sejam condenadas pela produção do vídeo com o intuito de descontração, diversão ou pura recreação – com o agravante de divulgarem na internet -, podem pegar uma pena de até sete anos e meio de prisão. É o que está previsto na Lei 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Ressalto o ano da lei para reforçar o quanto aprendemos pouco ou quase nada sobre preconceitos de raça ou de cor desde que ela foi sancionada.

Para quem ainda tolera, vale esclarecer: racismo recreativo é aquele em que se estabelece o preconceito sob o disfarce de brincadeira. Pode parecer piada associar uma criança a um macaco, mas, com todo respeito aos bichos, não é. Trata-se de puro disfarce e acobertamento do ódio racial que ainda nos impregna e ressoa nas ruas, nas escolas, nos estádios de futebol, nas praças, nos palcos. O rechaço e o rancor que tanto nos marcam como sociedade vêm, muitas vezes, de onde menos se espera.

No livro Racismo Recreativo, o professor Adilson Moreira apresenta argumentos suficientemente fortes para que se afirme que o humor racista não tem como ser benigno. Serve, isso sim, para perpetuar a reprodução de estereótipos negativos e ideias depreciativas sobre minorias raciais. Estranho é que, no Brasil, pretos ainda estejam enquadrados na categoria minoria, por mais que os dados demográficos explicitem qual é a cor da nossa população.

Ações como a de Nancy e Kerollen, portanto, servem para reforçar a marginalização a que os negros são submetidos historicamente. O Brasil precisa superar, urgentemente, o fetiche de que há uma suposta superioridade racial de brancos. Assumir que o racismo é real pode ser o primeiro passo, uma vez que das leis nós já dispomos, e o crime de injúria racial, inclusive, passou a ser equiparado ao de racismo desde janeiro deste ano. Se as regras existem, que as punições sejam aplicadas a quem comete atos de discriminação seja por cor, por etnia ou por raça.

Por agora, deixar de usar a liberdade de expressão como mote para o preconceito escancarado em piadas ofensivas também pode nos ajudar a crer que, um dia, seremos todos melhores. Por fim, educar crianças, jovens e adultos para uma vida menos ordinária, o que só o respeito ao diferente pode nos garantir.

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1 COMENTÁRIO

  1. Racismo é racismo! Criar essas subdivisões como “recreativo”, “estrutural” e a pior delas, o “antiracismo” só para citar estas não ajuda em nada na solução. Apenas melhora a divisão e, quanto mais se divide, menos se resolve. Quanto as “influenciadores”, uma reflexão sobre o que pior: o ato cometido pelas “recreadoras” de celular, o efeito ou o interesse gerado a milhares de seguidores que as sustentam, a causa, que monetizam essas diversões macabras?

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