Ediel Ribeiro: Negreiros, o nosso sempé

Negreiros tinha como marca-registrada o traço ‘sujo’, humor inteligente e criativo. Seu estilo era parecido com o do cartunista francês Sempé. Muito preto e branco, cinza e com ranhuras. O artista morreu nesta quarta-feira, (22/03), em São Paulo, vítima de um ataque cardíaco

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Conheci Negreiros no ‘Jornal da Tarde’. Eu era fã do vespertino da família Mesquita. Lia todos os dias. O ‘JT’ – como era carinhosamente chamado pelos leitores – era um jornal alegre, irônico e divertido. Tinha o humor que faltava à ‘Folha de São Paulo’ e ao ‘Jornal do Brasil’, outros dois jornais que eu lia, diariamente.

O JT da família Mesquita, de ‘O Estado de S. Paulo’, foi concebido e idealizado por Mino Carta – com o auxílio de Murilo Felisberto. O ‘Jornal da Tarde’ foi um dos jornais brasileiros que apostaram na escola do new journalism americano de Gay Talese e Truman Capote. Minhas primeiras leituras eram os textos do Carlos Brickmann, ilustrados pelo Negreiros, o suplemento ‘Divirta-se’ e as histórias em quadrinhos.

Negreiros tinha como marca-registrada o traço ‘sujo’ e o humor inteligente e criativo. Seu estilo era parecido com o do cartunista francês Sempé. Muito preto e branco, muito cinza e muitas ranhuras.

Roberto Negreiros nasceu em São Paulo, em 1955. Cartunista e ilustrador, teve seu primeiro trabalho remunerado como desenhista, ainda na infância, aos 6 anos de idade.

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Foi formado em produção visual, artes plásticas e jornalismo. Trabalhou como ilustrador no ‘Jornal da Tarde’, nas revistas ‘Piaui’, ‘Veja’,  ‘Ilustrar’, ‘Playboy’ e na ‘Cripta’, revista de terror, editada pelo Ota. Trabalhou também para as editoras ‘Três’,  ‘Abril’ e ilustrou vários livros.

Negreiros conseguia ser ao vivo tão ou mais engraçado do que as figuras que desenhava. Recebia a todos que o procuravam na redação do ‘Jornal da Tarde’ com muito humor e carinho. Dependendo do nível de amizade, o visitante ainda saía do JT com um original assinado pelo cartunista.

Escreveu e ilustrou, junto com os também ilustradores Ale Kalko e Orlando Pedroso o livro “Com a Palavra, Os Ilustradores”. Um projeto original, que reuniu em um box, três livros dos talentosos ilustradores. Na obra – uma publicação da ‘Mandacaru’, com edição de Bebel Abreu e André Valente –  os autores foram buscar em sua memória – e resgataram com ilustrações – casos da infância, adolescência, o início das carreiras e casos emocionantes e  divertidíssimos.

Para o cartunista José Alberto Lovetro, o JAL – presidente da Associação dos Cartunistas do Brasil. “Negreiros desenhava como um escultor, esculpindo com traços leves e ágeis sua obra”.

Um dos maiores desenhistas e artistas gráficos do país, Negreiros também era apaixonado por música, em especial pelos instrumentistas de jazz dos anos 20. Músico bisexto, tinha até uma certa intimidade com o ukulele.

A arte de Negreiros, um misto de desenho e poesia, ficou órfã do seu criador, mas os fãs do cartunista ainda podem conseguir um original do artista. Sua obra está à venda por R$150, (incluso despesas de postagem) em vários formatos. Os Interessados, devem entrar em contato inbox, na página do Facebook do artista.

O artista morreu nesta quarta-feira, (22/03), em São Paulo, vítima de um ataque cardíaco. Negreiros era casado com Anderson Barros.

*Ediel Ribeiro é jornalista, cartunista e escritor.

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Jornalista, cartunista, poeta e escritor carioca. É colunista dos jornais O Dia (RJ) e O Folha de Minas (MG) e Diário do Rio (RJ) Autor do livro “Parem as Máquinas! - histórias de cartunistas e seus botecos”. Co-autor (junto com Sheila Ferreira) dos romances "Sonhos são Azuis" e “Entre Sonhos e Girassóis”. É também autor da tira de humor ácido "Patty & Fatty", publicadas nos jornais "Expresso" (RJ) e "O Municipal" (RJ), desde 2003, e criador e editor dos jornais de humor "Cartoon" e "Hic!"
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