Papo de Talarico: A jura de morte

A dor na barriga do menino vira rancor e ainda Vera Verão

Meninos e a Peça Jorge Pra Sempre Verão
Peça 'Jorge Pra Sempre Verão' no Teatro Ipanema (foto: Alvaro Tallarico)

“Isso, aí sim, isso que é bom, cachorro, bicho leal, amigo, bem melhor que gente”, disse a senhora com seus cabelos curtos e grisalhos enquanto eu estava na esquina com minha cachorra. Respondi de pronto: “Ah, tem gente traidora e falsa por aí, claro, mas não são todos, as pessoas também tem seu valor”. Ela ficou quase sem jeito, como se não esperasse minha discordância e mandou: “Sim, tem valor, valor de merd…”

No mesmo dia, vi a face do rancor numa criança de aproximadamente 8 anos. Chegando perto do espaço para cães, dois meninos brincavam de futebol. Um se distraiu e o outro deu a famosa bicuda na bola, a qual explodiu com força na barriga do distraído.

O menino recuou alguns passos, em câmera lenta, como um personagem ferido em um filme de ação, e caiu no chão, começando a chorar. O outro ficou impassível, tranquilo. Após alguns segundos, aquele que levou a bolada foi levantando e iniciou suas acusações para o homem careca que parecia seu pai, vendo-o como um juiz, em busca de ajuda. “Ele fez de propósito, porque eu estava conversando, falando com você!”. O pai levantou calmo, procurando jogar panos quentes e disse que aconteceu por causa da distração.

Um dia verão

Raivoso, o atingido jurou o outro: “Você está ferrado (em verdade, ele falou um palavrão pesado, começando com fu), vou te estourar”. O pai seguiu em busca de acalmar os ânimos, uma mulher se assustou com o palavrão proferido pela criança. O garoto que deu a bicuda seguia com uma frieza impressionante. Nada respondia e continuava a brincar com a bola. Teria realmente feito de propósito?

Um dia depois, fui convidado para ver o espetáculo Jorge Sempre Verão, onde a prima de Jorge Laffond, que ganhou fama com a personagem Vera Verão, fala sobre o primo que ela nunca conheceu pessoalmente. Um pedido de desculpas em forma de teatro. Aline Mohamad cresceu sofrendo bullying devido ao parentesco com o primo famoso e hoje usa a arte para analisar a sua trajetória e a de Jorge. A peça é divertida e ao mesmo tempo extremamente crítica ao racismo e homofobia.

Enfim, ao sair do Teatro Ipanema, enquanto o público ainda aplaudia, lembrei da senhora do primeiro parágrafo falando que os cães são melhores que as pessoas.

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