Dos temporais ao forte calor, como a crise climática afeta a saúde mental de moradores do Rio de Janeiro

Fortes chuvas que causam devastação, calor extremo e outros eventos climáticos estão sendo motivos para que pessoas desenvolvam ansiedade, estresse e outras doenças

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Foto: Cleomir Tavares/Diário do Rio

Estamos no início de 2024 e o “janeiro branco” traz uma série de campanhas e ações voltadas à saúde mental das pessoas. Esta época do ano também é marcada por ondas de calor extremo e fortes chuvas. São os momentos em que nós, moradores do Rio de Janeiro, mais sentimos as consequências da crise climática que afeta todo o planeta. O que pouco se fala é que esses dois paralelos citados nas primeiras linhas desta reportagem têm se cruzado cada vez mais: os problemas climáticos estão adoecendo mentes com muito mais frequência.

De acordo com um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), publicado em 2022, as mudanças climáticas representam sérios riscos para a saúde mental e o bem-estar psicossocial. Sofrimento emocional, ansiedade, depressão, luto e comportamento suicida estão entre os problemas que o aumento acelerado das mudanças climáticas pode causar.

“Os impactos das mudanças climáticas fazem cada vez mais parte do nosso cotidiano, e há muito pouco apoio dedicado à saúde mental disponível para as pessoas e comunidades que lidam com perigos relacionados ao clima e riscos de longo prazo”, declarou Maria Neira, diretora do Departamento de Meio Ambiente, Mudanças Climáticas e Saúde da OMS.

A análise de políticas destaca que os impactos da mudança climática na saúde mental acontecem de forma diferente para cada pessoa afetada, dependendo de alguns fatores como condição socioeconômica, gênero e idade.

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Um estudo da Associação Americana de Psicologia mostra que as taxas de suicídio em áreas afetadas pelo furacão Katrina, em 2005, mais do que dobraram. No mesmo grupo, uma em cada seis pessoas apresentou sintomas de transtorno de estresse pós-traumático e quase 49% desenvolveram ansiedade ou outros transtornos de humor, como a depressão.

“Este tema precisa ser incluído no debate. A perda de pessoas queridas, de bens materiais – e, muitas vezes, da própria casa e dos meios de subsistência –, abre uma profunda ferida emocional. Estes distúrbios atacam o sistema imunológico, com reflexos sobre a saúde física, e a preocupação – real ou imaginária – com a ocorrência de novos acidentes estimula o aumento ou abuso no consumo de drogas e álcool. Isto tem grande impacto sobre o sistema de saúde, com o crescimento da demanda por consultas e internações hospitalares, e sobre a própria economia do país, com o aumento nos pedidos de licença médica ou de aposentadorias por invalidez. Uma conta, no frigir dos ovos, paga por todos”, afirmou o psiquiatra Jorge Jaber.

A modelo e influenciadora Ana Paula Costha é uma das pessoas que desenvolveu problemas de saúde mental após sofrer com um evento climático. Ela foi uma das muitas vítimas das fortes chuvas que caíram na cidade de Petrópolis em 2022.

Ana conta que presenciou muita destruição pela cidade, tendo que enfrentar o caminho até um lugar seguro com seus filhos pequenos, de colo, e até uma morte ela viu de perto. Depois disso, sua vida mudou completamente. “Quando o tempo está ruim, eu já fico ansiosa. Não consigo mais sair na chuva. Me traz péssimas lembranças. Antes, eu curtia dias chuvosos para ficar em casa, ver TV. Agora, eu fico com crise de ansiedade, porque lembro de tudo de ruim que vi naqueles dias que vivemos aqui”.

Ângela Azevedo, de 14 anos de idade, também desenvolveu forte ansiedade após as chuvas de 2022 em Petrópolis. A menina quase ficou soterrada na escola onde estudava.

“Caiu uma barreira e no desespero tentaram quebrar as janelas. Conseguiram quebrar algumas partes da janela e começaram a passar algumas pessoas que estavam lá presas junto comigo. Depois abriram um caminho na escada onde a barreira caiu e eu consegui sair. Quando sai de lá, não tinha como ir para minha casa, então fui para uma igreja próxima, onde minha tia estava e fiquei lá até anoitecer. Só consegui ir para minha casa às 22h. No dia seguinte, tivemos que deixar nossa casa e fomos para a casa de parentes”, lembra Ana, que encontrou no esporte uma forma de lidar com a ansiedade que desenvolveu. Ela pratica luta hoje em dia. “Lutar me ajudou a esquecer um pouco disso tudo”.

A psicóloga Samira Younes-Ibrahim, do EICOS da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ –, escreveu um artigo baseado em relatos de sobreviventes das tempestades de Petrópolis em 2011.

“Nos últimos anos, os desastres têm se multiplicado no planeta e são acompanhados por violências objetivas e simbólicas, estas últimas difíceis de mensurar. Ações emergenciais são executadas, porém, o sofrimento dos sobreviventes continua para além das fases de resposta e recuperação, perdurando através do tempo“, disse Samira.

Ainda de acordo com a psicóloga, “as políticas públicas existentes, ou a falta delas, refletem diretamente na saúde mental dos sobreviventes de desastres, diminuindo ou prolongando o sofrimento social dos sobreviventes, o que pode comprometer a saúde integral dos mesmos. Uma recomendação é o desenvolvimento de uma linha de cuidado em saúde mental para as pessoas sobreviventes de desastres. Algumas questões comuns aos desastres, após o dia “D”: problemas com os esforços para a localização dos desaparecidos, desconsideração com a preservação da vida comunitária (quando possível), não priorizar a dignidade com relação ao direito à moradia (“embrolhos” no aluguel social e definição quanto à casa própria e o tempo de espera para isso. Têm famílias com 10 anos em situação de aluguel social), problemas com relação à indenizações ou compensações, entre outras situações. Situações que às vezes não são consideradas no contexto do sofrimento do sobrevivente para compreender seu estado e reações. O anormal é a situação complexa vivida por ele e não o sobrevivente”.

Moradora de Santa Cruz, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, Cida Motta desenvolveu um elevado nível de estresse após as últimas fortes ondas de altas temperaturas. “Minha casa é pequena, de telha, moro com minha família. Quando veio esse calorão, eu fiquei doente. Uma coisa que nunca tinha sentido. Uma sensação horrível. Só de pensar naquele calor, eu já começo a passar mal”.

Santa Cruz foi um dos bairros que bateu recorde de sensação térmica no Rio de Janeiro ano passado. Os termômetros chegaram a marcar 58°C.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, os governos devem considerar o bem-estar emocional como prioridade em planos de ação climática. Procurados pela reportagem do DIÁRIO DO RIO, Prefeitura da capital e Governo do Estado não enviaram declarações a respeito de eventuais planos públicos que possam ser postos em prática para diminuir este problema.

“Diante deste quadro, e da triste certeza de que cedo ou tarde veremos novos episódios do gênero, precisamos, autoridades constituídas e sociedade civil, jogar luz sobre iminência do aumento destes transtornos. A solução para as graves questões ambientais não está à vista, mas com campanhas de prevenção e mais investimento na rede pública de saúde, teremos uma resposta mais abrangente para as futuras tragédias, tratando os atingidos em sua plenitude física e psicológica. Pobres ou ricos, moradores da periferia ou de áreas nobres, somos todos, vale lembrar, vítimas potenciais deste desastre anunciado“, frisou Jorge Jaber.

Para a psicóloga Samira Younes-Ibrahim, “um desastre dura enquanto durar o sofrimento social dos sobreviventes. Ele não se limita ao tempo cronológico do acontecimento, mas, sim, ao tempo emocional e social de elaboração das rupturas sofridas com o desastre, em processos individuais e comunitários, em sua maioria agravados por questões políticas, econômicas e sociais”.

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